Lendo – “50 Anos a Mil”

maio 18, 2011 at 2:10 am 6 comentários

“Espero que, despejando esses acontecimentos mais importantes e voluptuosos desses primeiros cinquenta anos de uma vida vivida em alta velocidade, eu adquira cada vez mais entusiasmo, criatividade e sede de aventura para, daqui a uns cinquenta anos, estar oferecendo à rapaziada a segunda parte desta história. Afinal de contas, o melhor ainda está por vir”. (p. 591)

No prólogo de “50 Anos a Mil”, biografia que ele escreveu com a colaboração de Claudio Tognolli (que fez uma reunião de reportagens veiculadas sobre Lobão ao longo destes 50 anos de vida, bem como dos diversos acórdãos dos inúmeros processos aos quais ele foi submetido nestes anos todos), o cantor, compositor e apresentador Lobão faz um alerta aos leitores: “preparem-se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente se projeta em direção ao futuro”.

A verdade está bastante contida nestas pequenas palavras, uma vez que, no epílogo que fecha o livro, Lobão faz uma análise de tudo aquilo que viveu e chega a conclusão de que todas as experiências – as boas e as ruins – fizeram com que ele se tornasse uma pessoa melhor. De uma certa forma também, toda a vivência dele, ao longo destes 50 primeiros anos de vida, fizeram com que ele desabrochasse e saísse “ileso” de um ambiente familiar que, ao mesmo tempo, era muito acolhedor e afetivo, porém com um núcleo imediato extremamente doentio do ponto de vista emocional – a mãe de Lobão era bipolar e superprotetora, enquanto o pai era um homem que vivia para o trabalho como restaurador de máquinas antigas.

Nascido João Luiz Woerdenbag Filho em 11 de outubro de 1957, no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro-RJ, “50 Anos a Mil” é uma prova concreta de que Lobão (apelido que ele ganhou na adolescência, dos colegas de colégio) é um produto direto do ambiente em que ele cresceu, ao mesmo tempo em que a grande jornada dele é a de busca por um lugar a que pertencer – e isso ele encontrou na música e na parceria de vida com a esposa Regina. Aprender um instrumento (ele toca bateria, violão clássico e guitarra) mudou mesmo a vida de Lobão e abriu para ele inúmeras portas e grandes oportunidades.

A experiência de ler “50 Anos a Mil”, livro que é uma biografia muito direta, honesta e verdadeira (impressiona, em certos momentos, que o retrato cronológico feito por Lobão nos é contado com uma minúcia de detalhes que não deixam nada por debaixo dos panos), nos revela que é injusto, até, com Lobão, diminuí-lo a várias dos adjetivos que o acompanham no decorrer de sua vida, como polêmico e contestador. Lobão, na realidade, como bem fala sua querida amiga Maria Juçá, é “de uma personalidade muito comunicativa. Também pela coragem dele de expressar os sentimentos dele de uma forma direta sem medir consequências. A arte dele é feita de uma forma direta e sem medir consequências. Essa capacidade de fazer uma coisa direta e honesta e de falar tudo na música dele, e ao mesmo tempo ter muito sentimento”. Por falar as coisas na via direta, sem preservar nada, Lobão fez toda a cena musical da sua época se movimentar com suas críticas.

Neste sentido, se tivermos que oferecer uma característica justa a esta trajetória de Lobão seria “transgressor”, porque Lobão, de uma certa maneira, foi um visionário dentro de seu tempo. Foi o primeiro, da geração dos anos 80, a dizer que o rock errou, a incorporar elementos da música brasileira (notadamente o samba, com sua parceria com a bateria da Estação Primeira de Mangueira, que atingiu o seu ápice num show inesquecível no Hollywood Rock, em 1990) e a enfrentar as gravadoras na briga pela Lei na Numeração de discos (a qual foi aprovada pelo Congresso Nacional) – é importante mencionar, neste ponto, que a iniciativa de Lobão ao criar a revista “OutraCoisa”, que encartou discos dele mesmo e de alguns dos artistas mais legais a serem revelados pela música brasileira nos últimos anos, como BNegão e Cachorro Grande, muito contribuiu para a passagem da lei.

A parte mais chocante de “50 Anos a Mil” é a que Lobão revela o imbróglio judicial no qual se envolveu entre 1987 e 1990, período em que ele foi enquadrado na lei de usuário de drogas e ficou preso na Polinter, delegacia localizada no Rio de Janeiro, por porte de maconha e cocaína, num claro abuso de interpretação da lei, uma vez que Lobão era réu primário. Essa época fez com que o cantor ficasse muito revoltado e trouxesse vários obstáculos, não só à sua vida pessoal (ele estava com uma filha recém-nascida na época, uma filha que, aliás, ele não consegue manter um bom relacionamento – um dos poucos temas – compreensivelmente – proibidos na biografia), como também à sua vida profissional. No lado positivo disso tudo, o fato de que Lobão canalizou toda a sua ira com a situação e idealizou “Vida Bandida”, um dos seus mais brilhantes álbuns como cantor e compositor e que inaugurou a época mais áurea de sua carreira.

Por ser um relato muito pessoal e honesto sobre os seus primeiros 50 anos de existência, “50 Anos a Mil” acaba muita vezes funcionando como uma forma de terapia, como uma maneira de Lobão exorcizar tudo aquilo que ele viveu antes deste momento mais calmo e tranqüilo de sua vida e pudesse olhar em frente para poder, um dia, quem sabe, como ele mesmo promete, na frase que fecha o epílogo do livro, nos entregar uma nova reunião de memórias sobre os 50 anos que ele está vivendo e que estão por vir. Para nós, que acompanhamos o trabalho dele de longe, a obra fica muito como um importante registro para que possamos compreender uma personalidade única e multifacetada, que esteve muito à frente de seus colegas de geração, que conseguiu se reinventar ao longo destes anos todos (e contra todos os indícios que provavam o contrário) e que não recebe o devido crédito que merece. Quem sabe o livro não faz isso para ele.

50 Anos a Mil (2010)
Autor: Lobão (com a colaboração de Claudio Tognolli)
Editora: Nova Fronteira

Entry filed under: Livros.

Thor Água para Elefantes

6 Comentários Add your own

  • 1. João Linno  |  maio 18, 2011 às 10:07 am

    Muita vontade de ler esse livro.
    Alguns episódios na vida de Lobão são surreais.

    Bjos.

    Responder
  • 2. Carissa  |  maio 19, 2011 às 1:15 am

    É curioso como eu leio pouco biografias. Sempre penso em ler alguma, mas acabo indo para livros de ficção.

    Beijos!!

    Responder
    • 3. Kamila  |  maio 19, 2011 às 1:37 am

      João Linno, leia, sim! A vida do Lobão é intrigante. Beijos!

      Carissa, eu sempre equilibro a leitura de biografias com os livros de ficção! Beijos!

      Responder
  • 4. Márcia Rodrigues  |  maio 19, 2011 às 2:02 am

    Lobão é muito inteligente. O livro dele é uma relíquia pra mim. Sou fã das ideias dele. Parabéns por lembrar dele aqui. Abç.

    Responder
    • 5. Kamila  |  maio 19, 2011 às 9:27 pm

      Márcia, o livro dele é realmente excelente. Obrigada! Abraços!

      Responder
  • 6. Clarice  |  agosto 2, 2011 às 2:02 am

    Acabei de ler, amei, recomendo com veemência aos amantes da MPB e àqueles que costumam julgar as pessoas pela lente da mídia… na maioria das vezes ela é míope. É claro que qualquer autobiografia é uma versão parcial… mas quem melhor pra falar de sua vida senão quem a viveu? Nota 1000 pra Lobão, boa contribuição para a história da música brasileira e para o entendimento da confusa cabeça dos nossos gênios musicais.

    Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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