Lendo – “O Avesso da Cena”

julho 6, 2011 at 1:37 am 11 comentários

“O especialista é aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, até saber tudo de nada”. (p. 53)

Como bem fala o produtor e gestor cultural Romulo Avelar na abertura do livro “O Avesso da Cena – Notas sobre Produção e Gestão Cultural”, o setor cultural, no Brasil, tem crescido em uma velocidade constante e notável. Entretanto, apesar de todo o progresso visto nesta área, ainda pode ser notado um grande despreparo entre os profissionais que atuam neste campo. Se a capacitação de pessoal para uma área que se mostra cada vez mais dinâmica e seletiva é um grande desafio, então a obra que o próprio Avelar escreveu vem para preencher uma grande lacuna que existe, uma vez que são poucas as publicações especializadas neste tipo de assunto.

Neste sentido, o livro escrito por Romulo Avelar, além de altamente didático e de fácil compreensão, é um dos mais completos sobre o assunto. Em “O Avesso da Cena”, o autor fala, praticamente, sobre todas as atividades que envolvem hoje a prática de Produção e de Gestão Cultural no Brasil. No livro, podemos encontrar desde a contextualização da atual realidade cultural brasileira (com seu caráter de mecenato, de total dependência das leis de incentivo à cultura e captação de recursos), passando pela definição do que é ser um produtor e um gestor cultural, até chegar à parte mais prática dessas profissões, por meio da discussão de temas, como: a relação com os artistas, a relação com o poder público, a relação com as empresas, a relação com o público, a pré-produção, a produção, a pós-produção, a produção de turnês, a produção de eventos culturais, os aspectos legais da profissão e a gestão de grupos e de instituições culturais.

Mais do que um guia para aqueles que pretendem enveredar pelo campo da Produção e da Gestão Cultural, “O Avesso da Cena” funciona também como um registro de diversas iniciativas culturais pelo Brasil afora que deram muito certo, devido ao seu enorme profissionalismo, como: o Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte; o Teatro Vila Velha, em Salvador; a Usina do Gasômetro, em Porto Alegre; a Cooperativa Paulista de Teatro, em São Paulo; o Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga; no Ceará; o Teatro do Sesi do Rio Vermelho, na Bahia; dentre outras. Além disso, o livro traz importantes depoimentos em que produtores e gestores culturais de diversos lugares do Brasil compartilham suas experiências – boas e ruins – na profissão, de forma a enriquecer ainda mais o trabalho feito por Romulo Avelar, que é uma daquelas obras de atualização profissional que acertam em cheio ao aliar teoria com a prática, bem como ao fazer uso de exemplos reais que ajudam a gente a compreender as diversas situações que ele retrata nos muitos capítulos de seu livro.

Até a presença de cursos regulares de extensão, técnicos e de especialização, de graduação, de mestrado e de doutorado na área de Produção e Gestão Cultural, a formação dos profissionais que trabalhavam nesta área era feita de forma muito intuitiva, com o aprendizado sendo feito na prática do dia a dia da profissão. O profissional que decide trabalhar com Produção Cultural deve possuir um perfil dinâmico para compreender as diferentes linguagens artísticas e para poder também viabilizar, de forma prática, os “devaneios” artísticos daqueles que movem o campo da cultura. Por isso mesmo a importância de “O Avesso da Cena”, que retrata os percalços e os obstáculos a serem vencidos, dia a dia, por aqueles que se propõem a transformar os sonhos em realidade.

O Avesso da Cena – Notas sobre Produção e Gestão Cultural (2010 – 2ª Edição)
Editora: Duo Editorial
Autor: Romulo Avelar

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11 Comentários Add your own

  • 1. João Paulo Rodrigues  |  julho 6, 2011 às 1:55 am

    É importante analisar no momento mais importante do cinema nacional no qual a cada momento se entra no eixo de como ter uma estrutura de porte de cinemas que tanto admiramos, porém é melhor ainda ver que o próprio autor reconhecer as falacias e as dificuldades do despreparo de quem faz.

    Muitas vezes buscamos a resposta do por que o cinema nacional está assim. Devemos em primeiro lugar criar mais debates sobre o tema e principalmente analisar o fundamental, ver a alegria do espectador em saber que um produto made in brazil pode fazer frente a grandes empresas de cine.

    Só falta mióra ainda mais eheheh
    Beijos Milla!

    Responder
    • 2. Kamila  |  julho 6, 2011 às 2:00 am

      João, exatamente. Acho que o cerne da produção de cinema no Brasil, como de toda a produção cultural no geral, passa pela forma de financiamento…. Há que se repensar todo esse sistema de leis de incentivo, de forma que eles realmente descentralizem o investimento de recursos e democratizem o acesso à cultura. Beijos!

      Responder
  • 3. Amanda Aouad  |  julho 6, 2011 às 4:46 am

    Parece mesmo, bem interessante. No que tange o cinema nacional, acho que uma importante questão é a distribuição, enquanto as multinacionais dominarem o mercado, os filmes brasileiros não vão conseguir lucrar a ponto de criar uma indústria e assim, depender menos de leis de incentivo, por exemplo.

    Responder
  • 4. bruno knott  |  julho 6, 2011 às 1:15 pm

    Parece ser uma obra de grande relevância para compreender como funciona todo esse mecanismo…

    Nosso cinema realmente é um tipo de mecenato… mas acho difícil que isso mude…

    Enfim, parece ser uma boa leitura pra quem quer conhecer mais do assunto.

    Abraços!

    Responder
    • 5. Kamila  |  julho 6, 2011 às 11:07 pm

      Amanda, também acho que, no que se refere ao cinema brasileiro, a questão da distribuição é um grande problema…

      Bruno, é sim, uma obra de muita relevância. Abraços!

      Responder
  • 6. Victor Nassar  |  julho 7, 2011 às 3:29 pm

    É um assunto que muito me interessa. Procurei nas livrarias online aqui (Saraiva, Livrarias Curitiba, Submarino), mas não achei. Sabe onde encontro?

    Ainda é caríssimo fazer cinema no Brasil. Principalmente para o idealizador. Se você decide fazer o filme, mesmo sem apoio, e tirando do próprio bolso, você não consegue o mínimo de distribuição por não contar com uma grande produtora no projeto. A mentalidade é muito elitista. É muito fácil a Petrobrás, a Claro ou o Itaú estamparem lindamente em suas propagandas a frase de que apoiam a cultura no país. Mas aí você vai ver o tipo de produções e percebe aquele apelo Globo. O cinema independente não tem a menor força.

    Claro que muita coisa melhorou de uns anos para cá e ainda acredito no nosso cinema. Mas penso quanta gente fantástica temos sem conseguir produzir. Quantos filmes do Didi e da Xuxa bancariam essa gente. Também reconheço a importância desses 2 e do chamativo Global, o quanto ainda geram de bilheteria. Se pelo menos as grandes produtoras pensassem de maneira mais ampla, no sentido de que a cada filme de massa que gerasse renda, x filmes autorais poderiam ser feitos.

    Cada vez que o cinema nacional tenta imitar o dos EUA, pode realmente fazer sucesso aqui, já que o modelinho de receita de bolo funciona bem pra isso. Mas esse tipo de filme jamais vai fazer sucesso lá fora, pois ainda fica muito além da qualidade deles. Ainda assim, o que daria motivação ao público estrangeiro de ver um filme Brasileiro seria justamente o fato de apresentar um novo olhar de cinema, tal qual acontece com o francês, espanhol, japonês, mexicano e até aqui do lado na Argentina. Cada filme NOSSO que fizesse sucesso lá fora abriria mais portas para o nosso cinema, o que geraria mais distribuição, patrocínio, credibilidade, apoio, tanto lá quanto aqui e aí sim fortaleceria uma indústria brasileira.

    Em conjunto a isso, estimular festivais, oferecer benefícios, diminuir a burocracia, fazer campanha de valorização do cinema nacional. Precisamos de movimentos cinematográficos, manifestos, algo que estimule a experimentação, que nos faça sair do lugar comum em que estamos caindo e parece que nos acomodamos. Precisamos do nosso próprio Dogma 95. Vamos lá, façam um movimento que proíba Favela-Comédia Romântica-Final Feliz, procurem influências de Vinícius de Morais, Bossa Nova, Caetano Veloso, Chico Buarque. Precisamos de ar.

    Desculpe o texto longo aqui, talvez até tenha me perdido e misturado assuntos, hehe.

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    • 7. Kamila  |  julho 8, 2011 às 1:42 am

      Victor, não sei! Ganhei esse livro, porque estou fazendo um curso nessa área… A verdade é que a produção cultural no Brasil, hoje, depende das leis de incentivo à cultura e captação de recursos. Essa é uma realidade que não irá mudar por um bom tempo! Eu acho que você levanta questões importantíssimas em seu comentário, mas eu acho que o firmamento do cinema nacional passa por encontrar sua própria identidade, fazendo filmes que tenham uma linguagem mais universal e que não fiquem olhando somente para a nossa sociedade. Às vezes, olhar o mundo de fora, faz com que a gente compreenda mais o que a gente tem aqui dentro. Precisa-se ter esse olhar, entende??? Perfeito comentário! Não precisa se desculpar! 🙂 Ele é muito pertinente!!!

      Responder
  • 8. asfcawdgafva  |  agosto 17, 2011 às 3:19 am

    so faltava colocar o livro a venda… to tentando achar pra comprar essa merda ja tem um tempo… e puta que pariu o autor escreveu e deu pra mãe dele …

    Responder
    • 9. Kamila  |  agosto 17, 2011 às 10:20 pm

      asfcawdgafva, você já tentou no site da Livraria Cultura? Eu ganhei esse livro por causa do curso que estou fazendo em Produção Cultural.

      Responder
  • 10. Romulo Avelar  |  agosto 28, 2011 às 4:41 pm

    Pessoal,

    Infelizmente, a loja virtual que vendia o meu livro saiu do ar. Enquanto o problema não é solucionado, coloco à disposição de vocês o e-mail da Maria Helena Cunha, da Duo Editorial: mhcunha@duo.inf.br . O livro pode ser enviado pelo correio.

    Deixo aqui também o meu e-mail: ravel@uai.com.br .

    Um abraço para a Kamila e para todos,

    Romulo Avelar

    Responder
    • 11. Kamila  |  agosto 28, 2011 às 9:42 pm

      Romulo, que honra a sua visita! Muito obrigada pelas informações prestadas! E espero que tenha gostado do texto sobre seu livro! 🙂 Abraços!

      Responder

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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