O Pacto

Sim, não vivemos em um mundo fácil. A sensação que temos é a de que não estamos seguros nem mesmo na nossa própria casa. Atos de violência passaram a se tornar algo comum e o pior é que a maioria das pessoas nem reage mais com indignação a situações desse tipo. Estamos conformados e anestesiados, incrédulos no sistema policial e judiciário. O filme “O Pacto”, do diretor Roger Donaldson, retrata justamente uma situação em que temos um grupo de pessoas que se recusa a viver dentro de uma atmosfera de conformismo e toma ações efetivas para modificar um pouco o mundo em que estamos inseridos, de forma a tentar deixar um lugar um pouquinho melhor para os seus descendentes viverem.

O professor Will Gerard (Nicolas Cage) vive uma vida aparentemente normal, tranquila e feliz ao lado da esposa Laura (January Jones, conhecida pelo seriado “Mad Men”). Quando “O Pacto” começa, ao vermos esse casal comemorando mais um aniversário juntos, temos aquela sensação de que eles têm tudo pela frente, muito ainda a viver e a conquistarem na relação deles. O presente harmonioso de Will e Laura é ameaçado quando, após sair do ensaio da orquestra onde toca, Laura é abordada por um homem que a abusa física e sexualmente, fato que tira Will de seu chão.

Quando Simon (Guy Pierce), um personagem bastante misterioso, entra em cena, “O Pacto” entra na sua storyline principal, uma vez que Simon é o líder de um grupo de justiceiros, que não são profissionais, mas que são pessoas comuns que foram atingidas direta ou indiretamente por atos de violência e perderam completamente as suas crenças no sistema policial e judiciário que procura e condena esses meliantes. Os argumentos que Simon usa para convencer Will a entrar num jogo de vingança pessoal contra aquele que cometeu o crime contra sua esposa são muito fortes e o estado psicológico de Will, naquele momento em particular, justifica o por quê de ele ter aceito a proposta feita por Simon. Não existe espaço para julgamentos e lições de moral aqui.

Histórias de justiceiros pessoais já foram contadas diversas vezes no cinema. O mais famoso deles, talvez, seja Paul Kersey, que Charles Bronson interpretou na série “Desejo de Matar”. Mais recentemente, tivemos Jodie Foster em uma situação parecida no filme “Valente”, de Neil Jordan. O que “O Pacto” acrescenta de diferente nesse clichê cinematográfico é que vai chegar o momento em que Simon cobrará o “favor” que fez para Will de volta e é aqui que o filme acaba transformando novamente a sua trama ao passar a ser um longa em que Will entra numa jornada de correr contra o tempo para provar sua inocência na morte de um jornalista que estava investigando o grupo liderado por Simon.

Roger Donaldson é um dos diretores mais experientes no gênero de ação. Por causa disso mesmo, “O Pacto” tem um ritmo muito ágil e, apesar dos muitos pontos de transição no roteiro escrito por Todd Hickey e Robert Tannen, a atenção da plateia é mantida até a sua cena final. Apesar disso, nem a direção segura de Donaldson esconde o grande problema deste longa que é, justamente, o roteiro. “O Pacto” começa como um filme, depois se torna outro, posteriormente se transforma em outro e, quando chega a cena final, a impressão que a obra nos deixa é a de que nós rodamos, rodamos, rodamos e rodamos e acabamos terminando no mesmo lugar, uma vez que a jornada de Will termina do mesmo jeito que tinha ficado a partir da última mudança de foco do roteiro.

Cotação: 3,5

O Pacto (Seeking Justice, 2011)
Direção: Roger Donaldson
Roteiro: Todd Hickey e Robert Tannen (com base na história de Robert Tannen)
Elenco: Nicolas Cage, January Jones, Guy Pierce, Jennifer Carpenter, Harold Perrineau, Xander Berkeley

março 23, 2012 at 11:14 pm 7 comentários

Poder sem Limites

Existe algo de Peter Parker dentro de Andrew Detmer (Dane DeHaam), protagonista do suspense “Poder sem Limites”, do diretor Josh Trank. Ambos os personagens são jovens tímidos, dotados de uma rara inteligência, mas que preferem se esconder por trás dessa personalidade introspectiva, até mesmo como uma forma de proteção contra um ambiente difícil como o da escola. Andrew ainda vai um pouco mais além do que Peter, uma vez que decidiu erguer uma barreira entre ele mesmo e o mundo colegial que o cerca, afinal não desgruda de uma câmera com a qual ele registra todos os momentos de seu dia a dia, o que faz com que a maioria das cenas vistas aqui tenham o ponto de vista e a perspectiva dele dos fatos – e, vamos dizer a verdade, a vida de Andrew é um tanto complicada, já que ele sofre bullying no colégio e violência dentro de casa.

A trajetória de Andrew no decorrer de “Poder sem Limites” é marcada por um grande ponto de virada no roteiro escrito por Max Landis e que o coloca, novamente, no caminho da comparação com Peter Parker: a descoberta de poderes  super especiais após ele e mais dois amigos – o primo Matt Garetty (Alex Russell) e Steve Montgomery (Michael B. Jordan) – entrarem em contato com uma espécie de pedra preciosa que eles descobrem num buraco cravado perto de um local onde colegas de colégio estavam realizando uma festa.

A partir desta descoberta, o filme entra naquele caminho clichê de mostrar os três jovens entrando em contato com o que ainda é desconhecido para eles, uma vez que eles não sabem de que forma este poder adquirido por eles pode ser manifestado e quais os limites que eles irão conseguir alcançar com isso. Na medida em que eles vão brincando com diversas situações, a gente vê a vida de Andrew dando um giro de 360 graus, uma vez que ele sai de pária para alguém por quem as pessoas, agora, nutrem um interesse “verdadeiro”.

“Poder sem Limites” começa a entrar por um lado interessante quando começa a abordar a questão de como uma cabeça de um adolescente, ainda mais se ele for cheio de traumas e de medos como Andrew, lida com um poder recém-descoberto. Aqui, neste sentido, temos a grande diferença do personagem para Peter Parker, uma vez que Andrew não teve alguém mais velho e que ele respeitasse que olhasse para ele e dissesse que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Isso, em nenhum momento, passa pela cabeça prepotente de Andrew, que vai, cada vez mais, se entregando a um lado obscuro de sua personalidade.

Por mais que tenha essa abordagem interessante, “Poder sem Limites” peca bastante pela previsibilidade de seu roteiro, especialmente no que é tocante à construção do background e da trajetória de Andrew. O diretor Josh Trank ainda erra na conclusão simplista demais e que ocorre de uma forma tão rápida que a gente não chega a saber mesmo de que forma tudo aquilo foi finalizado. Além disso, o jovem ator Dane DeHaam (que possui olheiras fundas e um olhar levemente angustiado) é muito fraco como ator e opta pela composição mais clichê possível para um personagem que é tão importante para o desenrolar dos acontecimentos de um filme como “Poder sem Limites”. De qualquer maneira, é um longa que, até a manifestação desses maiores problemas, prende a sua atenção e o envolve na trama que nos é contada.

Cotação: 4,0

Poder sem Limites (Chronicle, 2012)
Direção: Josh Trank
Roteiro: Max Landis (com base na história escrita por ele mesmo e por Josh Trank)
Elenco: Dane DeHaam, Alex Russell, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw, Bo Peterson, Anna Wood, Rudi Malcolm, Luke Tyler

março 23, 2012 at 12:57 am 20 comentários

Billi Pig

“Billi Pig”, filme dirigido e co-escrito por José Eduardo Belmonte, é uma comédia cujo assunto principal é aquilo que é conhecido como “jeitinho brasileiro”, que são aqueles atos (na maior parte das vezes trapaceiros) cometidos de forma a fazer com que as pessoas ganhem algo com isso. Como este é um assunto bastante delicado, mas que faz parte da cultura brasileira, para o bem ou para o mal, chama logo a atenção de cara o tom que Belmonte deu ao seu filme. “Billi Pig” é uma comédia que não tem a necessidade de fazer sentido, como visto recentemente em “Reis e Ratos”, de Mauro Lima. Curiosamente, ambos os filmes são estrelados por Selton Mello, aqueles que muitos consideram um dos melhores atores brasileiros em atividade atualmente.

Os personagens de “Billi Pig” são quase que uma caricatura de si mesmos – alguns chegando até mesmo ao ponto da bizarrice. Marivalda (Grazi Massafera) é uma aspirante a atriz, que está tão disposta a fazer tudo para alcançar isso que ela mais parece viver diversos personagens o dia inteiro e ainda tem como conselheiro principal um porco rosa de plástico (!!!!!), cujo nome dá título a esse filme. O marido dela, Wanderley (Selton Mello), é um corretor de seguros fracassado profissionalmente e pessoalmente, já que não dá a mínima atenção à esposa. Roberval (Milton Gonçalves) é um falso padre que ganha a vida enganando centenas de pessoas que aparecem diariamente em sua porta acreditando que ele faz milagres.

O destino destes três personagens vai cruzar quando eles armam um plano para arrancar dinheiro de um figurão do crime chamado Boca (Otávio Muller), cuja única filha entrou num coma profundo depois de levar um tiro numa festa na comunidade liderada pelo pai. Prometendo ao desesperado pai o milagre de curarem Sandy (a filha de Boca), os dois vão tentando encontrar maneiras de irem adiando o inevitável (já que todos ali são farsantes e, provavelmente, não irão conseguir fazer com que a jovem saia do coma) para poderem acumular todas as vantagens possíveis obtidas em situações desse tipo e sumirem do mapa sem sofrerem qualquer tipo de ameaças por parte do perigoso bando de Boca.

Provavelmente, ao fazer um filme no estilo de “Billi Pig”, com uma trama dessas, a intenção de José Eduardo Belmonte era fazer uma crítica a determinadas situações características da nossa sociedade (como, por exemplo, o constante desejo de ascensão social e a aspiração àqueles 15 minutos de fama, com as celebridades instantâneas). Entretanto, esta mensagem perde sua força tendo em vista o fraco roteiro, que, por exemplo, desenvolve muito bem a sua storyline principal, mas erra ao abandonar por completo a subtrama que envolve Marivalda e seu sonho de se tornar atriz e por não explorar mais aquela que é a verdadeira surpresa desse filme: a participação especial de Preta Gil, que comprova ter um tino raro para a comédia. Se, na vida real, situações como a retratada nesse longa terminam em pizza, aqui tudo termina com o samba de Arlindo Cruz…

Cotação: 1,0

Billi Pig (2012)
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: José Eduardo Belmonte e Ricardo D’Oxum
Elenco: Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Zezeh Barbosa, Milhem Cortaz, Arlindo Cruz, Aimée Espinosa, Álamo Facó, Léa Garcia, Preta Gil, Xando Graça, Cássia Kiss Magro, Otávio Muller, Tadeu Mello, Aramis Trindade

março 22, 2012 at 1:58 am 14 comentários

Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança

“O Motoqueiro Fantasma”, filme dirigido por Mark Steven Johnson, nos apresentava à história do motociclista Johnny Blaze (Nicolas Cage), que, para salvar a vida do pai (interpretado por Peter Fonda), decide vender a sua alma ao diabo em troca da saúde dele. Em consequência disso, Blaze passa a atuar como uma espécie de ajudante do diabo, se alimentando da alma daqueles que fugiram do inferno, ao mesmo tempo em que começa a lutar contra diversas injustiças e forças consideradas demoníacas.

Na continuação deste filme, “Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança”, filme dirigido pela dupla Mark Neveldine e Brian Taylor, reencontramos Johnny Blaze. Dessa vez, ele está levemente diferente da forma como o vimos no longa original, uma vez que ele está em uma constante luta contra a maldição que recebeu, aparentemente, arrependido do fardo que ele tem que carregar. Por esta razão, quando o personagem aparece pela primeira vez, no longa, ele está vivendo uma vida de reclusão na Europa Ocidental, quando é redescoberto por Moreau (Idris Elba).

O título desta continuação, aliás, é muito adequado ao estado de espírito no qual se encontra Blaze. Se existe alguém a quem a vingança dele está dirigida, com certeza, é à figura de Roarke (Ciáran Hinds), que representa aquele que colocou a maldição nele. Talvez, por isso mesmo, ele não hesite em aceitar a proposta que Moreau lhe faz de ajudá-lo na missão de proteger o menino Danny (Fergus Riordan), que vem a ser filho de Roarke com uma mulher chamada Nadya (Violante Placido), e que, se confirmar uma profecia que está relacionada diretamente a ele, poderá se transformar na forma humana do demônio, alguém altamente poderoso e impossível de ser derrotado.

Um dos elementos mais interessantes da trama de “Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança” é que ele segue a lógica contrária de outras famosas franquias. Se seguisse a narrativa linear, esta continuação não deveria ter a preocupação de desenvolver a história do personagem, uma vez que a contextualização já teria sido feita totalmente no primeiro filme da série. Entretanto, desde a primeira cena deste longa, se percebe a preocupação do roteiro em estabelecer qual a história de Johnny Blaze e qual seu principal conflito. É como se, aqui, ele, finalmente, aceitasse o seu destino e parasse de brigar contra ele. Por isso, por não se levar a sério e por ter um aspecto bastante cool, “Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança” já é superior ao filme da série lançado em 2007. Agora, sim, temos a impressão de que esta franquia começou de verdade.

Cotação: 5,0

Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (Ghost Rider: Spirit of Venegance, 2011)
Direção: Mark Neveldine e Brian Taylor
Roteiro: Scott M. Gimple, Seth Rothman e David S. Goyer (tendo como base a história de David S. Goyer)
Elenco: Nicolas Cage, Violante Placido, Ciáran Hinds, Idris Elba, Fergus Riordan, Johnny Whitworth, Anthony Head, Christopher Lambert

março 21, 2012 at 12:38 am 14 comentários

Tão Forte e Tão Perto

Existe algo de Hugo Cabret em Oskar Schell (Thomas Horn), protagonista de “Tão Forte e Tão Perto”, filme dirigido por Stephen Daldry. Assim como Hugo, Oskar é um menino que deixa a sua mente a serviço de sua imaginação e demonstra uma sensibilidade enorme para assuntos relacionados à invenções e aventuras. Os dois personagens também são muito espertos e inteligentes e possuem uma relação de muita proximidade com os seus pais, que são aquelas figuras que vão incentivá-los a ir sempre mais além, de preferência desenvolvendo as várias habilidades que eles possuem. Uma outra semelhança forte que une esses dois personagens é o fato de eles terem perdido os seus amados pais muito cedo, em circunstâncias trágicas – o pai de Oskar, Thomas (Tom Hanks), foi uma das vítimas dos atentados terroristas ao World Trade Center.

De uma certa forma, a jornada pela qual Oskar irá passar, no decorrer de “Tão Forte e Tão Perto” é muito parecida com a que Hugo vive em “A Invenção de Hugo Cabret”. Ao mexer nas coisas de seu falecido pai, um ano após a morte dele, e quebrar um vaso que, na verdade, escondia uma chave, Oskar embarca em uma expedição (essa era uma aventura que ele sempre vivia com Thomas, que estimulava o filho a participar dessas expedições para que ele pudesse deixar a sua timidez de lado e conversar com pessoas novas) que tem o objetivo de descobrir qual a finalidade dessa chave, se ela abre algum cofre, armário ou ambiente; e, se o que ele irá encontrar, faz parte de algum plano/desejo deixado pelo seu pai para ele. Vivenciando essa experiência, Oskar sente que mantém a memória de seu pai viva e que, principalmente, o contato com eles é prorrogado – mais uma semelhança com Hugo.

Nas mãos de um diretor talentoso como Stephen Daldry, a experiência vivida por Oskar Schell ganha contornos emocionantes. Ao entrar em contato com diferentes pessoas, Oskar enfrenta os próprios medos que possui – e eles são muitos, uma vez que o garoto é muito complicado, cheio de manias, o que faz com que a plateia tenha um problema enorme de empatia com o protagonista, já que ele soa irritante em várias cenas. Ao mesmo tempo, porém, a busca de Oskar o permite entrar em contato também com os pontos mais vulneráveis de seu relacionamento com a mãe, Linda (Sandra Bullock, numa atuação que é melhor do que a de “Um Sonho Possível”, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz), e com o Inquilino (Max Von Sydow, numa performance indicada ao Oscar 2012 de Melhor Ator Coadjuvante), que é o senhor que irá acompanhá-lo em boa parte das visitas que Oskar faz.

A verdade é que “Tão Forte e Tão Perto” é um filme irregular até o seu ato final, momento em que Stephen Daldry aproveita todo o potencial emocional que esta história possui e entrega duas cenas que são muito poderosas e que representam justamente o momento de Oskar de reencontro consigo mesmo, com o seu sentimento de culpa diante do que aconteceu ao pai e com a possibilidade de ele começar (já que retomar a sua existência prévia se revela impossível) uma nova vida. São dois momentos altamente tristes, mas, curiosamente, muito otimistas, pois retratam instantes de revelação. É o toque de Midas de um diretor que viu todos os longas que realizou serem indicados ao Oscar de Melhor Filme (com exceção de “Billy Eliot”). Respeito com Stephen Daldry.

Cotação: 9,0

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close, 2011)
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Eric Roth (com base no livro escrito por Jonathan Safran Foer)
Elenco: Tom Hanks, Thomas Horn, Sandra Bullock, Zoe Caldwell, John Goodman, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright

março 20, 2012 at 1:37 am 16 comentários

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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