Lixo Extraordinário

setembro 8, 2011 at 12:22 am 18 comentários

Um dos artistas plásticos brasileiros com maior relevância no mercado artístico mundial, o paulista Vik Muniz trabalha com fotografias e desenhos utilizando matérias primas diversas, como arame, açúcar, chocolate, doce de leite, catchup, poeira e até mesmo sucata. De origem humilde, Vik chegou a um ponto de sua carreira em que tem tudo e não sabe mais aquilo que ainda pode alcançar. Talvez, por isso mesmo, tenha percebido que chegou a hora de retribuir um pouco toda a sorte e sucesso que ele obteve ao longo de sua vida profissional.

O documentário “Lixo Extraordinário”, da diretora Lucy Walker (e dos co-diretores Karen Harley e João Jardim), documenta justamente todo o processo de elaboração, de pré-produção, de produção e de pós-produção do projeto cultural que Vik Muniz e seu assistente Fabio Ghivelder realizaram na comunidade do Jardim Gramacho, que fica localizada no município de Duque de Caxias (RJ). O bairro foi escolhido por causa da presença do maior aterro sanitário da América Latina, o qual recebe cerca de 7000 toneladas de lixo provenientes de diversos municípios da Baixada Fluminense e da própria cidade do Rio de Janeiro.

No filme, portanto, acompanhamos toda a interação desenvolvida entre Vik Muniz, Fabio Ghivelder e os diversos catadores do Jardim Gramacho, com notável destaque para o papel exercido pela Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (Acamjg), que luta pelos direitos dos profissionais que ali trabalham. O que se estabelece entre esses diversos vértices é uma grande troca: enquanto Vik e Fabio mostram para os catadores a possibilidade da arte e da cultura como uma forma de educação e de ampliação dos horizontes, a Acamjg fornece para os dois artistas toda a matéria prima para a próxima exposição de Vik Muniz, bem como as figuras que farão parte deste trabalho (uma vez que o artista fotografou personagens do aterro e os mostrou por meio do material de trabalho deles: o lixo reciclado).

Documentário indicado ao Oscar 2011 da categoria, “Lixo Extraordinário” é um filme deveras emocionante, por vários fatores. Primeiro: por mostrar que a democratização da arte e da cultura por meio de uma ação social positiva tem, sim, o poder de modificar a vida das pessoas, como comprova o destino dos catadores que participaram do projeto de Vik Muniz. Segundo: por nos revelar que a magia da criação de algo artístico pode estar presente até mesmo nos cantos mais inusitados – e presenciar isso é, por si só, algo muito bonito. Terceiro – e mais importante: num país extremamente preocupado – e cheio de preconceitos – com convenções e classes sociais, retratar uma história como essa mexe com a auto-estima, não só dos envolvidos no projeto, como suscita toda uma noção de respeito por pessoas que dedicam a sua vida a mexer com os piores dejetos, com aquilo que todo mundo descarta. Não é todo mundo que tem essa dureza, essa resistência.

Cotação: 10,0

Lixo Extraordinário (Waste Land, 2010)
Direção: Lucy Walker
Com os depoimentos de: Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Isis Rodrigues Garros, José Carlos da Silva Baia Lopes, Sebastião Carlos dos Santos, Valter dos Santos, Leide Laurentina da Silva, Magna da França Santos, Suelem Pereira Dias

Entry filed under: Filmes.

Super 8 O Mágico

18 Comentários Add your own

  • 1. Pedro Paulo  |  setembro 8, 2011 às 12:45 am

    YES. Adoro quando vc dá 10 pra algum filme. Ainda mais “nacional”.

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    • 2. Kamila  |  setembro 8, 2011 às 1:27 am

      Pedro, e esse merece MUITO!!

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  • 3. Amanda Aouad  |  setembro 8, 2011 às 2:07 am

    Realmente o documentário impressiona, emociona e nos faz pensar. Eu gostei muito também, só tiraria aquela parte de São Paulo, para lembrar da infância de Vik, acho que teve uma quebra ali desnecessária. No mais, só parabéns mesmo aos realizadores.

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  • 4. Robson Saldanha  |  setembro 8, 2011 às 2:18 am

    Amo incodicionalmente esse filme! Acho que foi o único documentário que realmente me cativou do início ao fim… já vi três vezes e não canso! Simplesmente brilhante! Dei 10,0 sem dúvidas também!

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  • 5. Paulo Ricardo  |  setembro 8, 2011 às 2:24 am

    Eu gostei desse documentário,mas entendi a vitória do excelente “Trabalho Interno” de Charles Ferguson que é um verdadeiro “soco no estomago” e ficamos com nojo do roubo dos bancos e porque os EUA viveu uma das maiores crises no mercado financeiro.Kamila,”Lixo Extraordinário” tem uma temática universal o que com certeza ajudou na indicação ao Oscar(diferente de “Onibus 174” e “Simonal-Ninguém sabe o duro que dei”,que são excelentes mas com uma tematica muito nacional e que estrangeiro não entenderia).E você tem toda razão,Vik Muniz acerta em mostrar que existe arte nos lugares mais inusitados.Mas confesso que fiquei incomodado com a abordagem de Muniz aos catadores de lixo.Não digo que ele desrespeitou ou teve preconceitos(pelo contrário),mas parece que ele quer aparecer mais que os entrevistados.Tem um momento que ele discute com a equipe dele o que vai acontecer com os catadores de lixo quando terminar o projeto que iria para berlim.Vik Muniz foi tão narcisista.Me lembrou os piores momentos de Michael Moore.Beijos.

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    • 6. Kamila  |  setembro 8, 2011 às 3:06 am

      Amanda, concordo com seu comentário sobre a parte do filme que se passa em São Paulo.

      Robson, eu também adorei esse filme.

      Paulo, eu não assisti “Trabalho Interno”, então não posso julgar os méritos da vitória deste documentário no Oscar. “Lixo Extraordinário” é um belo filme. Eu discordo sobre seu comentário sobre a abordagem do Vik em relação aos catadores de lixo. Acho que a relação deles com ele foi tão genuína que ele mesmo que faz questão de fazer várias coisas com – e por – eles. E isso é muito bonito de se ver. Beijos!

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  • 7. Rafael Carvalho  |  setembro 8, 2011 às 2:48 am

    Nossa, que notona! Eu, particularmente, tenho sérias restrições ao filme. Não discuto o trabalho artístico do Vik Muniz, acho não só importante socialmente, como artisticamente é primoroso. Mas o que me incomoda no loga é um certo discurso pretensioso de querer mudar a vida daquelas pessoas como algo difundido por eles próprios e não reconhecido por outros. Me soa um tanto autoimportante, que se deve valorizar porque eles estão dizendo que é preciso valorizar. Além disso, ainda acho irregular as cenas com Vik e sua equipe, em comparação com as entrevista que o João Jardim fez com os catadores, que me parecem ser os melhores momentos do filme.

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    • 8. Kamila  |  setembro 8, 2011 às 3:07 am

      Rafael, as entrevistas com os catadores, realmente, são os melhores momentos do filme. Eles que são os personagens que interessam e que movem a trama deste filme e fazem o projeto dele ser especial. Pra ser bem sincera, não senti qualquer discurso pretensioso por parte de Vik Muniz e sua equipe.

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  • 9. Flávio  |  setembro 8, 2011 às 10:01 am

    Oi Kamila gostei bastante de seu texto. A propósito – no que diz respeito a documentários , estou atrás de um chamado A Ponte – sobre a Golden Gate ser cenário mensal de suícidios nos EUA. Esta produção foi muito bem avaliada pela Isabela Boscov.

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  • 10. Elton Telles  |  setembro 8, 2011 às 1:25 pm

    Como documento emocionante, realmente “Lixo Extraordinário” se vale do adjetivo do título, pois aquelas histórias realmente são muito tocantes, mas como cinema, eu achei o filme limitado. É bom, eu gostei, mas o que decai totalmente pra mim é a desconfiança da verdade, afinal, o que é aquele teatrinho entre Muniz e seus ajudantes, a esposa?

    Fora que o filme peca muito pela publicidade de Muniz em detrimento do trabalho que está desenvolvendo com aquelas pessoas, que, por si só, já é uma baita e bela venda de sua imagem.

    Eu gostei de “Lixo Extraordinário”. Com moderação. =)

    Bjs!

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    • 11. Kamila  |  setembro 9, 2011 às 12:55 am

      Flávio, eu assisti “A Ponte” na HBO, há um bom tempo atrás. Fiz até texto pro blog.

      Elton, eu não achei esse filme limitado, pra dizer a verdade. Aquele teatrinho é puramente verdadeiro, porque, em qualquer projeto cultural, existe essa preocupação, com a mudança de vida das pessoas, com o impacto, com o que acontecerá quando ele acabar. Não achei teatrinho…. Beijos!

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  • 12. Andinhu  |  setembro 10, 2011 às 12:40 am

    Pra mim deveria ter ganhado o Oscar. Fiquei muito, muito surpreso mesmo. Maravilhoso filme, fora o assunto ambiental que sempre me chama a atenção. Seu último paragrafo explicou bem.

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  • 13. Alexsandro Vasconcelos  |  setembro 12, 2011 às 3:30 am

    Quero muito ver wasteland, agora depois desse seu 10 até mais.

    p.s.: vai ter posts pré emmy aqui no blog? essa semana vai ser caça emmy posts na blogosfera. rsrs

    abraço

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  • 14. ♂•gabriel•♂  |  novembro 20, 2011 às 11:08 pm

    Eu assisti o doc.umentario na escola e achei muita zika saco

    Responder
    • 15. ♂•gabriel•♂  |  novembro 20, 2011 às 11:08 pm

      zika é teu cu filho da puta

      Responder
  • 16. moon  |  dezembro 2, 2011 às 8:03 pm

    é incrivel que as pessoas deem opiniões iniciando com “acho” ou “eu acho”… até onde eu sei, quem sabe, sabe! ter opinião não é “achar”, é saber!

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    • 17. Kamila  |  dezembro 4, 2011 às 8:41 pm

      Andinhu, também acho que deveria ter ganhado o Oscar de documentário. Ótimo filme mesmo.

      Alexsandro, tentei, mas não consegui fazer os posts pré-Emmy 2011 aqui no blog… 😦 Abraço!

      Gabriel, uma pena que não gostou do filme.

      Moon, pois é. Mas, vamos respeitar quem ACHA alguma coisa. 🙂

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  • 18. Os Melhores Filmes de 2011 « Cinéfila por Natureza  |  dezembro 28, 2011 às 1:57 am

    […] Documentário indicado ao Oscar 2011 da categoria, “Lixo Extraordinário” é um filme deveras emocionante, por vários fatores. Primeiro: por mostrar que a democratização da arte e da cultura por meio de uma ação social positiva tem, sim, o poder de modificar a vida das pessoas, como comprova o destino dos catadores que participaram do projeto de Vik Muniz. Segundo: por nos revelar que a magia da criação de algo artístico pode estar presente até mesmo nos cantos mais inusitados – e presenciar isso é, por si só, algo muito bonito. Terceiro – e mais importante: num país extremamente preocupado – e cheio de preconceitos – com convenções e classes sociais, retratar uma história como essa mexe com a auto-estima, não só dos envolvidos no projeto, como suscita toda uma noção de respeito por pessoas que dedicam a sua vida a mexer com os piores dejetos, com aquilo que todo mundo descarta. Não é todo mundo que tem essa dureza, essa resistência. (Crítica publicada em 08 de setembro de 2011) […]

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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