Preciosa – Uma História de Esperança

junho 4, 2010 at 9:21 pm 35 comentários

Chama a atenção logo de cara o fato de que “Preciosa – Uma História de Esperança”, de Lee Daniels, apesar de ter um roteiro que fala sobre alguém cuja vida é recheada de acontecimentos muito difíceis, possui um viés um tanto otimista e esperançoso. Isso está diretamente relacionado ao fato de que a personagem principal deste longa, Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe, indicada ao Oscar 2010 de Melhor Atriz), é uma jovem que ainda não descobriu toda a força que tem – e é justamente esta a grande jornada dela nesta obra. 

Com 16 anos, Precious é alguém que passa totalmente despercebida no mundo, quando não deveria. Ela tem problemas que alguém da sua idade, pra começar, nem deveria vivenciar: violentada e humilhada constantemente pela mãe (Mo’Nique, vencedora do Oscar 2010 de Melhor Atriz Coadjuvante), abusada sexualmente pelo pai, mãe de duas crianças frutos dessa relação incestuosa, pobre, irritada e analfabeta. Precious não conhece o amor, a solidariedade, a auto-estima. Ela está totalmente sozinha, não tem alguém que acredite nela e a saída para ela é fugir de sua dura realidade ao sonhar com uma vida de conto de fadas, em que ela é rica, famosa, atraente, desejada e amada. 

“Preciosa – Uma História de Esperança” pega esta personagem num momento de virada na vida dela, quando ela toma consciência de que ela pode mudar a sua realidade, quando ela se cansa de tudo, quando ela decide compartilhar sua história com alguém, quando ela percebe que o futuro dela está nas mãos única e exclusivamente dela; quando ela, enfim, se dá conta de que “a mais longa jornada começa com um único passo” – frase mais que feliz que lhe é dita pela sua professora, a Sra. Rain (Paula Patton). 

Este é o tipo de filme que é muito traiçoeiro. Nas mãos de um diretor menos sensível, “Preciosa – Uma História de Esperança” poderia se transformar numa espécie de derivado de “O Som do Coração” – filme que transforma os dramas pessoais de seus personagens numa verdadeira novela mexicana. Felizmente, este não é o caso de Lee Daniels, um diretor de olhar artístico e que, sabiamente, ancora seu longa na força, na determinação e na certeza que Precious começa a ter daquilo que ela verdadeiramente quer. 

Aqui, entra um outro ponto importante, pois, diante das situações difíceis com as quais nos deparamos, de vez em quando, duas reações são esperadas: ou você desiste ou você enfrenta a vida e continua, persiste. “Preciosa – Uma História de Esperança” mostra estes dois caminhos através de duas fulminantes performances: as de Gabby Sidibe e de Mo’Nique. Em particularmente dois momentos de puro desespero, desabafo e suplício, estas duas mulheres irão lhe emocionar e fazer você perceber o quão pequeno são nossos problemas, o quanto reclamamos por besteiras. Experimente se colocar no lugar delas. O que você faria? 

Cotação: 9,7

Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: based on the novel Push by Sapphire, 2009)
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Geoffrey Fletcher (com base no livro de Sapphire)
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Sherri Shephard

Entry filed under: Filmes.

O Mensageiro Cena da Semana*

35 Comentários Add your own

  • 1. Cristiano Contreiras  |  junho 4, 2010 às 10:37 pm

    Drama extremamente pungente, ainda que bastante simples – é um filme emocional, atinge a nós como um soco…e proporciona reflexão.
    É realmente doloroso, real, nitido.

    Eu concordo, se fosse outro diretor, talvez o filme perdesse o foco total…mas, eu gosto do filme O Som do coração, rs.

    E ah, Sidibe merecia mais o Oscar que Bullock, rs.

    Ps: Adoro A Bela e a fera, vejo que está lendo.
    Gosto dos contos “História interrompida”, “A fuga” e “Obsessão”.

    Depois, quero um post dele aqui, tá?

    Beijo

    Responder
  • 2. Reinaldo Matheus Glioche  |  junho 4, 2010 às 10:46 pm

    Não poderia concordar mais com sua crítica Ka. Vc fez justiça ao filme. E faço coro ao cristiano. Das concorrentes, Sidibe era a mais merecedora. Talvez apenas Carey Mulligan estivesse em nível equivalente.
    bjs

    Responder
  • 3. Thyago  |  junho 4, 2010 às 11:06 pm

    DAMN, agora eu tenho que ir ver este filme

    Responder
    • 4. Kamila  |  junho 5, 2010 às 6:55 pm

      Cristiano, este filme me atingiu profundamente. Pensei na Precious por muitos dias. A Sidibe era mais uma atriz que estava melhor que a Bullock, paciência! E vai ter post sobre “A Bela e a Fera” aqui! 🙂 Beijo!

      Reinaldo, obrigada! A Sidibe estava excelente, mas eu continuo achando que o Oscar deveria ter sido da Streep! Beijos!

      Thyago, assista!

      Responder
  • 5. Vinícius P.  |  junho 5, 2010 às 12:08 am

    Sem dúvida um filme bem intencionado e que tem lá seus méritos, mas que não conseguiu me conquistar tanto assim. Destaque para o elenco, todas as atrizes estão ótimas.

    Responder
  • 6. Marcelo Cândido  |  junho 5, 2010 às 12:39 am

    Parece ser um filme forte
    !!!
    Abraço

    Responder
  • 7. Fabio  |  junho 5, 2010 às 3:27 am

    Só discordo sobre o Daniels, ele é burocrático em estilo e narrativa. A força do filme está na dupla de protagonistas. Sem elas, com outras atrizes em seu lugar, o filme seria burocrático e lugar-comum. São elas que conferem força ao filme. Nota 3 de 5
    Abraçi

    Responder
    • 8. Kamila  |  junho 5, 2010 às 6:56 pm

      Vinícius, concordo que o elenco é o grande destaque deste filme!

      Marcelo, fortíssimo! Abraço!

      Fabio, sem problemas. A força deste filme está mesmo em Precious e na mãe dela. E nas atrizes que as interpretaram, especialmente. Abraço!

      Responder
  • 9. Paulo Ricardo  |  junho 5, 2010 às 11:20 am

    Esse filme é o mais superestimado da temporada passada.Tudo no filme é pintando com tintas trágicas.Nada vai bem e tudo pode piorar.A vida da jovem Precious é uma tragédia sem fim e a direção de Lee Daniels é extremamente exagerada.Méritos para atuação de Monique(essa sim muito bem em cena)e a adaptação do roteiro(que ABSURDAMENTE ganhou o Oscar de Amor Sem Escalas).Eu já comentei isso contigo antes Kamila(aqui no blog mesmo),acho preciosa um filme manipulativo e tendencioso.Respeito sua critica,mas a obra de Lee Daniels é superestimada é o sucesso desse filme se deve a “Era Obama” em que todos americanos tem que acreditar em um futuro melhor.

    Responder
  • 10. Raspante  |  junho 5, 2010 às 11:29 am

    Eu gostei bastante do filme, e uma coisa é certa o longa estava nas mãos do diretor certo, pois na mãod e outro iria ser uma tremenda novela mexicana…isso é certeza!
    Abs.

    Responder
  • 11. marconi  |  junho 5, 2010 às 1:36 pm

    Eu achei a história de fato muito tocante mesmo.
    Daniels é um diretor talentoso. Tenho altas expectativas para seu próximo trabalho.
    http://cinespaco.blogspot.com/

    Responder
  • 12. bruno knott  |  junho 5, 2010 às 2:26 pm

    Achei que seria uma história de redenção clichê e o filme está muito longe disto.

    É excelente em quase todos os sentidos.

    Mas concordo com o Paulo Ricardo num aspecto. O roteiro de Amor sem Escalas (e Bastardos Inglórios) mereciam o premio muito mais.

    Abs!

    Responder
    • 13. Kamila  |  junho 5, 2010 às 6:58 pm

      Paulo Ricardo, eu respeito a sua opinião também, mas vou discordar totalmente dela. Não achei nada, neste filme, manipulativo e tendencioso.

      Raspante, com certeza! Abraços!

      Bruno, exatamente. É uma obra excelente. E, depois de ver o filme, entendi a vitória do roteiro no Oscar. Acho merecida. Abraços!

      Responder
    • 14. Pedro Paulo  |  janeiro 29, 2011 às 1:42 am

      A questão de “Bastardos…” você tem que discutir com Guerra Ao terror, em ORIGINAL, não ADAPTADO!

      Responder
  • 15. Jenson  |  junho 5, 2010 às 8:47 pm

    É de fato um dos mais interessantes e fortes filmes do ano, que vai ficar marcado, gosto muito do elenco que se sobresai … a direção de Lee Daniels também é muito segura! Um ótimo filme afinal!

    Responder
  • 16. Mayara Bastos  |  junho 5, 2010 às 9:50 pm

    Intenso e emocionante ao mesmo tempo. Mo’Nique com uma personagem que dá vontade de bater, rsrs. A Gabourey é um achado, espero vê-la envolvida em projetos futuros. E até Mariah Carey está ótima. Um filme que merece ser visto.

    Beijos! 😉

    Responder
    • 17. Kamila  |  junho 5, 2010 às 11:51 pm

      Jenson, eu também acho um ótimo filme!

      Mayara, exatamente. Concordo com tudo o que você escreveu! Beijos!

      Responder
  • 18. Amanda Aouad  |  junho 6, 2010 às 2:05 am

    Vejo que gostou mesmo, acho que foi um dos melhores textos seus que já li. A força de Preciosa é grande, pelo que representa. As atuações são o destaque em minha opinião, que dão toda essa carga dramática que você fala. Agora achei o roteiro simplista, podemos ser simples sem ser simplistas. E não entendo porque o ele não continuou com o recurso de sonhos da protagonista.

    Quanto ao Oscar, talvez a academia não tenha dado por ser o primeiro papel de Sidibe, não há como comparar para saber até que ponto ela está atuando ou sendo natural… Li isso em alguma crítica na época e achei que fazia sentido.
    bjs

    Responder
    • 19. Kamila  |  junho 6, 2010 às 3:04 am

      Amanda, obrigada!!! Também acho que as atuações são o grande destaque deste filme, até porque essa carga dramática, como você bem disse, é dada por elas. Esse recurso dos sonhos eu acho que ficava meio solto, mas cabia dentro do filme e foi bem utilizado pelo Lee Daniels. E eu acho que não saber se a pessoa está atuando ou sendo natural é bom. Isso é um tributo ao bom trabalho feito pela Gabby. Beijos!

      Responder
  • 20. Mandy  |  junho 6, 2010 às 3:33 am

    Achei o filme muito bom. As atuações estava muito emocionantes. Em alguns momentos eu me desestimulei um pouco, mas no geral gostei muito da obra!

    Responder
    • 21. Kamila  |  junho 6, 2010 às 4:36 am

      Mandy, discordo de você somente num ponto. Em momento algum, eu me desestimulei neste filme.

      Responder
  • 22. Wally  |  junho 6, 2010 às 6:07 am

    Também gostei muito deste filme, Kamila. Atuações intensas, diálogos fortes e uma direção inspirada. Uma ou outra passagem do roteiro que não me agradou, mas só. Muito bom.

    Nota 8,5

    Responder
    • 23. Kamila  |  junho 6, 2010 às 1:13 pm

      Wally, eu concordo contigo! Filme muito bom!

      Responder
  • 24. Madame Lumière  |  junho 7, 2010 às 3:06 am

    Oi Kamila,

    Gostei muito do tom enfático de valorizar o trabalho independente de Lee Daniels. Concordo totalmente que é um filme que poderia ser super sentimentalóide, uma novela trágica, mas ele a soube dirigir. Acho que, predicativos bons à parte, o maior deles é a força que podemos tirar a partir de tristes histórias. bjs!

    Responder
  • 25. Matheus  |  junho 7, 2010 às 3:57 am

    Não gostei tanto quanto você, mas o que mais me chamou a atenção em “Preciosa” foi justamente essa direção segura do Lee Daniels. Ele soube encenar tudo sem cair no clichê ou em um clima de novela mexicana. Esse aspecto, na minha opinião, é até mais relevante que o próprio roteiro. No entanto, o ponto alto de “Preciosa” é o elenco. Não só Sidibe e Mo’Nique, mas também Paula Patton, que me conquistou demais por ser o sopro de esperança e alívio na história sufocante da protagonista.

    Responder
    • 26. Kamila  |  junho 7, 2010 às 8:34 pm

      Madame Lumière, exatamente. E é impressionante perceber, neste sentido, o quanto nos descobrimos fortes diante das piores adversidades. Beijos!

      Matheus, concordo totalmente com seu comentário!

      Responder
  • 27. Renan Canuto  |  junho 8, 2010 às 3:32 am

    Perfeito, Kamila. Esse filme é tocante demais, chorei horrores, justamente pela sua indagação final e conclusiva: o que, verdadeiramente, entendemos como problemas? Reclamamos de barriga cheia em muitos casos. Tem gente que nunca conheceu ou mesmo encarou um problema de frente como Preciosa. Ótimo filme, só não gostei da filmagem, achei fraca. Beijos!

    Responder
  • 28. Rafael Carvalho  |  junho 8, 2010 às 12:44 pm

    Parece até um tanto forçado que a vida de alguém seja tão miserável, tão cheia de problemas que não param de aumentar, mas acho que a direção do Lee Daniels onfere dinamismo ao filme, fugindo da pieguice, embora seja impossível que o filme não tenha seus mmentos mai emotivos e chorosos. Os takes fantasiosos da Claireece mesmo baleceiam muito bem o filme. E claro que o grande destaque é a atuação da Mo’Nique, estonteante no filme.

    Responder
    • 29. Kamila  |  junho 8, 2010 às 10:29 pm

      Renan, concordo plenamente com seu comentário! E eu não achei a filmagem fraca. Beijos!

      Rafael, exatamente. Perfeito seu comentário sobre a direção do Lee Daniels. A Mo’Nique me impressionou nesta obra. A atuação dela está sensacional!

      Responder
  • 30. Nayara  |  julho 16, 2010 às 10:11 pm

    Esse filme é uma das minhas prioridades para assistir, adoro filmes como esse, pois mostra uma realidade e o roteiro e sempre bem feito.

    Responder
  • 31. Nayara  |  julho 16, 2010 às 10:15 pm

    Este é o tipo de filme que é muito traiçoeiro o que vc quis dizer com isso Kamila?

    Responder
    • 32. Kamila  |  julho 16, 2010 às 11:40 pm

      Nayara, ele poderia ser um filme totalmente manipulativo, mas não é. Isso aconteceu por causa do diretor. Se fosse outro, talvez o resultado fosse diferente. Foi isso que eu quis dizer.

      Responder
  • […] 9. Mo’Nique, “Preciosa – Uma História de Esperança” […]

    Responder
  • 34. Fernando Borges  |  dezembro 18, 2011 às 3:23 am

    Esse é um dos melhores filmes que já assisti na vida.
    Achei engraçado essa nota que você deu: 9.7
    Quais aspectos do filme representam esses 3% que te impediram de dar nota máxima? rs

    Responder
    • 35. Kamila  |  dezembro 18, 2011 às 10:28 pm

      Fernando, “Preciosa” é um filmaço! Eu desisto de explicar os meus critérios pras notas. É uma coisa tão subjetiva!! Hoje, eu daria 10 fechado ao filme. rsrsrsrrs

      Responder

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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