Lula – O Filho do Brasil

janeiro 14, 2010 at 10:28 pm 20 comentários

Ao assistir “Lula – O Filho do Brasil”, do diretor Fábio Barreto, logo me veio à mente a cinebiografia “W.”, do diretor Oliver Stone. Além dos dois filmes tratarem de Presidentes da República da história recente mundial – Luís Inácio Lula da Silva e George W. Bush – com algumas características pessoais similares, como o fato de os dois não serem afeiçoados à leitura e cultura, de serem adeptos da improvisação em seus discursos e, principalmente, pelas gafes que cometem; ambas as obras falam sobre personalidades públicas cujas histórias de vida ainda não terminaram, ou seja, a gente não sabe como será o desfecho da trajetória deles e nem se o ápice da vida deles foi atingido. 

Fazer um filme assim deve ser muito complicado, mas, assim como aconteceu com Oliver Stone, Fábio Barreto encontrou uma solução narrativa muito interessante para o seu filme. O roteiro de “Lula – O Filho do Brasil”, que foi escrito por Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler, mostra o caminho de Luís Inácio Lula da Silva desde o seu nascimento, na cidade de Caetés (Pernambuco), passando pela formação como torneio mecânico no SENAI, até culminar na sua entrada na vida sindical e na sua ascensão como liderança dos trabalhadores das metalúrgicas da área do ABC paulista. Foi essa atividade que transformou Lula na pessoa que ele é hoje, então nada mais justo que centralizar o filme nesta etapa de sua vida. 

Esta parte foi somente o primeiro dos acertos de Fábio Barreto. Os outros dizem respeito às escolhas referentes à determinados elementos importantes da linguagem cinematográfica. Em primeiro lugar, a belíssima trilha sonora composta pela dupla Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum, a qual pontua de forma muito correta as cenas do filme, ajudando a obra a não cair num ponto melodramático demais. Em segundo lugar, na escolha dos três atores que interpretam aqueles que, talvez, sejam os personagens mais importantes deste longa: Dona Lindu, o próprio Lula e Seu Aristides. Representando a origem de Luís Inácio, os seres que fizeram a formação dele como pessoa, temos Glória Pires (que é sempre muito competente e tem carisma suficiente para interpretar uma mulher forte e que criou seus filhos praticamente sozinha) e Milhem Cortaz (que aparece pouco no longa, mas deixa uma impressão positiva como o pai bêbado e que maltratava os filhos – é dele, para mim, a melhor cena do filme: a desolação de Aristides após levar um “sermão” do menino Lula depois de tentar bater na esposa). Já o estreante Rui Ricardo Diaz encarna com perfeição o personagem principal sem cair na tentação de imitá-lo – o que seria fácil – e cômodo – demais. 

Não existe muito que comentar sobre “Lula – O Filho do Brasil”. A realidade é que tem se falado sobre a possibilidade do longa ser uma obra eleitoreira e influenciar nos resultados das próximas eleições. Talvez, o filme tivesse esse efeito se Lula fosse candidato, mas não é esse o caso, ainda bem. Mesmo assim, Luís Inácio, a personalidade pública e política dele, será o grande beneficiado com essa obra. Tudo em “Lula – O Filho do Brasil” é grandiloquente, o lado bom dele é destacado por demais e as partes mais difíceis de sua biografia também. É um filme feito para reforçar a figura de Lula como mítica, quase como se ele fosse um novo Messias destinado a mudar o mundo. Isso é o que não é bom em “Lula – O Filho do Brasil”. Acho que Fábio Barreto teria feito uma contribuição maior se tivesse feito uma obra mais transgressora, um pouquinho mais questionadora, como Oliver Stone fez em “W.”. O diretor norte-americano não se absteve de comentar as rachaduras da vida de George W. Bush. Mas, tudo bem, eu entendo. É mais fácil atirar em quem já está debilitado, né? O mundo não é perfeito, infelizmente… 

Cotação: 6,0

Lula – O Filho do Brasil (2010)
Diretor: Fábio Barreto
Roteiro: Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler (com base no livro de Denise Paraná)
Elenco: Rui Ricardo Diaz, Glória Pires, Juliana Baroni, Cléo Pires, Lucélia Santos, Milhem Cortaz

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20 Comentários Add your own

  • 1. bruno soares  |  janeiro 14, 2010 às 10:52 pm

    acho que o tratamento messianico q vc apontou é justamente o panfletarismo do filme, kamila. o que me dá medo é que o irmão, bruno barreto, já anunciou q vai fazer a cinebiografia do collor. já já vai faltar político pra retratar. haha bjs!

    Responder
    • 2. Kamila  |  janeiro 14, 2010 às 10:55 pm

      Bruno, só espero que o Bruno não faça cinebiografia chapa branca do Collor. rsrsrsrrss Beijos!

      Responder
  • 3. Robson Saldanha  |  janeiro 14, 2010 às 11:43 pm

    Ate que sua nota foi alta… não verei no cine. Só em dvd, e emprestado! haha

    Responder
    • 4. Kamila  |  janeiro 14, 2010 às 11:49 pm

      Robson, poxa, Robson! O ingresso para ver este filme tá 3 reais… Nem é tão desperdício assim. rsrsrsrsrs

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  • 5. Madame Lumière  |  janeiro 15, 2010 às 1:17 am

    Interessante! Já imaginava que este filme manteria esta zona neutra reforçando o “Mito” Lula, afinal todo mundo precisa de um Messias em época de eleição. abs!

    Responder
    • 6. Kamila  |  janeiro 15, 2010 às 1:41 am

      Madame Lumière, claro! Porém, ainda bem que este Messias não está nessa eleição! Abraços!

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  • 7. Wally  |  janeiro 15, 2010 às 3:31 am

    Também não acho que seja um filme panfletário. Acho que é o inverso, usando da popularidade de Lula para angariar um maior sucesso. Mas ainda não vi o filme. Tenho medo dele porque parece ignorar fases da vida dele em prol do melodrama e do endeusamento. E isso me irrita muito. Verei em DVD, apenas, para poder julgar apropriadamente.

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  • 8. Reinaldo Matheus Glioche  |  janeiro 15, 2010 às 1:25 pm

    Ainda não vi o filme. Mas sua critica é equilibrada e inteligente como poucas que li a respeito da obra. Parabéns pela isenção e pela afinada percepção.
    Bjs

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  • 9. Brenno Bezerra  |  janeiro 15, 2010 às 2:43 pm

    Vou esperar eu criar uma simpatia pelo personagem título para ser radical demais com o filme.

    Melhoras para Fábio Barreto.

    Beijos

    Responder
    • 10. Brenno Bezerra  |  janeiro 15, 2010 às 2:45 pm

      Para NÃO ser radical demais com o filme.

      Responder
    • 11. Kamila  |  janeiro 16, 2010 às 12:44 am

      Wally, eu não achei o filme melodramático, agora endeusar Lula isso faz!

      Reinaldo, obrigada. Beijos!

      Brenno, eu nem tenho simpatia pelo Lula, mas vi esse filme tentando ser isenta. Beijos!

      Responder
  • 12. Vinícius P.  |  janeiro 15, 2010 às 3:49 pm

    É raro ver qualquer tipo de elogio a esse filme, portanto não tenho maior curiosidade de vê-lo – um dia quando passar na TV, quem sabe…

    Responder
  • 13. Cleber Eldridge  |  janeiro 15, 2010 às 8:37 pm

    Não me dispertou nenhum interesse em cima do filme!

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  • 14. Luis Galvão  |  janeiro 15, 2010 às 10:13 pm

    É como você disse, a história de Lula e de Lindu são ótimas e renderiam um ótimo filme, SE Fábio ousasse. Ele mostra o óbvio de qualquer nordestino retirante e a história do presidente é como se fossem ‘capítulos’ soltos, faltou alguém que amarrasse tudo com força para extrapolar um pouco mais. Enfim, para mim é uma pena vê uma base tão boa ser rejeitada para não ‘manchar’ a imagem do ser mítico que Lula se tornou.

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    • 15. Kamila  |  janeiro 16, 2010 às 12:49 am

      Vinícius, exatamente.

      Cleber, ok!

      Luís, ISSO!

      Responder
  • 16. Alyson  |  janeiro 15, 2010 às 11:14 pm

    Concordo plenamente quando você estabelece a políticoa do filme com a política do próprio Lula e a comparação com o filme do Oliver Stones, também é válida quando se fala de “transgredir” a história.

    Beijos.

    Responder
  • 17. Kamila  |  janeiro 16, 2010 às 12:50 am

    Alyson, obrigada! Beijos!

    Responder
  • 18. Mayara Bastos  |  janeiro 17, 2010 às 2:13 pm

    Fiquei animada em ver o filme, agora depois de seu ponto de vista e relacionar com o filme sobre o Bush. Pelo menos, tomara que não seja uma campanha de marketing para as eleições, o que alguns estão achando deste filme.

    Beijos! 😉

    Responder
  • 19. Vulgo Dudu  |  janeiro 17, 2010 às 3:29 pm

    Como eu já havia escrito, eu acho o filme mal montado. Há técnica, mas ela não resolve os problemas de roteiro. Quanto a ser eleitoreiro, eu só fico me perguntando uma coisa: por que não lançar o filme depois das eleições, uma vez que a história não é atemporal? Evitaria toda a polêmica em torno do assunto…

    Bjs!

    Responder
    • 20. Kamila  |  janeiro 17, 2010 às 4:50 pm

      Mayara, não é campanha de marketing para as eleições, como eu disse, até porque Lula nem é candidato. Beijos!

      Dudu, eu acho que o filme deveria ter sido lançado depois das eleições… E ele está sendo um fracasso de público, o que é surpreendente, mesmo com os ingressos mais baratos. Beijos!

      Responder

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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