Bruna Surfistinha

março 21, 2011 at 9:30 pm 27 comentários

Quem for assistir “Bruna Surfistinha”, filme dirigido pelo estreante Marcus Baldini, esperando ver uma visão romantizada da profissão de garota de programa (tipo o que foi visto em “Uma Linda Mulher”, de Garry Marshall), irá se decepcionar. Baseado no livro “O Doce Veneno do Escorpião”, o qual foi inspirado pelas experiências de Raquel Pacheco na profissão, o longa adota um tom bastante realista na exposição de como é difícil a tarefa de entregar seu próprio corpo para sobreviver.

Você pode analisar “Bruna Surfistinha” sob dois pontos de vista: o filme acerta muito no retrato de como a personagem título vai se impondo em cima da personalidade de Raquel Pacheco (ao ponto de ela não existir mais dentro dela mesma), afinal a jovem criada em família privilegiada caiu de para quedas (conscientemente, diga-se de passagem) no mundo da prostituição, começando de baixo até chegar ao topo (especialmente após ela criar seu blog, que tinha cerca de dez mil visitantes diários e angariou para ela dezenas, centenas de clientes).

Por outro lado, o filme erra muito no desenho da motivação de Raquel Pacheco ao abandonar a sua vida para se transformar em Bruna Surfistinha. O discurso dela (“quero não depender de ninguém”) não combina com a trajetória prévia dela. Pressão da família para que sejamos alguém e um ambiente familiar difícil, todos nós temos. Isso não é justificativa pro caminho fácil que Raquel escolheu. O que o filme dá a entender, na verdade, é uma grande contradição, o que exige até um entendimento psicológico de Raquel. Se ela já tinha uma imagem distorcida diante dos seus pares (o longa tem uma cena que ilustra muito bem isso), as escolhas de Raquel me parecem muito mais terem sido determinadas por uma vontade inconsciente da jovem de corresponder à percepção que as pessoas em geral já tinham dela.

Para interpretar Bruna Surfistinha, era crucial que o diretor Marcus Baldini encontrasse uma atriz que pudesse incorporar tanto a inocência inicial quanto o fulgor posterior da personagem título. Ele encontra muito bem essas qualidades na figura de Deborah Secco. As línguas maldosas irão dizer que a atriz não precisou se preparar muito para interpretar este personagem, já que ela interpretou diversas variações da jovem provocante ao longo de sua carreira como atriz. Mas, a verdade é que, assistindo ao trabalho de Deborah em tela, você vê a entrega dela à personagem, alternando aqueles momentos de inércia com os de euforia, sabendo conduzir muito bem Bruna/Raquel diante de todas as armadilhas e tentações que a vida impôs diante dela.

O filme tem muitas outras qualidades, como a trilha sonora, a montagem de Manga Campion e Osvaldo Santana e um sólido elenco de apoio (com destaques para Fabíula Nascimento, Guta Ruiz e a atriz que interpreta Gabriela, a melhor amiga de Bruna). A lamentar, especialmente, o modo descuidado e solto como a subtrama com o personagem de Cássio Gabus Mendes (o qual foi baseado no ex-cliente que se tornou marido de Raquel) é levada. O final da obra, além de corrido demais, deixa a impressão de que muita coisa ficou de fora nessa história…

Cotação: 6,0

Bruna Surfistinha (2011)
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto e Antônia Pellegrino (com base no livro de Raquel Pacheco)
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Cristina Lago, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Guta Ruiz

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Cena da Semana* Desconhecido

27 Comentários Add your own

  • 1. Mayara Bastos  |  março 21, 2011 às 10:41 pm

    Li uns comentários mistos sobre o filme, mas unanimes com relação a atuação da Deborah, um dos motivos de eu querer dar uma chance ao filme.

    Beijos! 😉

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  • 2. Fael Moreira  |  março 21, 2011 às 11:14 pm

    É isso mesmo Kamila. Acho que o problema de ‘Bruna Sufistinha’ foi a restrição no roteiro. As atuações são ótimas, mas os personagens deixam a desejar em sua construção. Acho não só o final corrido, mas o começo também. Parece que há uma pressa em mostrar logo a vida de prostituição de Bruna, pelo menos tive essa impressão. Esse curto período do prólogo não serve para o espectador como justificativa aos atos de Bruna. Beijos.

    Responder
    • 3. Kamila  |  março 21, 2011 às 11:31 pm

      Mayara, a Deborah está excelente neste filme! Muito bem MESMO! Beijos!

      Fael, exatamente, me sinto como você. Beijos!

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  • 4. Victor Nassar  |  março 21, 2011 às 11:36 pm

    O burburinho em torno do filme é grande ainda. Como bem disse a Mayara, o que parece ser consenso é a atuação de Débora Secco. O fato curioso é que ainda não pude ver o filme, por pura pressão da namorada haha E é exatamente por isso que a equipe de Marketing colocou nos cartazes algo do tipo “Seu namorado quer ver? Mostre pra ele!”. Há a jogadinha de trocadilho aí, tentando levar à ousadia, bem como as outras tantas frases divulgadas, como “A história de uma garota de família. Até a cena 2” ou “Um programa para fazer de casal”.

    Mas acho que erraram o tom, tornando isso apelativo, quase um filme pornô. Como se o único atrativo fosse o sexo propriamente dito, desmerecendo a própria capacidade técnica, de direção, roteiro… que o filme possa ter. Se a própria Bruna Surfistinha faz a ligação com a sexualidade, poderiam tentar explorar justamente um outro ponto sem demagogia ou ingenuidade.

    Se a tentativa é eliminar o preconceito, como outra frase divulgada “Vá com seu namorado, suas amigas ou sozinha, só não vá com preconceito!”, acho que a campanha foi um tiro no pé. Embora saiba que não há pretensão nenhuma de tocar em uma temática séria (pelo menos pelos cartazes). Aliás, acredito que funciona a ideia de tentar fazer brincadeirinhas para escrachar o tema e fazer mais pessoas irem sem vergonha. Funciona, mas banaliza.

    Como se contasse de simplesmente trazer público para fazer dinheiro e não quisesse apontar para a grave questão social que é a prostituição.

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  • 5. Victor Nassar  |  março 21, 2011 às 11:38 pm

    ERRATA: “Como se ***contentasse*** de simplesmente…”

    Responder
    • 6. Kamila  |  março 21, 2011 às 11:41 pm

      Victor, o tom do marketing pode ser apelativo, mas, no filme, o sexo não é apelativo! Pelo contrário. O diretor fez cenas de excelente tom, sem nunca cair pra vulgaridade. Acho que tentar entender o que leva uma jovem como a Raquel ao mundo da sexualidade é o grande fator de atração desse filme e é o elemento no qual ele mais peca…. A campanha foi, sim, um tiro no pé. Mas, conscientizar sobre a prostituição é uma coisa que esse filme não quer. O foco dele é outro. É a história de Raquel.

      Responder
  • 7. Wallace  |  março 22, 2011 às 1:00 am

    Eu acho os momentos iniciais do filme, que buscam apresentar a personagem ainda adolescente, bem fracos mesmo. Talvez pudessem até ter sido limados da história, sei lá. A trajetória da personagem enquanto garota de programa é mostrada com um bem-vindo misto de delicadeza e realismo, Baldini acertou em cheio no tom aí. O miolo do filme é muito bom. Mas acho que todas as sequências que buscam retratar a decadência de Bruna são apressadas demais, com essa queda soando meio forçada, artificial. Mas gosto da última cena da personagem com o Cássio Gabus. E a Deborah está ótima mesmo.
    Enfim, bom filme, que poderia ser muito melhor (mas que também corria o risco de ser muito pior).

    Responder
  • 8. Paulo Ricardo  |  março 22, 2011 às 1:12 am

    Confesso que tenho um certo preconceito em relação a esse filme.Parece que a moda é do “anti-herói”.Tantos exemplos bem sucedido de grandes empresários,cientistas,professores que jamais teve a vida reconhecida na grande tela.Vips e Bruna Surfistinha são exemplos dessa moda.Vips vou dar uma chance pelo Wagner Moura e esse filme estou seriamente pensando em ver nos cinemas.Apesar da nota 6,0 sua critica foi até positiva.Beijos.

    Responder
  • 9. Alan Raspante  |  março 22, 2011 às 3:10 am

    Olha, menina fiquei esperando contarem o momento em que Bruna Surfistinha virou estrela pornô, mas, cortaram isso do filme! rs Seria bacana se tivesse, já que em algumas declarações ela disse que odiou fazer. Enfim, de um modo geral eu curti o filme. Achei bacana e bem feito!

    []s

    Responder
    • 10. Kamila  |  março 23, 2011 às 1:21 am

      Wallace, grande comentário! Perfeito! Concordo com tudo!

      Paulo, não tenha preconceito com esse tipo de filme. “Bruna Surfistinha” é até melhor do que muita gente esperava. Beijos!

      Raspante, acho que falar sobre o passado de estrela pornô da Bruna não era o foco deste roteiro. Eles queriam falar mais sobre a ascensão e a queda dela. Abraços!

      Responder
  • 11. Rafael W. Oliveira  |  março 22, 2011 às 4:19 am

    Filme inútil, completamente sem objetivo. E Deborah Secco já atuou da mesma forma em outras novelas.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

    Responder
  • 12. Cassiano  |  março 22, 2011 às 12:57 pm

    Me incomodou um pouco a presença da Debora Secco, não pela atriz, mas pela diferença entre ela e a verdadeira Raquel, o que impossibilita qualquer avaliação do perfil verídico do filme.

    Responder
  • 13. Flávio  |  março 22, 2011 às 1:36 pm

    Oi Kamila, confesso que não tenho muita simpatia pela Débora, apesar de gostar dela em papéis cômicos. Adoro a Fabiola Nascimento, ótima atriz…quanto a “personagem” Bruna Surfistinha, acho que é mais uma a ser enquadrada naquele grupo de subcelebridades nacionais, tal qual se tornou a mãe daqueles Octogemeos, se não me engano – nos EUA, ou até mesmo Geisy Arruda. Fico de cara com essa tal Raquel ainda não foi convidada para um Reality Show, ou se tornado cantora de funk…rs

    Responder
    • 14. Kamila  |  março 23, 2011 às 1:23 am

      Rafael, discordo, discordo. E discordo! 🙂

      Cassiano, apesar de serem diferentes fisicamente, acho que a Deborah foi a escolha perfeita para esse papel.

      Flávio, acho que a Raquel já teve tanta exposição na vida dela que, hoje, ela prefere a discrição. E, pelo relato do que assistimos no filme, dá até para compreender esse desejo dela.

      Responder
  • 15. Reinaldo Matheus Glioche  |  março 22, 2011 às 2:02 pm

    É… vc cobriu bem as arestas. Elogiou o que precisava elogiar e fez as ressalvas que precisavam ser feitas…
    Bjs

    Responder
  • 16. João Linno  |  março 22, 2011 às 2:31 pm

    Eu gostei do filme. Boas atuações e roteiro bem amarrado. Não consigo imaginar outro desfecho pra história, afinal, Raquel ainda está viva.

    Responder
  • 17. Luis Galvão  |  março 22, 2011 às 4:39 pm

    Pois é. A Secco é só elogios geral e o filme em si também é algo muito melhor do que esperavam. Como você disse, apenas o roteiro que não conseguiu o aprofundamento nas motivações de Raquel com eficiência. O resto, é só aproveitar o bom.

    Responder
    • 18. Kamila  |  março 23, 2011 às 1:24 am

      Reinaldo, obrigada! Beijos!

      João, concordo!

      Luís, exatamente.

      Responder
  • 19. Otavio Almeida  |  março 22, 2011 às 6:08 pm

    Deborah Secco está bem mesmo. Mas, convenhamos, ela só faz esse tipo de papel. Só que no filme foi mais… intenso. Ou o foco ficou nela. Quero ver ela fazendo o papel de Natalie Portman em “Cisne Negro” ou o de Nicole Kidman em “Rabbit Hole” Aí sim ela terá meu respeito. Aqui, ela tira de letra.

    Bjs!

    Responder
    • 20. Kamila  |  março 23, 2011 às 1:25 am

      Otavio, sim, verdade. Mas, se formos pensar assim, a Fabiula Nascimento também só faz esse tipo de papel… 🙂 Beijos!

      Responder
  • 21. Amanda Aouad  |  março 23, 2011 às 1:55 am

    Isso, essa questão de por que ela virou prostituta ficou muito mal resolvida mesmo. Assim como a parte final ter passado em um piscar de olhos, ficando confusa e apressada. Mas, no geral, eu gostei do filme, principalmente da atuação de Deborah.

    Responder
  • 22. Diego  |  março 23, 2011 às 7:15 pm

    Foi uma boa surpresa esse filme, a Deborah está muito bem, muito bom trabalho, minha nota foi 7.5!
    Abs! Diego!

    Responder
  • 23. fátima  |  março 23, 2011 às 7:38 pm

    ainda não vi o filme porque aqui no cinema estao esgotados os bilhetes mais ainda verei……esse filme é o mais comentado aqui em Porto seguro bahia……………………

    Responder
    • 24. Kamila  |  março 23, 2011 às 11:13 pm

      Amanda, exatamente. Concordo contigo!

      Diego, o filme é uma surpresa mesmo! Abraços!

      Fátima, acho que esse deve ser o filme mais comentado do momento em muitos lugares. Obrigada pela visita e pelo comentário!

      Responder
  • 25. larissa  |  março 27, 2011 às 4:24 pm

    nossa a deborah seco ta lindah!!!!!!!!
    muito bom esse filmee…..

    Responder
  • 26. renata  |  março 27, 2011 às 5:25 pm

    raquel oi tudo bem,estou asssistindo vc no programa Ana Hickman.olha seja quem vc é porquer ninguém jamais podera te julgar de maneira nenhuma nem pelo que vc foi e nem pelo que vc se tornou.somente vc sabe o que vc passou durante os três anos e pelo vc passa até hoje. á se dê mande um recado no meu blog:diariodeadolecente158@bol.com.
    beijos de uma adolecente chamada renata

    Responder
    • 27. Kamila  |  março 27, 2011 às 9:04 pm

      Larissa, a Deborah está ótima mesmo nesse filme!

      Renata, acho que você confundiu as coisas. Esse blog aqui não é da Raquel….

      Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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