Jogo de Poder

abril 1, 2011 at 10:16 pm 22 comentários

Baseado em uma história real, o filme “Jogo de Poder”, do diretor Doug Liman, conta o caso que ficou conhecido como o Plame Affair. O nome se refere ao vazamento da identidade de Valerie Plame, agente da CIA, pelo alto escalão do governo dos EUA (mandato do presidente George W. Bush), através de uma matéria jornalística publicada em 14 de julho de 2003. Divulgar o nome real de uma agente secreta é um crime nos EUA e o seu culpado foi investigado por um Grande Júri, do qual saiu condenado – um dado importante que nos é revelado nos créditos finais deste longa é que a sentença decretada ao assessor Lewis “Scooter” Libby foi revogada pelo próprio presidente Bush. Impressionante, né?

O que interessa, nessa história, ao roteiro escrito por Jez Butterworth e John-Henry Butterworth (com base nos livros de Joseph Wilson e Valerie Plame) é fazer uma grande contextualização de todos os eventos que levaram ao vazamento do nome de Valerie Plame pela imprensa. Uma competente agente da CIA, Plame (Naomi Watts) era responsável por várias operações de campo. Uma delas era a investigação, no Iraque, da produção de armas nucleares ou das famosas armas de destruição de massa.

Valerie nunca encontrou nenhum indício de que tais armas fossem produzidas no Iraque. A pista mais forte dela era a de que todos os cientistas responsáveis por essas produções tinham seguido seus próprios caminhos no país após certo período. Um detalhe importante nesta história é que o próprio marido de Valerie, o ex-diplomata Joseph Wilson (Sean Penn), participou desta investigação viajando até o Níger (país no qual ele tinha servido) para verificar se era procedente a acusação de que esta localidade estava vendendo o urânio que seria utilizado na produção destas tais armas, também não encontrando nenhum indício de que isto fosse verdadeiro.

O destino desse casal mudou a partir de dois acontecimentos: no dia 28 de janeiro de 2003, o então presidente George W. Bush fez seu discurso anual à nação norte-americana elencando as razões pelas quais estaria entrando em guerra contra o Iraque (por causa dos indícios da produção de armas de destruição de massa, como bem sabemos). Em resposta aos motivos apontados pelo presidente dos EUA, Wilson escreveu um artigo, no New York Times, intitulado “What I Didn’t Find in Africa”. O que veio em seguida (a revelação da identidade de Valerie, a série de entrevistas dadas por Joseph para comprovar que ele falava a verdade e defendendo a honra de sua esposa, tentando mostrar o que crime que havia sido cometido contra ele, além, é claro, das próprias crises pessoais que ambos os personagens irão passar nesta fase difícil de suas vidas), o filme tenta nos comprovar, foi uma retaliação por tudo o que Wilson retratou em seu artigo, o que atingia diretamente a credibilidade da figura mais poderosa dos EUA: a do presidente. Nesse cenário todo, uma certeza: Wilson e Valerie eram os peixes pequenos lutando contra os figurões poderosos. E esse, para fazer uma citação direta ao nome deste longa, era tudo menos um jogo justo.

O formato adotado pelo diretor Doug Liman para retratar esta história segue um caráter bastante documental e esse é um dos grandes acertos dele neste filme. O segundo foi a escalação de Sean Penn e Naomi Watts (dois atores talentosos e que, aqui, estão muito bem) para os papeis principais. Entretanto, a sensação que fica é a de que este é um longa que foi produzido tarde demais, uma vez que todo aquele sentimento da América pós-11 de setembro (retaliação total àqueles que se colocarem no caminho deles, nas intenções deles) me parece ter ficado no passado. O país, hoje, vive um momento diferente (em todos os sentidos). Porém, nunca é tarde para se contar a verdade, então, “Jogo de Poder” fica como mais um registro do por quê os norte-americanos devem tentar esquecer o segundo mandato de George W. Bush, porque ele foi a representação da trapalhada atrás de trapalhada.

Cotação: 8,0

Jogo de Poder (Fair Game, 2010)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Jez Butterworth e John-Henry Butterworth (com base nos livros de Joseph Wilson e Valerie Plame)
Elenco: Naomi Watts, Sean Penn, Ty Burrell, Jessica Hecht, Rebecca Rigg, Brooke Smith, Thomas McCarthy, Noah Emmerich

Entry filed under: Cinema.

Passe Livre Cena da Semana*

22 Comentários Add your own

  • 1. Otavio Almeida  |  abril 1, 2011 às 10:32 pm

    Acho que o diretor perdeu muito tempo com o papo “existem ou não existem armas de destruição em massa no Iraque”. O que interessa é o vazamento da identidade de Valerie. A não ser que o espectador seja republicano ou democrata. Aí sim a primeira hora do filme vale uma discussão.

    Bjs!

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    • 2. Kamila  |  abril 1, 2011 às 10:34 pm

      Otavio, concordo que a contextualização foi muito longa. O filme ganha mesmo a partir do momento em que a identidade de Valerie é vazada. Aí, sim, temos uma obra com ritmo excelente. Beijos!

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  • 3. Otavio Almeida  |  abril 1, 2011 às 10:44 pm

    É, acho que o ato final só deveria ter sido mais forte nas engrenagens da politicagem. Não na crise do casamento. Já já posto minha crítica no Hollywoodiano. Vc vai entender minha bronca.

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    • 4. Kamila  |  abril 1, 2011 às 11:17 pm

      Otavio, li seu texto e concordei com o que foi escrito. 🙂

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  • 5. Amanda Aouad  |  abril 2, 2011 às 12:24 am

    Realmente ele leva um bom tempo na contextualização, mas acho que é necessário para o público leigo entrar no clima. E concordo que no final, o casamento virou foco. Ainda assim, gostei do filme e da forma como nos envolve.

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    • 6. Kamila  |  abril 2, 2011 às 1:02 am

      Amanda, sim, verdade. É necessária a longa contextualização, até mesmo rpa gente entender tudo. Eu também gostei do filme, apesar de tudo.

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  • 7. Paulo Ricardo  |  abril 2, 2011 às 1:10 am

    Tem 2 filmes que no inicio do 2°semestre do ano passado estavam super cotados para o Oscar:Jogo de Poder(vários blogs chegou a cogitar uma nomeação para Doug Liman)e Um Lugar Qualquer de Sofia Coppola.Nenhum dos 2 emplacou indicações em premiações,mas estou na expectativa por esse filme que parece ser muito bom.Antes de tudo os protagonistas são atores que admiro muito.Sean Penn que nos ultimos anos só acerta como na grande atuação do ativista/politico Gay Harvey Milk ou na direção precisa de Na Natureza Selvagem e até quando é careteiro no subestimado A Grande Ilusão e claro Sobre Meninos e Lobos que apesar de 7 anos atrás foi o melhor papel de sua carreira e Naomi Watts que só acerta também(King Kong,Violencia Gratuita,Destinos Ligados,21 Gramas…).Sua critica me deixou com mais vontade de ver o filme.Beijos e bom final de semana.

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  • 8. bruno knott  |  abril 2, 2011 às 2:47 am

    Você me deu uma animada pra assistir a este filme…

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  • 9. Reinaldo Matheus Glioche  |  abril 2, 2011 às 1:30 pm

    Ótimo filme mesmo. Penn e Watts, pela terceira vez juntos, sempre agradam. E acho que Liman acertou com esse filme depois do divertido, mas bobinho Jumper.
    Bjs

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    • 10. Kamila  |  abril 2, 2011 às 2:25 pm

      Paulo, eu assisti a este filme justamente porque admiro demais os dois atores. E não me arrependi, pra ser bem sincera. Mas, entendo o por quê de ter ficado de fora das premiações. Beijos e bom final de semana!

      Bruno, que bom! Mas, não fique esperando uma obra sensacional!

      Reinaldo, Penn e Watts são dois atores que, realmente, agradam demais. Verdade! Um acerto total do Liman depois da bobeira “Jumper”. Beijos!

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  • 11. Mayara Bastos  |  abril 2, 2011 às 4:12 pm

    O filme tem elementos que me despertam a curiosidade, além de Penn e Naomi.

    Beijos e tenha um ótimo fim de semana! 😉

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  • 12. Alan Raspante  |  abril 2, 2011 às 6:56 pm

    Então Kamila, esse filme nem deu as caras nos cinemas da minha cidade. Significa que vou ter que ver em DVD mesmo, assim que sair. Gosto da Watts e a estória me deixou ‘tentado’!

    abs.

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  • 13. Hugo  |  abril 2, 2011 às 8:14 pm

    Gostei do filme, o diretor Doug Liman acertou em contar esta trama política suja e que mostra um pouco mais como foram vergonhosas as duas administrações Bush.

    Até mais

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    • 14. Kamila  |  abril 3, 2011 às 12:31 am

      Mayara, espero que o assista. Beijos e ótimo final de semana!

      Raspante, espero que possa assistí-lo e gostar! Abraços!

      Hugo, eu também gostei muito desse filme. Até mais!

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  • 15. Matheus Pannebecker  |  abril 2, 2011 às 11:31 pm

    Não tenho tanto interesse por esse filme, mas, sem dúvida, vou conferir por causa de Sean Penn e Naomi Watts =)

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    • 16. Kamila  |  abril 3, 2011 às 12:32 am

      Matheus, e os dois atores, por si só, já valem uma conferida nesse filme.

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  • 17. Cristiano Contreiras  |  abril 4, 2011 às 12:48 am

    Vou conferir, também gosto muito da dupla e tenho certeza que o filme é muito bem realizado.

    Ah, muito bom seu texto, bem articulado e colocou as questões principais do filme.

    Beijo! 😉

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  • 18. João Linno  |  abril 4, 2011 às 2:24 pm

    Ótimo filme. Melhor ainda foi a sacada do diretor em incluir cenas reais dos discursos de Bush e dos bombardeios no Iraque.

    Abraço.

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  • 19. Elton Telles  |  abril 4, 2011 às 5:53 pm

    Olá Kamila!
    gostei muito do texto. Ainda não tive a chance de assistir a este, mas estou de olho nele desde Cannes. A dobradinha Penn/Watts já renderam outros 2 memoraveis filmes – “21 Gramas” e “O Assassinato de um Presidente” – o que me diz que este será diferente?

    Bjs!

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    • 20. Kamila  |  abril 5, 2011 às 11:34 pm

      Cristiano, é bem realizado, sim! Obrigada! Beijo!

      João, exatamente. Também achei legal e isso reforça o caráter documental da obra. Abraço!

      Elton, obrigada!!! Esse filme é bom, mas não é tão bom quanto “21 Gramas”. 🙂 Beijos!

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  • 21. nilo  |  abril 8, 2011 às 8:10 pm

    eu gostei mto do filme, não concordo que seja um momento inapropriado e não achei chata ou desnecessária a primeira hora de filme. estamos vivendo atualmente um momento de desgaste da gestão obama e uma maioria republicana no congresso.. os republicanos estão com a bola todo, obama fez muito pouco do que prometia e fez porém muitas concessões… a aposta na esperança que muitos fizeram parece desgastada, mtos que apoiavam obama não o apoiam mais por ter se aproximado demais do que pretendia combater….

    achei linda a cena em que a jornalista começa a insultar o personagem principal no restaurante, o que o leva a perder seus clientes… aquela coisa dos telefonemas agressivos tbm, a coisa de serem acusados de comunistas, tdo isso sem contar que o filme antes te avisa que o personagem já enfrentou sadam de frente expondo sua vida a risco para conseguir trazer os americanos do iraque qdo foi embaixador por lá…

    o filme traz mtos detalhes que eu não sabia ou não lembrava… por exemplo esse incidente do embaixador no iraque eu nunca tinha ouvido falar… quem assistiu comigo nunca nem tinha ouvido falar nessa historia mas achou mto interessante… e acho que a contextualização serviu bem tanto a mim – que conhecia e lembrava um pouco da historia e “torço” pelos democratas, qto a ela que não lembrava da historia e nem nutre grandes sentimentos pela disputa democratasx republicanos…

    enfim não me pareceu um filme feito para americanos não. me agradou bastante. mas o outro do matt damon que ele faz um militar procurando por armas quimicas e que começa a desvendar a farsa que foi a guerra no iraque tem um ritmo mais empolgante eh verdade… chegando perto da trilogia bourne em termos de ação pra mim.. rsrs

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    • 22. Kamila  |  abril 8, 2011 às 10:45 pm

      Nilo, acho que você se refere à “Zona Verde”, correto??? Ainda não assisti a este filme. Mas, olha, quando falo no momento errado, é porque esse tipo de filme deveria ser feito na época da administração Bush mesmo!

      Resposta

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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