Lendo – Maysa: Só Numa Multidão de Amores

janeiro 14, 2010 at 3:08 am 10 comentários

“Maysa é um símbolo de ressurreição. Fortemente deprimida quando deixou de cantar, não se esperava que tivesse força suficiente para refazer sua vida. E eis que surge uma mulher mais do que bonita, e mais forte do que antes. Reconstruir-se torna-se a mais importante palavra entre todas. Quem já se ergueu várias vezes das cinzas sabe como é, ao mesmo tempo, difícil e impossível a própria reconstrução”. (p. 253)

As palavras citadas no início deste post foram escritas pela autora Clarice Lispector, em 1969, sobre a cantora e compositora Maysa Figueira Monjardim, cuja história por muito tempo se manteve desconhecida até que, em 2009, seu filho, o diretor Jayme Monjardim, fez a minissérie “Maysa – Quando Fala o Coração”, que foi ao ar pela Rede Globo. A citação é feita pelo escritor e jornalista Lira Neto e faz parte de um extenso trabalho de pesquisa feito por ele para a feitura da biografia “Maysa – Só Numa Multidão de Amores”. 

O trecho enfoca aquela que seria, talvez, a maior característica de Maysa em vida: a capacidade que ela teve de se reerguer sempre que as pessoas achavam que ela estava acabada. E isso não aconteceu poucas vezes nos seus 40 anos de vida – ela faleceu no dia 22 de janeiro de 1977, em decorrência de um acidente automobilístico ocorrido na Ponte Rio-Niterói. Dona de uma personalidade polêmica, Maysa só dizia o que pensa, só fazia o que gostava e aquilo que ela acreditava. Tal personalidade lhe gerou uma reputação para lá de mal falada na imprensa e a verdade é que Maysa pagou o preço das decisões que foram tomadas por ela mesma e teve uma vida que foi um produto de uma eterna busca pelo amor, pelo arrebatamento que este sentimento nos causa. 

Ao contrário da minissérie, que chegou a ser até muito “chapa-branca” (a impressão era a de que Jayme Monjardim meio que tentou limpar o nome da sua mãe, retratando uma mulher que, mesmo irresponsável e doente – porque o alcoolismo dela era uma doença, uma dependência química; e ela ainda vivia depressões profundas – foi uma boa filha, uma mulher de um único amor e uma mãe que sempre buscou o melhor para seu único filho), a biografia escrita por Lira Neto se abstém de falar muito sobre a vida pessoal dela (ficamos sabendo somente o necessário), mas joga um olhar profundo sobre a carreira de Maysa, sobre o caráter inovador das decisões profissionais dela e sobre a importância dela para a música brasileira – mesmo ela sendo a rainha da fossa e tendo cantado músicas que muitos consideram ser totalmente cafonas. 

A minissérie escrita por Manoel Carlos e dirigida por Jayme Monjardim já tinha dado grandes provas da mulher singular (para o bem ou para o mal) que Maysa foi. O livro redigido por Lira Neto só faz aprofundar e confirmar esta sensação. As histórias que ele compartilha conosco são sensacionais e muito ricas. Como leitores, nos sentimos próximos de Maysa, do fato de ela ter sido um ser humano falível (com erros e acertos, qualidades e defeitos, inseguranças e arrogâncias). Ela nos aparece como uma pessoa real, de carne e osso, cujo equívoco maior, talvez, tenha sido viver tudo em excesso. Maysa se jogava 100% em todos os projetos que encarou e seu maior testamento, talvez, tenha sido a música escrita por Tom Jobim e Aloysio de Oliveira: “Todos acham que eu falo demais / E que ando bebendo demais / Que essa vida agitada / Não serve pra nada / Andar por aí / Bar em bar, bar em bar / Dizem até que ando rindo demais / E que eu conto anedotas demais / Que eu não largo o cigarro / E dirijo o meu carro / Correndo, chegando no mesmo lugar / Ninguém sabe é que isso acontece porque / Vou passar toda a vida esquecendo você / E a razão porque vivo esses dias banais / É porque ando triste, ando triste demais / E é por isso que eu falo demais / É por isso que eu bebo demais / E a razão porque vivo essa vida / Agitada demais / É porque meu amor por você é imenso demais”. Nada mais Maysa do que isso.

Maysa – Só Numa Multidão de Amores (2007)
Autor: Lira Neto
Editora: Globo

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10 Comentários Add your own

  • 1. bruno knott  |  janeiro 14, 2010 às 5:46 am

    não me interessei muito pela minissérie, mas o livro é outra coisa.
    não sou muito fã de biografias, mas essa pelo jeito merece ser lida!

    Responder
  • 2. Reinaldo Matheus Glioche  |  janeiro 14, 2010 às 11:51 am

    Minisséries de figuras históricas tendem a ser chapa branca ,né? Enquanto que os livros são mais investigativos. Não li o livro, mas concordo que Maysa seja uma figura que mereça ser descoberta em sua plenitude.
    Bjs Ka

    Responder
  • 3. Luis Galvão  |  janeiro 14, 2010 às 1:24 pm

    Vou dizer a verdade que eu só conheci Maysa depois da minissérie (que eu achei super bem feita), mas desde lá notei que tentavam ‘amenizar’ a vida de um mulher cheia de histórias. Fiquei até com vontades de lê, agora.

    Responder
    • 4. Kamila  |  janeiro 14, 2010 às 10:37 pm

      Bruno K., eu adoro livros, especialmente biografias e recomendo essa leitura.

      Reinaldo, exatamente. Totalmente “chapa branca”. E eu aprendi a adorar a Maysa. Beijos!

      Luís, eu também só conheci a Maysa depois da minissérie! E leia o livro!

      Responder
  • 5. Vinícius P.  |  janeiro 14, 2010 às 1:30 pm

    Infelizmente não consegui acompanhar a minissérie, mas parecia ser uma mulher singular mesmo. Fiquei interessado no livro.

    Responder
  • 6. Lira Neto  |  janeiro 14, 2010 às 3:11 pm

    Kamila.

    Muitíssimo obrigado pelas palavras generosas e gentis que dedicou a meu livro.

    Incluí seu blog nos meus favoritos.

    Um grande abraço do

    Lira Neto

    Responder
  • 7. Raphael Camacho  |  janeiro 14, 2010 às 9:06 pm

    Kamila! Adoro muito teu blog!
    Dia 17 de janeiro as 22 hrs tem um super chat no site onde eu sou colaborador e gostaria muito de sua presença e de seus usuários!
    cinedica.com.br
    Qq coisa me manda um email: raphaelcamacho@gmail.com
    Grande abraço, Raphael

    Responder
    • 8. Kamila  |  janeiro 14, 2010 às 10:38 pm

      Vinícius, leia o livro, se puder. MUITO BOM!

      Lira Neto, puxa, que honra (e que vergonha ao mesmo tempo! rsrs) de você ter lido meu texto e de ter tido a gentileza de deixar um comentário. Abraço! Parabéns pela linda obra que fizeste!

      Raphael, obrigada! Eu estou sabendo já do bate papo! 🙂 Abraço!

      Responder
  • 9. Weiner  |  janeiro 14, 2010 às 10:01 pm

    Quando assisti à minissérie em janeiro passado, fiquei profundamente interessado em conhecer o lado mais obscuro da carreira de Maysa – que disseram ser abordado neste livro. Realmente o Mojardim parece ter suavizado os acontecimentos mais ruins da vida de sua mãe, e eles me chamaram muito a atenção, porque sabemos que eles existem. Vou ler o livro com toda a certeza.
    Beijos!

    Responder
    • 10. Kamila  |  janeiro 14, 2010 às 10:39 pm

      Weiner, eu também fiquei interessadíssima em Maysa depois da minissérie, por isso li o livro. Beijos!

      Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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