Lendo – A Bela e a Fera

junho 25, 2010 at 9:27 pm 10 comentários

“Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução”. (p. 26)

“A Bela e a Fera” é um livro que reúne oito contos escritos por Clarice Lispector nos anos de 1940, 1941 e 1977 (o da morte dela). Apesar de terem sido concebidos em momentos de vida distintos da escritora, todos os contos presentes nesta obra possuem um denominador comum: eles têm como personagens principais pessoas que tentam reencontrar-se, muitas vezes após viverem ou estarem em momentos adversos. Um outro ponto similar entre os contos é que eles mostram situações em que pode até existir a vontade, mas se falta a coragem (exceto nos casos de “Obsessão” e “Um Dia a Menos”) para tentar modificar o estado em que as coisas se encontram. 

O primeiro conto, “Felicidade Interrompida”, fala sobre uma mulher que teve seu futuro ceifado por circunstâncias que lhe fogem ao controle, mas, com as quais, ela terá que aprender a conviver, por mais difícil que seja. O segundo, “Gertrudes Pede um Conselho”, nos coloca diante que alguém que percebe que existir é o bastante. O terceiro, “Obsessão”, mostra uma mulher que não tem medo do “e se?”, toma uma decisão e tem a humildade de voltar para a sua antiga vida, após tentar conhecer o novo. O quarto, “O Delírio”, retrata os pensamentos desconexos de um enfermo em seu leito. O quinto, “A Fuga”, é bem peculiar, pois nos remete um tanto à Laura Brown (a melhor personagem do lindo livro “As Horas”, de Michael Cunningham),  uma vez que a protagonista do conto é alguém que não acredita pertencer à realidade em que está inserida e se apoia na possibilidade de escapar de tudo isso como um alento. O sexto, “Mais Dois Bêbedos”, é uma conversa de bar meio embaçada, que só deve fazer sentido mesmo porque estamos diante de dois seres alcoolizados. O sétimo, “Um Dia a Menos”, é sobre o dia definitivo e sobre como as circunstâncias que levam à morte podem ser um tanto triviais. O oitavo – e último -, “A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais”, que dá nome ao livro, mostra uma linda mulher que descobre o lado primitivo que existe dentro dela mesma. 

“A Bela e a Fera” nos coloca diante de doses homeopáticas do único estilo de escrever de Clarice Lispector. Interessante perceber que mesmo diante de contos cujas estruturas são bem simples (se é que se pode dizer que qualquer coisa vinda de Clarice é simples), podemos notar as principais características da prosa da escritora: o fraseado pungente, cortante e intenso, que mexe com a gente e que faz com que nós nos coloquemos dentro da história. Também é muito interessante ver que, nos oito contos, encontramos aquela grande motivação de Clarice: conhecer o ser humano, as suas emoções e as suas idiossincrasias. Além disso, temos também aquele grande achado da Literatura de Clarice Lispector: o fato de que, muitas vezes, diante das mais banais situações de vida, diante de algo que nem parece ser especial, chegamos ao momento de realização em que encontramos aquilo que somos. E isso irá bastar.

A Bela e a Fera (1999 – Publicação original em 1979)
Editora: Rocco
Autora: Clarice Lispector

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Cartas para Julieta Cena da Semana*

10 Comentários Add your own

  • 1. Vinícius P.  |  junho 26, 2010 às 4:02 pm

    Pelo jeito você está num “momento” Clarice Lispector, né? Há muito tempo não leio nada da autora, mas sem dúvida é um tipo de leitura altamente recomendável.

    Responder
    • 2. Kamila  |  junho 26, 2010 às 8:35 pm

      Vinícius, estou, sim. Lendo, de forma seguida, algumas obras dela. A Clarice é uma autora ímpar.

      Responder
  • 3. MadameLumière  |  junho 27, 2010 às 5:22 am

    Amo Clarice, mas não li este. A frase inicial é inspiradora e muito real… amo a verdade de Clarice.

    Responder
  • 4. bruno knott  |  junho 27, 2010 às 2:28 pm

    Apesar de gostar bastante da Clarice Lispecto, aindo não li esse.

    Obviamente, teu texto me interessou bastante!

    Abs.

    Responder
  • 5. Luis Galvão  |  junho 27, 2010 às 8:16 pm

    Não li o livro completo (apenas o conto ‘O Delírio’, que adorei). Clarisse tem mesmo um poder incrível sobre as palavras.

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    • 6. Kamila  |  junho 27, 2010 às 9:50 pm

      Madame Lumière, por causa de frases como essa que eu amo a Clarice.

      Bruno, leia,é um bom livro. Abraços!

      Luís, o poder dela é incrível mesmo!

      Responder
  • 7. Mayara Bastos  |  junho 27, 2010 às 10:44 pm

    Clarice é Amazing! rsrsrs. Mas ainda não li esse dela. Quero pegar as férias agora e tentar colocar a leitura dos livros em dia. E esse não vai ficar de fora. Belíssimo texto.

    Beijos! 😉

    Responder
    • 8. Kamila  |  junho 27, 2010 às 11:16 pm

      Mayara, obrigada! Beijos!

      Responder
  • 9. Cristiano Contreiras  |  junho 29, 2010 às 7:12 pm

    Sem sombra de dúvida, minha escritora favorita, sempre estou com um livro dela na mão ou mesmo na mochila…meus amigos e conhecidos até brincam comigo – em viagens diversas, até pra praia, eu já levei algum livro dela, rs…

    sem falar que tenho já tatuado em mim a frase do seu primeiro livro “perto do coração selvagem”, é algo definitivo em minha vida.

    Leia A Via Crucis do Corpo, é um ótimo livro de contos dela…

    Este também é muito bom, ótimo texto teu!

    beijo

    Responder
    • 10. Kamila  |  junho 29, 2010 às 10:58 pm

      Cristiano, ela é uma das minhas escritoras favoritas, junto de Virginia Woolf e Jane Austen. Olha que legal, a tatuagem!!! Você é fã mesmo! E estou com “A Via Crucis do Corpo” para ler. Obrigada! Beijo!

      Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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