jump to navigation

Dúvida Julho 16, 2009

Posted by Kamila in DVD.
29 comments

Baseado em uma peça vencedora do Prêmio Pulitzer, “Dúvida”, do diretor e roteirista John Patrick Shanley, se apoia em uma narrativa que lembra muito questões tocadas em obras como “Reparação”, de Ian McEwan, e “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, no sentido de que todas elas falam sobre como a suspeita e a desconfiança podem deixar um ser humano tão cego a ponto de ele (ou ela) não conseguir enxergar de forma apropriada a realidade que se apresenta diante de si – ou seja, a pessoa em questão visualiza o mundo e as situações do jeito que ela quer ou acredita ser possível. 

O filme se passa na escola St. Nicholas, um colégio católico no qual duas figuras polarizam todas as atenções. De um lado, temos a irmã Aloysius (Meryl Streep), que dirige com mão de ferro a instituição e é do tipo que impõe medo, ao invés de conquistar o respeito de todos que a rodeiam. Do outro, temos o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), uma figura carismática, vibrante e que, aos poucos, tenta quebrar toda a rigidez do ambiente escolar de St. Nicholas. 

Está claro, desde o início, que a irmã Aloysius tem problemas com o Padre Flynn e vice-versa. Parece que ela só está esperando um deslize dele para confirmar para todos tudo aquilo que ela acha dele. É aí que entra aquela que, provavelmente, é a personagem mais importante de “Dúvida”: a irmã James (Amy Adams), jovem freira que está iniciando o seu caminho em St. Nicholas e quer conquistar a confiança e o carinho de todos – especialmente o da irmã Aloysius, que é a pessoa que vai decidir seu destino naquele local. É ela quem oferece à diretora de St. Nicholas o subsídio que ela estava esperando. É ela quem nota algo de estranho na relação que se estabelece entre o padre Flynn e um dos alunos da escola. É ela quem colhe a suspeita que foi plantada pela Irmã Aloysius. É ela quem dá início a um jogo em que a certeza moral vai de encontro à convicção pessoal.

Indicado a 5 Oscars 2009, “Dúvida” é um filme que é caracterizado por um casamento perfeito entre atores e roteiro (não foi a toa que estes foram os elementos reconhecidos pela Academia). O longa propõe uma discussão excelente e convida o espectador a tentar desvendar – com o pouco de detalhes que sabemos – quem tem razão nesta história toda (se é que alguém tem). O interessante, porém, do argumento levantado por John Patrick Shanley é que, assim como Ian McEwan, e, ao contrário de Machado de Assis, ele tem plena consciência de que não existe um lado vencedor. A culpa sempre irá existir. A grande pergunta é: quem sabe conviver com ela? Aí, sim, teremos alguém levando vantagem – se é que isso é possível.

Cotação: 9,3

Dúvida (Doubt, 2008)
Diretor: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley (baseado em peça de sua autoria)
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Joseph Foster 

O Casamento de Rachel Junho 26, 2009

Posted by Kamila in DVD.
48 comments

Tadinha de Rachel (Rosemarie DeWitt). Todos estão na casa da família dela para o seu casamento com Sidney (Tunde Adebimpe). O ambiente está movido a base de muita música, amor e emoção. Entretanto, ela não está no centro das atenções. Todos os olhares estão voltados para a irmã mais nova dela, Kym (Anne Hathaway, indicada ao Oscar 2009 de Melhor Atriz), que volta pela primeira vez ao lar depois de um bom tempo em mais uma de suas tentativas de reabilitação do vício em drogas. 

Esta é a maneira mais fácil de tentar resumir a trama do filme “O Casamento de Rachel”, do diretor Jonathan Demme. Porém, por trás da aparente reunião familiar para uma ocasião que, na maior parte das vezes, representa a celebração do início de uma nova etapa, se encontra um roteiro (escrito por Jenny Lumet, filha do diretor Sidney Lumet) que fala sobre a vontade de reparar os erros do passado, de enfrentar uma situação difícil de forma a encontrar a força necessária para seguir em frente. 

Neste sentido, há que se aplaudir o roteiro de “O Casamento de Rachel”, que não se satisfaz somente em lançar um olhar sob a vulnerável Kym, que tem que enfrentar olhares curiosos de seres que sabem da sua história, que tem que lidar com o monitoramento do preocupado pai (Bill Irwin), o medo de enfrentar a mãe (Debra Winger) ou o receio de desapontar a irmã. O longa também mostra com destaque a visão de uma família despedaçada pela tragédia e pelo vício, de pessoas calejadas pelas incertezas, desconfianças e recaídas do caminho e de personagens que esconderam suas mágoas por muito tempo. 

Incrível como tudo isso fica em segundo plano no decorrer do dia do casamento de Rachel e das belas festividades que fizeram parte da ocasião. Neste instante, todos ficam em comunhão, em um só espírito. Tudo o mais parece pequeno. Tais sensações nos são passadas com competência por um elenco em total harmonia com o seu diretor, o qual soube arrumar a estratégia correta de colocar a história de Jenny Lumet em tela. As imagens em tom documental combinam com esse senso de vida que “O Casamento de Rachel” nos passa. 

Cotação: 8,0 

O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008)
Diretor: Jonathan Demme
Roteiro: Jenny Lumet
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Anna Deavere Smith, Debra Winger

Um Crime Americano Março 2, 2009

Posted by Kamila in DVD.
25 comments

Filmes como “Um Crime Americano”, do diretor Tommy O’Haver, têm que lidar o tempo todo com uma grande tentação: a de tentar humanizar pessoas que possuem um caráter horrível – de forma a tentar justificar (se é que isso é possível) o caminho que as levaram a cometer crimes terríveis, chocantes e que causaram grande comoção na época em que aconteceram.

 

Tommy O’Haver flerta muito com esta possibilidade ao contar a história de Gertrude Baniszewski (Catherine Keener), uma mãe solteira, que vivia com suas sete crianças, em tempos difíceis, em meio a constantes dificuldades financeiras. Dona de uma personalidade naturalmente instável, está claro, desde o início, que Gertrude tem sérios problemas psicológicos.

 

Entretanto, tal conjuntura não é (e nem deve servir como) justificativa para todos os abusos físicos e psicológicos que ela comete com Sylvia Likens (Ellen Page), que, ao lado da irmã Jennie (Hayley McFarland), vai morar na casa de Gertrude enquanto seus pais seguem o circo no qual trabalham. Portanto, passada esta fase frustrada de tentativa de humanização, “Um Crime Americano” choca. É de se ficar estupefata com todos os maus-tratos sofridos por Sylvia. É de se ficar revoltada com a conivência e a cumplicidade de jovens e crianças que sabiam do que estava acontecendo na casa dos Baniszewski. É de se ficar com muita raiva da falta de atitude de terceiros. É de se ficar clamando por justiça pelo que ocorreu com Sylvia Likens.

 

Baseado em uma história real, “Um Crime Americano” deveria ter sido lançado nas salas de cinema, mas acabou encontrando seu nicho na televisão – meio aonde convenhamos, tal história se adequa melhor. O grande ponto positivo do trabalho de Tommy O’Haver é o contraste que se vê entre as excelentes performances de Ellen Page e de Catherine Keener (a qual foi indicada ao Emmy e ao Globo de Ouro pela atuação no longa). Enquanto esta tem uma insanidade que assusta de tão natural que é, aquela é o poço de serenidade e de divindade – mesmo com tudo que sua personagem está passando.

 

Cotação: 8,0

 

Um Crime Americano (An American Crime, 2007)

Diretor: Tommy O’Haver

Roteiro: Tommy O’Haver e Irene Turner

Elenco: Ellen Page, Catherine Keener, Bradley Whitford, Jeremy Sumpter, James Franco

Uma Mãe Para o Meu Bebê Novembro 11, 2008

Posted by Kamila in DVD.
23 comments

O filme “Uma Mãe Para o Meu Bebê”, que foi escrito e dirigido por Michael McCullers, fala sobre um conflito que é familiar a muitas mulheres modernas, que preferem se dedicar à vida profissional e deixam, para o futuro, planos de casamento e de maternidade. Kate Holbrook (Tina Fey, que vive, atualmente, a melhor fase de sua carreira) é um exemplo típico deste grupo. Aos 37 anos, ela é uma bem-sucedida mulher de negócios, que colocou em modo de espera a vida amorosa e chegou a um ponto em que o desejo de ser mãe se tornou maior do que tudo.

 

Ao descobrir que é infértil, Kate decide – através da empresa de Chaffee Bicknell (Sigourney Weaver) – contratar a jovem Angie Ostrowiski (Amy Poehler, do programa “Saturday Night Live”) para ser a sua “barriga de aluguel”. No entanto, o que Kate não esperava, ao assinar o acordo com Angie, é que a perdida portadora de seu óvulo fecundado se mudasse de mala e cuia para o seu apartamento. É justamente aqui que Michael McCullers diferencia seu filme de outras comédias, pois ele utiliza a situação atípica vivida por Kate e Angie (é importante dizer que as intenções das duas são totalmente verdadeiras, em tudo aquilo que elas irão fazer no longa) para discutir o verdadeiro sentido da família e da enorme responsabilidade que é a decisão de se colocar uma criança no mundo.

 

Acompanhar a jornada mostrada por “Uma Mãe Para o Meu Bebê” poderia ter sido uma experiência completamente diferente se Michael McCullers tivesse escalado outras atrizes para os papéis de Kate Holbrook e Angie Ostrowiski. Tina Fey e Amy Poehler são melhores amigas na vida real e transportam toda esta química genuína que possuem para o projeto. Além disso, o interessante é que você consegue enxergar cada uma delas na pele das personagens principais do filme – afinal, Tina interpreta uma versão mais bem-humorada de Kate em “30 Rock” e Amy já fez vários tipos como Angie em muitas das esquetes do “Saturday Night Live”.

 

Talvez, o melhor elogio que possa ser dado para “Uma Mãe Para o Meu Bebê” é que o filme nos dá a impressão de que poderia ter sido escrito e dirigido por Judd Apatow – afinal, fala sobre pessoas que passam por algum tipo de processo de amadurecimento ou de realização pessoal através de uma trama bem-humorada, com algumas (bem inseridas, diga-se de passagem) piadas escrachadas e que te deixa, ao final, com aquela sensação de que as situações mais importantes de nossa vida não devem ser encaradas com muita seriedade. Elas podem ser fonte de riso, ao mesmo tempo em que nos provocam lágrimas.

 

Cotação: 7,5

 

Uma Mãe Para o Meu Bebê (Baby Mama, 2008 )

Diretor: Michael McCullers

Roteiro: Michael McCullers

Elenco: Amy Poehler, Tina Fey, Greg Kinnear, Dax Shepard, Romany Malco, Sigourney Weaver, Steve Martin, Maura Tierney, Holland Taylor

XXY Novembro 7, 2008

Posted by Kamila in DVD.
20 comments

XXY é a combinação genética que causa o hermafroditismo. E é também o nome do filme escrito e dirigido por Lucía Puenzo. A obra foi escolhida para representar a Argentina na disputa por uma vaga na categoria do Oscar 2008 de Melhor Filme Estrangeiro – e acabou nem sendo selecionada entre as nove finalistas que brigariam efetivamente pela indicação.

 

O filme se passa durante os dias em que Kraken (Ricardo Darín) e Suli (Valeria Bertuccelli) recebem a visita de um outro casal e seu filho Alvaro (Martín Piroyansky), de 16 anos. Ao que tudo indica, os visitantes estão ali para conversar com os anfitriões de que é necessário e ainda dá tempo para que sua filha adolescente, Alex (Inés Efron), de 15 anos e portadora de hermafroditismo, faça uma cirurgia de mudança de sexo.

 

“XXY” poderia abordar tal tema de várias maneiras. A diretora e roteirista Lucía Puenzo nos mostra que Alex é uma jovem sem identidade alguma e que não sabe se é homem ou mulher, heterossexual ou homossexual. O filme tem até uma visão muito covarde disto tudo, já que retrata pessoas que se escondem, pois possuem medo de enfrentar seus problemas e de se assumirem da forma que realmente são. Por isso, o grande pecado desta obra é fazer com que o espectador acompanhe isto tudo de uma distância segura e desconfortável, sem se envolver muito com tudo o que está acontecendo.

 

Cotação: 5,0

 

XXY (XXY, 2007)

Diretor: Lucía Puenzo

Roteiro: Lucía Puenzo (com base no conto de Sergio Bizzio)

Elenco: Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli, Germán Palacios, Carolina Pelleritti, Martín Piroyansky, Inés Efron