Lendo – “O Espião que Sabia Demais”

fevereiro 9, 2012 at 11:17 pm 12 comentários

“Ficou imaginando se haveria amor entre seres humanos que não se baseasse em alguma forma de auto-ilusão. Gostaria simplesmente de levantar-se e sair antes que as coisas acontecessem, mas não poderia fazer isso. Preocupou-se com Guillam, de um jeito muito paternal, e imaginou como ele aceitaria as últimas tensões dessa etapa, antes de tornar-se um adulto. Lembrou-se novamente do dia em que sepultara Control. Pensou nas traições e ficou indagando a si mesmo se acaso haveria traições involuntárias. Preocupou-se por sentir-se tão fracassado: todos os preceitos intelectuais ou filosóficos que ele sustentava agora desabavam por completo, quando, diante dele, apresentava-se uma situação humana”. (p. 239)

“O Espião que Sabia Demais”, livro escrito por John Le Carré, parece sempre voltar ao mesmo período. Dois anos antes dos acontecimentos que o escritor nos retrata, quando “Percy Alleline quer conquistar o cargo de Control, mas não tem prestígio na Circus. Control fez tudo para que isso fosse assim. Está doente e jovem, mas Percy não consegue tirá-lo do lugar. (….) Foi uma daquelas temporadas estúpidas. Não havia trabalho suficiente a fazer lá fora, por isso nós começamos a tecer intrigas no serviço, espionando uns aos outros”.

Por mais que George Smiley seja o personagem principal deste livro, na realidade são os atos de Control (que foi o chefe da Circus, agente muito competente naquilo que ele fazia e, talvez, “o melhor espião de todos”) e Percy Allelline (o substituto de Control, na cadeia de comando da Circus – agência secreta britânica –, e que era desejado pelo governo por ser um espião mais discreto, que proporcionava informações sem criar escândalos) que movem toda a trama escrita por John Le Carré, como se eles dois fossem os grandes narradores oniscientes da obra, cujas decisões afetam diretamente a todos os envolvidos.

George Smiley era o braço direito de Control no comando da Circus e, por causa de uma operação muito mal-sucedida na Tchecoslováquia, que resultou no ferimento de um dos mais importantes agentes do grupo e na desconfiança da existência de um toupeira (agente duplo) entre eles, ambos foram destituídos de seus cargos e substituídos pelo pessoal comandado por Percy Allelline. É após esta contextualização dos fatos que John Le Carré começa a contar a sua verdadeira história: a busca de Smiley pelo que realmente aconteceu nesta operação. Neste sentido, o autor utiliza bastante do recurso narrativo do flashback para ilustrar a situação de George e seus colegas de Circus revivendo acontecimentos e relembrando pessoas, relacionamentos, até chegarem à verdade.

O resultado é que “O Espião que Sabia Demais” é uma obra extremamente informativa, com uma narrativa que lembra muito uma ata de reuniões, em que as personagens vão destrinchando suas experiências como agentes, as operações das quais participaram e as pessoas com as quais entraram em contato neste período. Chama a atenção, portanto, a minúcia do retrato feito por John Le Carré, que mostra todo o seu domínio sobre este tema (não é a toa que ele é um dos mais celebrados autores de livros de espionagem da literatura estrangeira). Justamente por causa da riqueza das descrições, este é um livro que exige uma leitura atenta dos fatos, para acompanharmos o raciocínio de George Smiley. Nem sempre isso é fácil e, em muitos momentos, ficamos perdidos tentando guardar todas as informações que nos são passadas.

Por ser um livro de estrutura narrativa complexa, a tarefa de adaptá-lo ao cinema deve ter sido das mais desafiadoras para Bridget O’Connor e Peter Straughan, os roteiristas do filme dirigido por Tomas Alfredson. Se eles conseguiram traduzir de uma forma menos complicada que John Le Carré uma motivação que, na verdade, é muito simples, o trabalho deles já foi brilhante. Afinal, a essência de “O Espião que Sabia Demais” está traduzida na seguinte frase de George Smiley: “Eu me recuso a prosseguir. Não há nada que valha a destruição de outro ser humano. O caminho do sofrimento e da traição deve terminar em algum ponto. Enquanto isso não ocorrer, não haverá um futuro, mas apenas um escorregar ininterrupto até as versões mais terrificantes do presente”. George Smiley escava o passado porque ele precisa ter um futuro e seguir em frente.

O Espião que Sabia Demais (2011)
Autor: John Le Carré
Editora: Record

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12 Comentários Add your own

  • 1. Amanda Aouad  |  fevereiro 10, 2012 às 1:11 am

    Interessante, vi o filme essa semana e fiquei curiosa quanto ao livro, as passagens que você coloca aqui só me deixaram mais curiosa, parece ainda mais profundo.

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  • 2. Rafael Carvalho  |  fevereiro 10, 2012 às 1:59 am

    Também estou lendo o livro, Kamila, e estou super curioso pra saber como uma trama tão complexa e rica em personagens e situações foi transposta para o cinema.

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  • 3. Paulo Ricardo  |  fevereiro 10, 2012 às 4:42 am

    Engraçado Kamila,estou lendo sua análise sobre o livro e me parece que sua principal queixa é de falta de ritmo.Até pela sua estrutura complexa.Me peguei pensando em uma entrevista com o nosso Fernando Meirelles(digo nosso pq é um orgulho dizer que ele é Brasileiro)afirmando que iniciou o filme “O Jardineiro Fiel” com a cena da morte de Tessa(Rachel Weisz),justamente pra dar…ritmo.Não espere uma narrativa ágil que nem a de Meirelles Kamila,Tomas Alfredson optou por uma narrativa clássica.Eu gostei do filme.Espero que vc goste 🙂

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    • 4. Kamila  |  fevereiro 10, 2012 às 11:00 am

      Amanda, é um livro bem complexo, mas falta um pouco de agilidade e ritmo à narrativa. Por isso a minha curiosidade pra saber como o livro foi adaptado ao cinema.

      Rafael, eu também tenho a mesma curiosidade. Pena que a obra ainda nem deu as caras por aqui.

      Paulo, mais do que a falta de ritmo, acho que o livro “enrola” um pouco, sabe? Conta coisas desnecessárias demais… E eu gosto de narrativas clássicas. Gosto, na realidade, de qualquer tipo de narrativa desde que ela conte bem uma história. Quando eu assistir ao filme, espero apreciar.

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  • 5. cleber  |  fevereiro 10, 2012 às 1:14 pm

    eu tentei ler outros livros do le carré, mas não consegui – ele é um bom escritor e tal mas é tudo um tanto complicado.

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    • 6. Kamila  |  fevereiro 10, 2012 às 1:45 pm

      Cleber, esse foi o primeiro livro do John Le Carré que eu li. Não sei se eu me aventuraria em uma outra obra dele, de novo…

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  • 7. Paulo Ricardo  |  fevereiro 10, 2012 às 7:03 pm

    Se Coppola soube adaptar Mario Puzo como poucos e Peter Jackson alcançou a glória com os livros de J.R Tolkien o Meirelles poderia adaptar outro livro de John Le Carré.Meu xará Paulo Lins e o prêmio Nobel José Saramago não tiveram do que reclamar do cineasta nacional.Bjs.

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    • 8. Kamila  |  fevereiro 10, 2012 às 7:36 pm

      Paulo, sim, ele poderia. Mas, suspeito que não o faria! Beijos!

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  • 9. Mayara Bastos  |  fevereiro 11, 2012 às 3:02 pm

    Meu primeiro livro do Le Carré e tenho uma opinião igual a sua. Esperava mais ritmo e que acontecesse alguma coisa, sabe, ainda mais por ser de espionagem. Não sei se encaro outro livro do autor, gostei do vocabulário, mas o problema é a enrolação nas informações. Estou curiosa para ver como ficou no filme.

    Beijos! 😉

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    • 10. Kamila  |  fevereiro 12, 2012 às 1:37 am

      Mayara, eu concordo totalmente com você. Beijos!

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  • 11. Matheus Pannebecker  |  fevereiro 13, 2012 às 11:37 pm

    Assisti hoje ao filme estrelado por Gary Oldman e, confesso, contei os minutos para terminar… A trama confusa e lenta não conseguiu me envolver. Por isso, não tenho qualquer interesse em conferir o resultado do livro…

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    • 12. Kamila  |  fevereiro 14, 2012 às 12:22 am

      Matheus, não me diga que o filme é tão confuso quanto o livro? Caramba…

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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