À Beira do Abismo

fevereiro 15, 2012 at 12:29 am 12 comentários

Minha irmã mais velha, psicóloga, estudiosa do tema suicídio, sempre me fala o seguinte: aquela pessoa que, realmente, quer se suicidar não fica relutando muito sobre essa decisão. Ela vai lá e, simplesmente, utiliza os meios que pode para alcançar o fim que quer. Não demora muito para a detetive Lydia Mercer (Elizabeth Banks) matar essa charada em relação a Nick Cassidy (Sam Worthington), policial condenado a 25 anos de cadeia pelo roubo do diamante do magnata David Englander (Ed Harris, que andava bastante sumido da grande tela), e que, após fugir do presídio de Sing Sing (onde, como ex-policial no meio de todos aqueles presos durões, tinha uma vida bastante dura, tadinho!), ameaça se jogar da janela do quarto do hotel onde se hospedou em Nova York.

A verdade é que também fica claro para a plateia, desde o primeiro instante em que Nick se coloca naquela janela, que o objetivo dele ali não é tirar a sua própria vida. Ao longo do tempo em que Nick permanece lá, ele joga, não só com Lydia, como também com todos aqueles curiosos que se encontram na esquina do hotel onde ele estava hospedado interessados em ver como aquele drama todo irá terminar. Um dos lados mais legais, inclusive, do roteiro escrito por Pablo F. Fenjves é falar sobre como, atualmente, tragédias potenciais como as de Nick se transformam mais num grande espetáculo explorado pela mídia televisiva e pela Internet e sua capacidade de cobertura em tempo real dos fatos.

O jogo de Nick, na realidade, é atrair toda a atenção da polícia, das pessoas, da mídia para si mesmo para deixar o caminho livre para que seu irmão Joey (Jamie Bell) e sua namorada Angie (Genesis Rodriguez) coloquem em prática o plano que ele mesmo arquitetou, de forma a provar a sua inocência no caso do roubo do diamante. Neste sentido, é bom prestar atenção à forma como o diretor Asger Leth (que faz a sua estreia na direção de um longa metragem) trabalhou a história na mesa de edição. É como se, cada parte de “À Beira do Abismo”, fosse várias camadas desnudadas para a plateia, aos poucos, de forma a gente poder entender o contexto e, principalmente, as motivações por trás das ações cometidas por Nick e seus comparsas.

Este tipo de recurso narrativo faz com que “À Beira do Abismo” pareça, na realidade, mais interessante do que o filme realmente o é. A favor de Asger Leth conta o fato de que o diretor imprimiu um ritmo muito ágil à trama do longa, prendendo por completo a atenção da plateia. Entretanto, peca contra a obra a sensação de que não existe muita lógica por trás das motivações de Nick, especialmente se formos perceber vários furos no decorrer da obra (como que demoraram tanto pra descobrir que a pessoa que estava no parapeito do hotel era ele, se o evento estava tendo ampla cobertura da mídia e o próprio Nick era um foragido da justiça, com um caso que era notório?) e se notarmos que revelações importantes do filme acabam sendo deixadas de lado por completo pelo diretor e pelo roteirista, sem que saibamos quais conclusões elas tiveram.

Cotação: 6,0

À Beira do Abismo (Man on a Ledge, 2012)
Direção: Asger Leth
Roteiro: Pablo F. Fenjves
Elenco: Sam Worthington, Anthony Mackie, Jamie Bell, Genesis Rodriguez, Edward Burns, Elizabeth Banks, Kyra Sedgwick, Ed Harris

Entry filed under: Cinema.

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12 Comentários Add your own

  • 1. alan raspante  |  fevereiro 15, 2012 às 12:45 am

    Ah, Kamila… Eu estava bastante curioso quando fiquei sabendo da história, mas o trailer me desanimou um bocado… Mas eu ainda quero ver.

    Resposta
    • 2. Kamila  |  fevereiro 15, 2012 às 1:24 am

      Raspante, é um filme que prende a atenção e que cumpre seu papel.

      Resposta
  • 3. Paulo Ricardo  |  fevereiro 15, 2012 às 1:55 am

    Você tem razão e acrescento mais:tragédias não só vira espetaculo para as massas como deixa de ser noticia para virar evento.Depois da sua critica fiquei desanimado de ver esse filme…

    Beijos!

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  • 4. Amanda Aouad  |  fevereiro 15, 2012 às 2:06 am

    Pois é, essa falta de lógica por trás dos planos de Nick pesam bastante contra o filme. Assim como aquele flash back inicial.

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    • 5. Kamila  |  fevereiro 15, 2012 às 11:28 am

      Paulo, não desanime de assistir ao filme, porque ele prende a atenção e acaba cumprindo bem o seu papel. Beijos!

      Amanda, muito bem notada a questão do flashback inicial. E acho que o grande desafio de filmes como esse é dar lógica aos acontecimentos. A maioria desses filmes possui grandes furos nas histórias.

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  • 6. Reinaldo Matheus Glioche  |  fevereiro 15, 2012 às 1:11 pm

    É isso mesmo Ka. Muito bem delimitado. Existe os furos básicos em um tipo de filme que só Sidney Lumet era soberano…
    Bjs

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    • 7. Kamila  |  fevereiro 15, 2012 às 1:29 pm

      Reinaldo, exatamente! E, ultimamente, eu acho que tem sido raros os filmes desse gênero que conseguem evitar os tais furos… Beijos!

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  • 8. cleber eldridge  |  fevereiro 15, 2012 às 4:37 pm

    O filme me passou uma ideia interessante (ainda não conferi) -, mas os comentários no geral não foram dos melhores, vejo quando sair em DVD.

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    • 9. Kamila  |  fevereiro 15, 2012 às 5:19 pm

      Cleber, esse vai ser aquele tipo de filme que funcionará perfeitamente bem quando visto no DVD.

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  • 10. Wilson Antonio  |  fevereiro 15, 2012 às 5:47 pm

    Concordo que esse filme é bastante limitado. Talvez valha como diversão, para audiências mais preguiçosas. mas de forma geral é bem inverossímel, a ponto de irritar. hehehe. Adorei o texto! Grande abraço

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    • 11. Kamila  |  fevereiro 15, 2012 às 11:36 pm

      Wilson, vale, sim, como diversão. Obrigada! Abraço!

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  • 12. Suzane Weck  |  fevereiro 25, 2012 às 2:15 am

    Ola Kamila,que ótimo blog sobre cinema é o teu.Estarei seguindo pois adoro cinema.Bjs.

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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