Cena da Semana

(“Superbad – É Hoje” [2007] – diretor: Greg Mottola)

Alguém avisa, por favor, ao senhor Nima Nourizadeh, diretor de “Projeto X – Uma Festa Fora de Controle”, que festas de adolescentes são filmadas de uma maneira BEM melhor desse jeito… E ainda possuem sexualidade, brigas, risadas, tiração de onda e o desejo de se tornar popular sem estimular a irresponsabilidade total e irrestrita, como o longa dele faz…

março 18, 2012 at 8:44 pm 12 comentários

Reis e Ratos

O filme “Reis e Ratos”, que foi escrito e dirigido por Mauro Lima, se passa em um dos momentos cruciais da história do Brasil: as vésperas do Golpe Militar ocorrido em 31 de março de 1964. Ao contrário de outras abordagens mais sérias sobre o tema, a opção narrativa de Lima foi contar a sua história por meio de uma grande comédia de erros, com atuações bastante caricaturais e com uma linguagem bastante diferente (a obra parece que quer ser, propositalmente, ruim) e que, provavelmente, não será compreendida por muita gente.

O contexto histórico feito por Mauro Lima é perfeito: por volta de 1963, vivíamos em um mundo polarizado em lados opostos, muito em parte por causa da Guerra Fria envolvendo os Estados Unidos e a Rússia. Portanto, palavras como comunistas eram bradadas como cantos de guerra e, especialmente em países cujos governos eram alinhados ideologicamente com os Estados Unidos, eram eles os grandes inimigos a serem combalidos e batidos. Neste sentido, talvez, os dois elementos mais importantes do contexto abordado por Mauro Lima, em “Reis e Ratos” são o apoio logístico oferecido pelos Estados Unidos às instituições militares, de forma que estas pudessem promover o Golpe; e a Revolta dos Marinheiros, que foi um motim promovido por praças da Marinha do Brasil e que foi um dos fatores que ajudaram a solidificar o Golpe Militar.

Desta forma, então, temos um agente da CIA radicado no Rio de Janeiro chamado Tony Somerset (Selton Mello), que, em parceria com o Major Esdras (Otávio Muller), da Força Aérea Brasileira, e com a Embaixada Americana passa a programar uma série de casos conspiratórios – alguns com tudo a ver, outros nada a ver com a situação do Golpe Militar de 1964. O filme ainda faz paródia com figuras típicas da época como as vedetes, por meio da personagem que é interpretada por Rafaella Mandelli e que tem trânsito fácil com os homens do poder – ela, por sinal, é responsável por um dos grandes equívocos deste longa, que é a vontade de rotulá-lo como uma história de amor, coisa que a obra não chega nem perto de ser.

A proposta por trás de “Reis e Ratos” é até muito interessante. O filme parece querer beber na fonte das obras que foram produzidas por grupos como o inglês Monty Python e conta a sua história como se ela, na realidade, fosse uma grande farsa. O grande problema, no entanto, do trabalho realizado por Mauro Lima (que conta, por sinal, com uma parte técnica bastante competente, especialmente no que diz respeito à reconstituição de época) é que ele consegue fazer com que atores como Selton Mello e Rodrigo Santoro nos deem a impressão de que estão no seu pior trabalho na atuação. Cauã Reymond, por exemplo, também causa o mesmo efeito na plateia. A mistura de elementos norte-americanos e brasileiros não dá certo. Fica tudo muito forçado.

Cotação: 2,0

Reis e Ratos (2012)
Direção: Mauro Lima
Roteiro: Mauro Lima
Elenco: Daniel Alvim, Paula Burlamaqui, Seu Jorge, Oberdan Júnior, Rafaella Mandelli, Kiko Mascarenhas, Selton Mello, Otávio Muller, Cauã Reymond, Rodrigo Santoro

março 17, 2012 at 12:25 am 10 comentários

Homens e Deuses

Baseado em uma história real, “Homens e Deuses”, filme do diretor Xavier Beauvois, tem uma história que dialoga muito com as situações retratadas em “Uma Cruz à Beira do Abismo”, de Fred Zinnemann. Neste filme, Audrey Hepburn interpreta uma freira que trabalha como enfermeira num país africano e que, num determinado ponto de sua jornada, começa a questionar o seu verdadeiro propósito, entrando em conflito com a sua vida de obediência cega e sacrifício pela vontade de Deus.

Em algum momento de “Homens e Deuses”, veremos também o grupo de oito monges que vive no Mosteiro de Atlas, na Argélia, em perfeita harmonia com a comunidade local, começando a considerar a possibilidade de eles abandonarem a missão que ali estão desempenhando para cuidarem de suas seguranças – especialmente a partir do instante em que um grupo de fundamentalistas islâmicos começa a espalhar o terror pela região. É aquele velho conflito entre o lado pessoal e o da vida que eles escolheram seguir e qual será mais predominante diante do outro.

O filme, aliás, tem um formato muito interessante. Boa parte dele se dedica ao retrato da rotina dos monges, do papel social que eles exercem na região onde se encontram e da importância em si da presença deles ali para a proteção e resguardo da população da localidade – ainda mais em tempos de puro terror. Em seguida, começa a parte crucial de “Homens e Deuses”, que mostra as diferentes mediações que são feitas entre a população, as autoridades locais, os monges e o grupo de fundamentalistas islâmicos para que eles possam saber qual a melhor forma de se posicionar diante de algo que pode acabar se revelando muito perigoso para eles mesmos.

Como um bom filme europeu, “Homens e Deuses” não é dado a arroubos de uma direção sofisticada. O que assistimos em tela é muito simples – apesar de termos algumas cenas bastante poéticas e poderosas, como a que retrata a ceia dos monges ao som do balé “O Lago dos Cisnes”, composto por Tchaikovsky, regado a um bom vinho, um luxo que eles raramente se permitiam, mas o momento tenso pedia. Essa, por exemplo, é uma daquelas cenas que transcende e que muda todo o destino de um filme. É a partir dela que “Homens e Deuses” cresce a um ponto que não consegue te largar mais. Um belo filme.

Cotação: 8,0

Homens e Deuses (Des hommes et des Dieux, 2010)
Direção: Xavier Beauvois
Roteiro: Xavier Beauvois e Etienne Comar
Elenco: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loic Pichon, Xavier Maly, Jean-Marie Frin

março 16, 2012 at 1:20 am 9 comentários

A Mulher de Preto

Na sua essência, a trama do suspense “A Mulher de Preto”, do diretor James Watkins, é muito clichê. Uma mansão localizada num vilarejo remoto do interior da Inglaterra esconde segredos trágicos, que assombram a vida das crianças e das famílias da localidade. Entretanto, chama a atenção o fato de que Watkins foge da convencionalidade em algumas das soluções narrativas que foram adotadas por ele no relato desta história.

Para contar a trama de “A Mulher de Preto”, a impressão que se tem é a de o diretor James Watkins tomou como influência uma obra do gênero de suspense no estilo de “Os Outros”, do diretor espanhol Alejandro Amenábar. Isso está visível em elementos como a direção de arte e a fotografia, com predomínio de tons escuros e das cenas realizadas em meio a fortes nevoeiros, bem como pelo fato da storyline principal do filme ter contornos sobrenaturais, que estão de certa forma relacionados ao protagonista do longa.

O jovem advogado Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) não foi enviado por acaso ao vilarejo inglês. Viúvo há 4 anos, pai solteiro, ele nunca parece ter se recuperado do baque da perda da esposa. A ida profissional dele à localidade na qual se passa “A Mulher de Preto”, para cuidar dos papeis do dono da mansão que se revela mal assombrada, é a sua última chance de colocar a sua vida profissional – e, consequentemente, a pessoal – nos eixos.

Diante de tudo aquilo que ele acaba descobrindo na mansão, acaba atraindo a atenção da plateia a aparente conformidade dos habitantes do vilarejo com todos os acontecimentos trágicos que decorrem dos fatos ocorridos na mansão. Talvez porque ele mesmo não tem mais nada a perder, é justamente Arthur que irá fazer algo para tentar devolver a paz para aquela comunidade – e quem sabe encontrar a sua própria paz de volta.

Alguns poderiam dizer que Daniel Radcliffe é a escolha errada para interpretar Arthur Kipps, entretanto ele convence como um viúvo pai de família e entrega a densidade certa ao seu personagem. O peso e a dor presentes em seu olhar contrastam muito bem com a passividade das pessoas com quem ele entra em contato no vilarejo e com a posterior raiva que eles todos demonstram em relação à figura dele. Se “A Mulher de Preto” acerta em deixar a plateia nervosa e ansiosa em vários momentos, o diretor acaba errando por não mostrar o momento posterior da cena que encerra o longa. Os desdobramentos da passagem de Arthur Kipps na pequena cidade inglesa seria algo interessante de se ver.

Cotação: 6,0

A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012)
Direção: James Watkins
Roteiro: Jane Goldman (com base no livro escrito por Susan Hill)
Elenco: Daniel Radcliffe, Sophie Stuckey, Misha Handley, Roger Allam, Ciáran Hinds, Janet McTeer

março 14, 2012 at 12:30 am 10 comentários

Teatro – “A Última Gota de Absinto”

Em apresentação única na noite do dia 10 de março, no Teatro Alberto Maranhão, foi encenada a peça “A Última Gota de Absinto”, do diretor Júnior Dalberto. Baseada no célebre conto “A Dama da Noite”, de autoria de Caio Fernando Abreu, a peça tem como estrela principal a atriz Cláudia Magalhães. Na forma como foi adaptado, o texto mantém a sua característica de ser um monólogo, com a Dama da Noite falando sobre temas diversos, como a solidão, a morte, o sexo e os medos e os anseios que rodeiam todos esses assuntos.

A ação se passa no decorrer de uma noite, em um bar. Acompanhamos uma interlocução entre a personagem principal e um homem, que não vemos, mas sabemos estar dividindo a mesa com a Dama da Noite. Para permear os momentos mais pungentes do texto escrito por Caio Fernando Abreu entram em cena canções da música popular brasileira, como “Roda Viva”, de Chico Buarque, e “Todo Amor que Houver Nessa Vida”, de Cazuza. As canções foram executadas ao vivo pela banda formada por Eduardo Taufic (diretor musical do espetáculo), Darlan Marley e Airton Guimarães. É justamente com eles, com o seu interlocutor invisível e com a plateia que Cláudia Magalhães vai interagindo.

Por misturar a ação dramática com momentos musicais, por ter uma decoração de cena basicamente simples (o cenário é composto somente por uma mesa, duas cadeiras e uma garrafa de whisky (não de absinto, como o título poderia deixar subentendido), “A Última Gota de Absinto” lembra – e muito – a última peça que foi apresentada por Cláudia Magalhães: o musical “Dolores”, dirigido por Diana Fontes e Jonas Sales, e que foi co-estrelado por Isaque Galvão.

“A Última Gota de Absinto” lembra tanto “Dolores” que, nessa noite de apresentação no Teatro Alberto Maranhão, tivemos a mesma grande falha de sonoplastia que percebemos quando assistimos “Dolores” no Teatro de Cultura Popular, em julho de 2011. Assim como ocorrido naquela noite, Cláudia Magalhães soube muito bem segurar a onda e continuar naturalmente em cena – apesar de poder ser ouvido, na plateia, pedidos do tipo “liga o microfone”.

Por ela ser uma atriz de grande talento, uma das melhores do RN, Cláudia Magalhães é uma presença magnética em cena, seja na comédia ou no teatro. Vem dela, do sentimento que ela emana, da força das palavras que ela encena, da emoção que vem da sua interpretação das canções do espetáculo, a grande força por trás de “A Última Gota de Absinto”. Uma pena que não exista a intenção de fazer uma temporada com esse espetáculo. A história merecia…

A Última Gota de Absinto
Direção: Júnior Dalberto
Direção Musical: Eduardo Taufic
Atriz: Cláudia Magalhães
Baseada no conto “A Dama da Noite”, de Caio Fernando Abreu

março 12, 2012 at 11:56 pm Deixe um comentário

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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