A Invenção de Hugo Cabret

março 9, 2012 at 9:57 pm 24 comentários

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é uma criança órfã de pai e mãe, que morava com um tio abusivo (Ray Winstone) dentro da torre de relógios de uma estação de trens em Paris, quando se viu completamente sozinho nesse mundo. Sua grande companhia era a sua mente imaginativa, que, de alguma forma, o aproximava de seu pai (Jude Law), um inventor que faleceu num incêndio. Ao continuar o trabalho dele, Hugo se sentia em casa, em contato com aquilo que ele mais amava e sentia falta (o tempo que ele passava com o pai, consertando um autômato e aprendendo sobre tudo relacionado a mecanismos de ajustes de tempo).

É a curiosidade de Hugo e o fascínio que ele sentia pelo novo que o leva ao contato com Papa Georges (Ben Kingsley) e a filha de criação dele, Isabelle (Chloe Grace Moretz), que mantinham uma loja de brinquedos na estação de trem. O que Hugo não sabe e aqui encontra-se a maior surpresa de “A Invenção de Hugo Cabret”, filme dirigido por Martin Scorsese, é que ele e Papa Georges compartilham de uma paixão maior, já que ambos utilizam a suas imaginações para grandes truques e feitos. Em suma, se Georges foi um visionário em seu tempo, no seu campo, Hugo representa a continuidade, aquele tipo de menino que é tocado por algo em sua infância e carrega o bastão daqueles que eram considerados os baluartes que inspiravam e continuam servindo de exemplos a muitos outros que ainda estão por vir.

Ao inserir a figura de Georges Méliès, um famoso ilusionista francês que se tornou um dos precursores do cinema, realizando filmes com efeitos fotográficos bastante inventivos para a época, na trama de “A Invenção de Hugo Cabret”, o roteirista John Logan não só muda o foco inicial do filme, como também dá uma desculpa para que Martin Scorsese, um profissional que, além de fazer do cinema o seu ofício, tem esse tema como a sua grande paixão (tendo em vista o trabalho que ele desempenha restaurando filmes clássicos antigos de forma que estas pérolas possam ser redescobertas pelo grande público), possa realizar o seu grande tributo à sétima arte.

Talvez, Scorsese se identifique com a figura de Hugo Cabret. Talvez, ele veja a sua própria história de vida na daquele menino. Talvez, fazer filmes seja a forma que Martin Scorsese encontrou para se sentir em casa. Talvez, “A Invenção de Hugo Cabret” seja a maneira que ele viu para inspirar outros a fazer o mesmo que ele: se emocionar com algo e contar uma grande história. A verdade é que o filme acaba sendo repleto de momentos mágicos, como somente o cinema consegue ser, às vezes.

Longa indicado a 11 Oscars, “A Invenção de Hugo Cabret” tem uma parte técnica invejável (não foi à toa que o longa ganhou cinco estatuetas na noite mais importante do cinema justamente nessas categorias), além de marcar a primeira investida de Scorsese na tecnologia 3D. Assim como visto em “O Artista”, estamos diante de um filme que, ao fazer uma ode ao cinema, parece querer despertar e confirmar paixões, parece querer fazer com que seja redescoberto ou reforçado o grande prazer que é estar dentro de uma sala de cinema, entrando em contato com universos diferentes, com um mundo que chega a ser um sonho. Felizes de nós, cinéfilos, que sabemos reconhecer isso! Que filmes como esses possam causar o surgimento de novas paixões!

Cotação: 9,5

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan
Elenco: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloe Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Richard Griffiths, Jude Law

Entry filed under: Cinema.

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24 Comentários Add your own

  • 1. Luís  |  março 9, 2012 às 10:08 pm

    Dentre os indicados a melhor filme, é o único a que eu não assisti, porque nada nele conseguiu manter minha atenção, estava meio disperso. Mas preciso dedicar-lhe algum tempo, são elogios de pessoas bastante sensatas para eu simplesmente ignorar o filme.

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  • 2. Celo Silva  |  março 9, 2012 às 10:24 pm

    Pô Luís, logo vc?…rs Corra para assistir essa maravilha. Scorsese é obrigatorio! Parabéns pelo texto Kamila. Era um dos filmes q torcia na premiação do Oscar. Abs!

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  • 3. Amanda Aouad  |  março 10, 2012 às 12:15 am

    Realmente, Kamila, Martin Scorsese deve ter posto muito de si em Hugo e no filme, tanto que ele faz uma pontinha como o fotógrafo que registra a inauguração do estúdio de Méliès. Gosto muito do filme e da paixão que ele desperta.

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    • 4. Kamila  |  março 10, 2012 às 1:39 pm

      Luís, dos indicados ao Oscar de Melhor Filme, ainda não consegui assistir “O Homem que Mudou o Jogo” e “Histórias Cruzadas”. Mas, tente rever esse filme. Ele é muito bonito.

      Celo, obrigada! Abraços!

      Amanda, eu imaginei isso, Amanda, que ele se identificou com o Hugo. Poxa, nem percebi essa pontinha do Scorsese, pode? rsrs

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  • 5. Rafael W.  |  março 10, 2012 às 1:32 am

    Hugo Cabret ter levado somente prêmios técnicos foi um insulto. Deveria ter levado todos os prêmios, foi o filme mais mágico do ano!

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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    • 6. Kamila  |  março 11, 2012 às 11:31 pm

      Rafael, eu discordo de você. Acho que “Hugo” levou os prêmios que tinha que levar e ainda ganhou onde não merecia – “Efeitos Visuais”.

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  • 7. Matheus Pannebecker  |  março 10, 2012 às 2:59 am

    Fiquei completamente impressionado pela parte técnica do filme (a direção de arte é de cair no queixo), mas me assustou a falta de ritmo de “A Invenção de Hugo Cabret”. Sem falar que, em certo momento, parece esquecer que precisa construir uma história, como se parasse o filme para fazer uma homenagem ao cinema…

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    • 8. Kamila  |  março 10, 2012 às 1:40 pm

      Matheus, a parte técnica do filme, realmente, é muito bem feita. E eu faço as mesmas considerações que você em relação ao que você chama de falta de ritmo do longa e da mudança de foco. A história de Hugo, realmente, é interrompida, o foco do filme muda e tudo volta para Hugo, no final, como se fosse pra aparar as arestas.

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  • 9. bruno knott  |  março 10, 2012 às 2:34 pm

    Boa Kamila, gostei bastante desse último paragrafo… é exatamente o sentimento que tive ao assistir Hugo e O Artista.

    Quando assisti pela segunda vez eu senti um ou outro problema com o ritmo do filme, o que me fez abaixar a nota pra 8!

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  • 10. museudocinema  |  março 10, 2012 às 10:46 pm

    E vão surgir novas paixões Kamila, pois o cinema é isso, uma grande sala de realizações de sonhos!

    Mas minhas críticas ao longa são pelo apelo do seu principal nome.

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    • 11. Kamila  |  março 11, 2012 às 1:38 am

      Bruno, e foi o sentimento que eu tive daqui ao assistir ambos os filmes.

      Cassiano, como assim, “apelo do seu principal nome”?

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  • 12. Paulo Ricardo  |  março 11, 2012 às 6:54 pm

    Eu vi esse filme e “O Artista” sexta feira.Tô um pouco ocupado e mais tarde leio sua critica e faço minha analise sobre o filme.Bj.

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  • 13. cleber eldridge  |  março 11, 2012 às 7:31 pm

    … eu infelizmente não curti muito, achei o inicio do filme muito lento, muito demorado … apesar de tecnicamente maravilhoso. quando o filme entra então em sua “homenagem ao cinema” fiquei deslumbrado.

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    • 14. Kamila  |  março 11, 2012 às 11:32 pm

      Paulo, ok! Beijo!

      Cleber, eu acho que o filme não tem um ritmo lento. O que me incomodou mais, como eu falei, foi a transição brusca de foco principal do roteiro. Mas, isso não é nada que prejudique o resultado final obtido por Scorsese.

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  • 15. Rafael Carvalho  |  março 12, 2012 às 4:30 am

    Depois de um tempo, o filme perdeu um pouco de sua força como quando eu acabei de ver no cinema. Mas ainda assim é uma beleza toda a construção da trajetória do garoto, em torno de todos aqueles personagens. E concorco que quando o Méliès entra em cena, o foco da história muda (cresce, eu diria) para outro rumo, o da homenagem. Talvez o filme se alongue mais do que necessário, mas é lindo demais. O 3D é impecável, como poucas vezes se viu seu uso tão funcional em um filme.

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    • 16. Kamila  |  março 12, 2012 às 11:12 am

      Rafael Carvalho, também achei o 3D impecável, mas eu continuo achando que a mudança de foco da história é muito brusca…

      Responder
  • 17. João Linno  |  março 12, 2012 às 2:00 pm

    Concordo com você a respeito da mudança de foco na história, mas para mim acabou sendo uma grata surpresa ver os trabalhos do Méliès recriados no filme (e de quebra com um 3D impecável).

    Beijos.

    Responder
    • 18. Kamila  |  março 12, 2012 às 4:28 pm

      João Linno, eu também fiquei surpresa com a recriação dos trabalhos do Méliès no filme, mas não às custas de uma mudança tão brusca no roteiro. É como se “A Invenção de Hugo Cabret” fossem dois filmes em um só. Beijos!

      Responder
  • 19. Otávio Almeida  |  março 13, 2012 às 1:32 pm

    10!

    Responder
    • 20. Kamila  |  março 13, 2012 às 5:15 pm

      Otavio, só não dou nota 10 por causa da mudança completa de foco do filme, a partir do meio, o que negligencia a história particular do Hugo… Beijos!

      Responder
  • 21. Paulo Ricardo  |  março 14, 2012 às 10:09 pm

    Kamila,esse filme tem uma parte técnica esplêndida e faz uma homenagem ao cinema de forma linda.Confesso que fiquei completamente envolvido com a história de George Méliés e com o personagem Hugo(Asa Butterfield).Concordo que Martin Scorsese faz uma homeanagem ao cinema,mas nesse filme ele admite em certos momentos que se trata de um tributo a sétima arte.”Ilha do Medo” e “O Aviador” ele homenageia mas de uma forma que me desagradou.No primeiro senti um tom de “O Iluminado”(Pablo Villaça descreveu isso mt bem) e no segundo um pouco de “Cidadão Kane”(poder e queda).Voltando a esse filme,ele foi um dos melhores do ano,mas só tem um probleminha.A montagem.Explico.O filme tem um momento de “aula para quem não conheçe a história do cinema” e isso atrapalha a estrutura narrativa.Não é culpa de Thelma Schoonmaker(uma deusa da edição,o trabalho dela em “Touro Indomável” é sublime.Um gênio mesmo.).Isso é com scorsese,e Kamila não atrapalha pouco não.Atrapalha muito.Outro detalhe que foi um equivoco:Sacha Baron Cohen,ele ta exagerado,caricato e querendo fazer graça a qualquer custo.E o personagem dele não tem muita importância na história(o tio abusivo e Isabelle sim,são um contraponto a personalidade de Hugo).”Hugo” é uma linda homenagem a todos que adoram cinema.Essa foto que vc postou do filme resume bem o estrado de embriaguez que ficamos numa sala de cinema.Valeu por mais um filmaço Scorsese!

    Beijos!

    Responder
    • 22. Kamila  |  março 16, 2012 às 12:23 am

      Paulo, sim, a história é muito bonita, mas me incomoda a mudança de foco brusca na história. Acho que esse é o maior problema de “A Invenção de Hugo Cabret”. Nem me incomodo com a montagem do filme. Até porque ela só segue o ritmo do roteiro e do diretor. Beijos!

      Responder
  • 23. Tão Forte e Tão Perto « Cinéfila por Natureza  |  março 20, 2012 às 1:37 am

    […] passar, no decorrer de “Tão Forte e Tão Perto” é muito parecida com a que Hugo vive em “A Invenção de Hugo Cabret”. Ao mexer nas coisas de seu falecido pai, um ano após a morte dele, e quebrar um vaso que, na […]

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  • 24. Tão Forte e Tão Perto | :: Cinéfila por Natureza ::  |  março 27, 2012 às 12:24 am

    […] passar, no decorrer de “Tão Forte e Tão Perto” é muito parecida com a que Hugo vive em “A Invenção de Hugo Cabret”. Ao mexer nas coisas de seu falecido pai, um ano após a morte dele, e quebrar um vaso que, na […]

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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