A Onda

novembro 8, 2009 at 12:25 am 18 comentários

No início de “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, filme dirigido por Oliver Hirschbiegel, a Srta. Junge, que trabalhou como secretária particular do ditador alemão, discorre sobre o choque dela diante do fato da Alemanha ter caído nas garras da ditadura nazista. Ela não conseguia compreender porque isto aconteceu, afinal, os alemães são um povo inteligente e não seriam, em decorrência disso, facilmente dominados intelectualmente – ainda mais por ideias tão transgressoras como as defendidas por Hitler. 

Nos primeiros trinta minutos de “A Onda”, filme dirigido por Dennis Gansel (também co-autor do roteiro ao lado de Peter Thorwarth), também encontramos um questionamento relacionado a esta responsabilidade histórica carregada pelos alemães. Ao se defrontar com uma discussão realizada pelos seus alunos, o professor Rainer Wenger (Jurgen Vogel) olha para eles e pergunta: a Alemanha atual poderia ser subjugada novamente por um regime ditatorial? 

É a partir desta pergunta que a trama de “A Onda” se desenvolve. Acontece que Rainer, um professor que foge do esteréotipo padrão (ele é roqueiro e se veste de forma alternativa) e fala a mesma linguagem que seus alunos, está oferecendo uma oficina sobre o tema Autocracia (termo que significa governo por si próprio e pode ser aplicado a regimes ditatoriais, tiranos, déspotas, autoritários e totalitários) e, como uma experiência prática para que os alunos entendam como a teoria funciona, ele propõe a criação de um grupo o qual dá nome a este filme.

O que o longa efetivamente nos mostra é a criação fugindo do controle do criador. Ao vivenciarem a experiência da Onda, os jovens estudantes do professor Rainer vão além, criam suas próprias regras, expandem seus domínios e passam a se comportar de uma forma que seria irreconhecível para eles mesmos. O interessante aqui é que o diretor Dennis Gansel nos retrata uma atmosfera política perfeita, pois temos o lado dominante e encontramos também um lado de oposição a esse grupo, o qual é formado pelos estudantes que lutam sozinhos para trazer a sanidade de volta à mente de seus colegas de escola. 

Baseado em uma história real que aconteceu na Califórnia, em 1967, “A Onda” é um filme surpreendente sobre o poder das ideias, sobre o poder da influência, sobre a força das ações e das palavras, sobre ter a lucidez de reconhecer quando as coisas estão indo pro lado errado, sobre ter a capacidade de admitir erros e de tentar consertar as coisas. Mas, especialmente é um belo estudo sobre como existem certas situações com as quais não se deve brincar e o professor Rainer Wenger aprende isso da pior forma possível – ainda mais porque ele deixou a vaidade de ver várias pessoas fazendo tudo o que ele mandava subir à sua cabeça. Quando ele quis retomar as rédeas dos fatos, era tarde demais. O estrago já estava feito! 

Cotação: 10,0

A Onda (Die Welle, 2008)
Diretor: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth (com base no livro de Todd Strasser)
Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Cristina do Rego, Elyas M’Barek, Maximilian Vollmar

Entry filed under: Cinema.

Desejo e Perigo Cena da Semana

18 Comentários Add your own

  • 1. Reinaldo Matheus Glioche  |  novembro 8, 2009 às 1:08 am

    Oi Kamila, tudo bem?

    Então, ainda não vi A onda. Estou bem ansioso para ver o filme, mas acho que só o verei na tv por assinatura. De qualquer jeito, espero que ele seja tão bom quanto a sua avaliação.

    Bjs

    PS: Além da bela critica, vc contextualizou a obra a seu tempo maravilhosamente bem.

    Responder
  • 2. Reinaldo Matheus Glioche  |  novembro 8, 2009 às 1:09 am

    Ah, fui o primeiro a postar comentário dessa vez. Por puro egoísmo, vou ser o segundo tb(rsrs).
    Bjs

    Responder
    • 3. Kamila  |  novembro 8, 2009 às 1:11 am

      Reinaldo, tudo bem, obrigada. E com você? Obrigada pelo comentário sobre o texto!! 🙂 Beijos!

      Responder
  • 4. victor nassar  |  novembro 8, 2009 às 1:37 am

    Assisti ainda a pouco o filme Kamila.
    Realmente me impressionou o quanto é capaz de nos questionar até que ponto nossas atitudes “afirmativas” e “comuns” (no sentido de comunidade) podem nos cegar. O quanto agimos por um grupo ou por uma ideia ao ponto de nos fazer excluir todo o resto.
    Achei bem foda!

    Responder
    • 5. Kamila  |  novembro 8, 2009 às 2:02 am

      Victor, exatamente! Faço minhas as suas palavras!

      Responder
  • 6. Carol  |  novembro 8, 2009 às 3:28 am

    Quando assisti o trailer imaginei que teria esse impacto mesmo. Aguardando chegar na locadora para conferir. Assim que assistir comento mais!! =)
    Beijo!

    Responder
  • 7. Mayara Bastos  |  novembro 8, 2009 às 3:35 am

    UAU! Se já estava interessada com a premissa do filme agora depois deste texto bem escrito… Estou bem curiosa agora… rsrs.

    Beijos! 😉

    Responder
    • 8. Kamila  |  novembro 8, 2009 às 11:51 am

      Carol, assista mesmo, porque este é um filme interessantíssimo! Beijo!

      Mayara, espero que tenha a chance de conferir esse filme e que goste dele! Beijos!

      Responder
  • 9. Pedro Tavares  |  novembro 8, 2009 às 1:03 pm

    Esse filme é um grande tapa na cara. Nota máxima com mérito!

    Responder
  • 10. Rogerio  |  novembro 8, 2009 às 10:07 pm

    Ainda nao vi A Onda, mas pelo texto seu e do Ramon, de fato trata-se de um grande filme.

    Mas quero mesmo ver tua critica do filme ali do lado, “The Visitor” – se fores fazer, claro. Eu adorei o filme, foi um dos melhores do Oscar desse ano.Achei as intepretacoes de uma sutileza que encantou, uma simplicidade que eu adoro nos filmes.A imigraçao tratada de maneira muito correta.

    Bjus.

    Responder
  • 11. Bruno Soares  |  novembro 8, 2009 às 10:16 pm

    Hmm.. mais gente se derretendo por esse aí.

    Ah, me surgiu uma dúvida: vc viu DESEJO E PERIGO no cinema ou em casa?

    Responder
    • 12. Kamila  |  novembro 8, 2009 às 10:39 pm

      Pedro Tavares, concordo!

      Rogerio, é um grande filme mesmo! “O Visitante” é bem sutil mesmo, adorei o Richard Jenkins! Beijos!

      Bruno Soares, vi o filme do Ang Lee no cinema!

      Responder
  • 13. Bárbara  |  novembro 9, 2009 às 12:26 am

    Eu já vi o filme e achei incrível . Parabéns pelo post ! Com certeza esse filme é nota 10.

    Responder
    • 14. Kamila  |  novembro 9, 2009 às 1:54 am

      Bárbara, obrigada!

      Responder
  • 15. André C.  |  novembro 11, 2009 às 4:46 pm

    Kamila,
    um dos melhores filmes que vi no ano. Como disse no meu blog Die Welle nao é um filme comum, longe disso, Die Welle é um filme para ver, pensar, discutir e admirar!

    Excelente, seu 10 demonstra a qualidade do filme!

    Até,
    André

    Responder
    • 16. Kamila  |  novembro 11, 2009 às 9:27 pm

      André, concordo plenamente contigo. Até!

      Responder
  • 17. Wally  |  novembro 12, 2009 às 5:39 am

    Wow… estou oficialmente fisgado!

    Responder
    • 18. Kamila  |  novembro 12, 2009 às 10:34 pm

      Wally, que bom! Espero que gostes do filme!

      Responder

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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