Em um Mundo Melhor

junho 16, 2011 at 12:06 am 11 comentários

A cena de abertura de “Em um Mundo Melhor”, filme da diretora dinamarquesa Susanne Bier, é muito emblemática. Nela, encontramos o médico Anton (Mikael Persbrandt), na caçamba de um caminhão que o leva, diariamente, ao trabalho, numa localidade remota do continente africano. Atrás do veículo, temos várias crianças, todas alegres, perguntando, o tempo inteiro ao médico: “Como está você? Como está você? Como está você?”. A verdade é que Anton não está bem (a rotina de trabalho dele é extenuante, ele está longe de sua família e vive assistindo às brutalidades cometidas pelo regime dominante da cidade onde está servindo) e nem mora num mundo melhor (para fazer uma citação direta ao título deste longa).

O roteiro escrito por Anders Thomas Jensen mostra, na verdade, que o mundo não é um lugar bom – pelo menos, nesse momento. Na gama de personagens que compõem a obra dirigida por Susanne Bier, encontramos pessoas (das mais variadas idades) que estão unidas por um constante fluxo de perda, de tragédia e de momentos difíceis. São elas, além do médico Anton: a esposa dele, a também médica Marianne (Trine Dyrholm) e o filho mais velho Elias (Markus Rygaard); além do viúvo Claus (Ulrich Thomsen) e seu único filho Christian (o talentoso William Johnk Nielsen).

Seguindo a linha de obras recentes, como “A Fita Branca”, de Michael Haneke, “Em um Mundo Melhor” joga o olhar em cima das crianças (aqui, quase pré-adolescentes) para mostrar o quanto eles são produtos do ambiente no qual estão inseridos: desde a morte da mãe, Christian se tornou alguém muito rude, agressivo e um tanto revoltado; já Elias não tem uma personalidade muito forte, é altamente influenciável e vítima constante de bullying – para completar, o casamento de seus pais está à beira de um divórcio. Neste cenário, Elias não tem resistência suficiente para ficar imune à ascendência que Christian passa a exercer sobre ele e o que começamos a assistir é a um retrato – em muitos momentos – chocante de vingança e violência sem a consciência concreta das consequências que isso pode trazer para aqueles que as perpretam.

A grande surpresa de “Em um Mundo Melhor” vem na forma do comovente ato final do filme. Nele, temos uma espécie de recuperação do núcleo familiar – o que contraria de forma direta o que estávamos vendo, até agora – e dos papeis que os nossos pais exercem, não só na nossa criação, como também na formação das nossas personalidades. Nos momentos de maior crise, são Marianne e Anton e Claus que irão ajudar seus dois filhos a compreenderem a corrente de emoções e de dor que é uma característica marcante da existência humana e do processo de amadurecimento e de entrar em contato com aquilo que nos faz, ao mesmo tempo, fortes e fracos – aqui também podemos encontrar um paralelo entre a forma como Anton reage ao duro ambiente em que vive e as maneiras como Elias e Christian respondem às adversidades que enfrentam (é tudo uma questão de experiência de vida e de amadurecimento). E é justamente neste tipo de realização que se encontra a maior beleza deste longa vencedor do Globo de Ouro e do Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.

Cotação: 8,5

Em um Mundo Melhor (Haeven, 2010)
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Anders Thomas Jensen
Elenco: Mikael Persbrandt, William Johnk Nielsen, Ulrich Thomsen, Simon Maagaard Holm, Markus Rygaard, Trine Dyrholm

Entry filed under: Cinema.

X-Men: Primeira Classe Um Lugar Qualquer

11 Comentários Add your own

  • 1. João Paulo Rodrigues  |  junho 16, 2011 às 12:29 am

    É uma pena em não ter conferido esse filme, já que infelizmente não estreou por aqui, Aguardando quando chegar aos cinemas daqui ou encontrar em dvd … já que o povo do albergue sempre compra filme de arte pro povo.

    Beijos e abraços milla!

    Responder
  • 2. Otavio Almeida  |  junho 16, 2011 às 1:11 am

    Acho que a diretora exagera um pouco no contraste da beleza das paisagens, da fotografia e da bondade de Anton com a alvorada da violência, justamente nos primeiros passos da vida de um homem, que é a sua infância. Não precisava ser tão comercial de margarina.

    Bjs!

    Responder
    • 3. Kamila  |  junho 16, 2011 às 1:36 am

      João Paulo, esse filme passou em sessão única aqui em Natal e tive o prazer de conferir. Beijos!

      Otavio, eu não achei esse filme muito comercial de margarina, mas concordo que a Susanne alivia a mão muitas vezes no decorrer do filme. Beijos!

      Responder
  • 4. Alan Raspante  |  junho 16, 2011 às 8:28 pm

    Ainda não conferi e nem estava animado para ver já que andei lendo umas críticas bem “desanimadoras”… Bem, impossível não querer ver após ler a tua crítica xD

    Responder
    • 5. Kamila  |  junho 16, 2011 às 11:04 pm

      Raspante, obrigada!

      Responder
  • 6. Cristiano Contreiras  |  junho 17, 2011 às 2:11 am

    Quero ver esse! E logo! Espero gostar, Ka.

    Beijo!

    Responder
  • 7. Paulo Ricardo  |  junho 17, 2011 às 6:06 am

    Coisas que perdemos pelo caminho(ufa!!) era fraquissimo.Suzane Bier não conseguiu dirigir dois grandes atores como Halle Berry e Benicio Del Toro.Pelas criticas recentes parece que vou gostar.E pelo Oscar tbm.Bjs.

    Responder
  • 8. Elton Telles  |  junho 17, 2011 às 4:41 pm

    Gostei da sua análise, Kamila. Praticamente, atribuímos a mesma nota. O aspecto que mais me chamou a atenção em “Em um Mundo Melhor” foi os conflitos diários que enfrentamos no nosso cotidiano e que podem gerar uma grande tragédia. Coisas pequenas que se transformam em tempestades insolúveis. Inesquecível, pra mim, é a cena do pai que vai tirar satisfações com o mecânico. Cena forte e dolorida, muito marcante!

    Elenco muito bom e o roteiro é bem temperado, só a direção de Bier que pesa um pouco a mão, mas, no geral, realiza um bom trabalho.

    Bjs!

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    • 9. Kamila  |  junho 18, 2011 às 5:15 pm

      Cristiano, espero que você goste também! Beijo!

      Cristiano, não sei se Halle Berry é uma grande atriz, mas acho “Coisas que Perdemos Pelo Caminho” um filme bastante irregular. Beijos!

      Elton, obrigada! 🙂 Esse aspecto também me chamou bastante a atenção neste filme. Para mim, a cena inesquecível foi a do Anton falando com Christian. Me emocionei muito nessa cena. Beijos!

      Responder
  • 10. Vassilizai  |  junho 22, 2011 às 3:16 pm

    É por conta de filmes assim, da maravilhosa Bier, que amo os filmes do movimento Dogma 95…

    Responder
    • 11. Kamila  |  junho 22, 2011 às 11:05 pm

      Vassilizai, eu não sou a maior fã do movimento Dogma 95, mas acho alguns filmes desse movimento sensacionais, como “Dançando no Escuro”, “Dogville” e esse aí, que também é muito bom!

      Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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