A Onda Novembro 8, 2009
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No início de “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, filme dirigido por Oliver Hirschbiegel, a Srta. Junge, que trabalhou como secretária particular do ditador alemão, discorre sobre o choque dela diante do fato da Alemanha ter caído nas garras da ditadura nazista. Ela não conseguia compreender porque isto aconteceu, afinal, os alemães são um povo inteligente e não seriam, em decorrência disso, facilmente dominados intelectualmente – ainda mais por ideias tão transgressoras como as defendidas por Hitler.
Nos primeiros trinta minutos de “A Onda”, filme dirigido por Dennis Gansel (também co-autor do roteiro ao lado de Peter Thorwarth), também encontramos um questionamento relacionado a esta responsabilidade histórica carregada pelos alemães. Ao se defrontar com uma discussão realizada pelos seus alunos, o professor Rainer Wenger (Jurgen Vogel) olha para eles e pergunta: a Alemanha atual poderia ser subjugada novamente por um regime ditatorial?
É a partir desta pergunta que a trama de “A Onda” se desenvolve. Acontece que Rainer, um professor que foge do esteréotipo padrão (ele é roqueiro e se veste de forma alternativa) e fala a mesma linguagem que seus alunos, está oferecendo uma oficina sobre o tema Autocracia (termo que significa governo por si próprio e pode ser aplicado a regimes ditatoriais, tiranos, déspotas, autoritários e totalitários) e, como uma experiência prática para que os alunos entendam como a teoria funciona, ele propõe a criação de um grupo o qual dá nome a este filme.
O que o longa efetivamente nos mostra é a criação fugindo do controle do criador. Ao vivenciarem a experiência da Onda, os jovens estudantes do professor Rainer vão além, criam suas próprias regras, expandem seus domínios e passam a se comportar de uma forma que seria irreconhecível para eles mesmos. O interessante aqui é que o diretor Dennis Gansel nos retrata uma atmosfera política perfeita, pois temos o lado dominante e encontramos também um lado de oposição a esse grupo, o qual é formado pelos estudantes que lutam sozinhos para trazer a sanidade de volta à mente de seus colegas de escola.
Baseado em uma história real que aconteceu na Califórnia, em 1967, “A Onda” é um filme surpreendente sobre o poder das ideias, sobre o poder da influência, sobre a força das ações e das palavras, sobre ter a lucidez de reconhecer quando as coisas estão indo pro lado errado, sobre ter a capacidade de admitir erros e de tentar consertar as coisas. Mas, especialmente é um belo estudo sobre como existem certas situações com as quais não se deve brincar e o professor Rainer Wenger aprende isso da pior forma possível – ainda mais porque ele deixou a vaidade de ver várias pessoas fazendo tudo o que ele mandava subir à sua cabeça. Quando ele quis retomar as rédeas dos fatos, era tarde demais. O estrago já estava feito!
Cotação: 10,0
A Onda (Die Welle, 2008)
Diretor: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth (com base no livro de Todd Strasser)
Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Cristina do Rego, Elyas M’Barek, Maximilian Vollmar
Desejo e Perigo Novembro 5, 2009
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“Desejo e Perigo”. Já está bem definido no título do filme dirigido por Ang Lee quais são os temas principais desta obra, a qual foi baseada no conto de Eileen Chang e foi adaptada por James Schamus e Hui-Ling Wang. O longa se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em Xangai, cidade chinesa, quando um grupo de estudantes universitários que fazem resistência à guerra e, especialmente, àqueles que colaboram com os inimigos japoneses, recrutam uma inocente jovem chamada Wong Chia Chi (Wei Tang) para fazer com que ela se passe por uma distinta senhora e se aproxime do Sr. Yee (Tony Leung Chiu Wai), um dos maiores colaboradores dos japoneses no conflito.
A história de “Desejo e Perigo” se passa em duas linhas de tempo distintas. Na primeira, que acontece em 1938, encontramos o grupo de estudantes universitários, os quais são muito interessados em artes dramáticas. Ao montarem um espetáculo de tom patriótico, eles decidem criar um ato ainda maior: uma trama em que cada um deles tem um papel bem definido e que possui o objetivo de alcançar aquilo que descrevemos no primeiro parágrafo de nosso texto.
Na segunda, que ocorre em 1942, encontramos uma segunda tentativa do grupo de conseguir a morte do Sr. Yee – o qual, agora, é uma figura muito mais importante nas relações entre os chineses e os japoneses. Aqui, o roteiro de Shamus e Wang fica ainda mais interessante, pois, com a proximidade que é estabelecida entre Yee e Wong Chia Chi (que adota a alcunha de Mak Tai Tai para o figurão) e, na medida em que as relações entre eles ficam mais passionais e dependente do magnetismo que um exerce sobre o outro, as chances da identidade verdadeira dela ser descoberta se tornam ainda maiores.
Ao assistirmos “Desejo e Perigo”, é inevitável não pensar em “A Espiã”, do diretor Paul Verhoeven, um outro thriller de espionagem passado na Segunda Guerra Mundial. As duas obras se apoiam em personagens femininas que ficam em uma situação extremamente delicada justamente por não conseguirem manter certa distância emocional daqueles que deveriam ajudar a entregar à resistência. Além disso, tem todo o aspecto da sensualidade e da paixão que estes relacionamentos suscitam. Assim como Verhoeven fez, em sua obra, Ang Lee filma tudo aqui (com o apoio da fotografia brilhante de Rodrigo Prieto) com muita classe. O conflito que estas mulheres vivem, a maneira como elas acabam expondo aqueles que deveriam ser suas vítimas, mostram que todos os planos (mesmo aquele minuciosamente feitos) estão totalmente sujeitos às circunstâncias nas quais eles irão tomar espaço – e, nesse sentido, vale também destacar a atuação da dupla Tony Leung e, especialmente, Wei Tang.
Cotação: 8,8
Desejo e Perigo (Se, jie, 2007)
Diretor: Ang Lee
Roteiro: James Schamus e Hui-Ling Wang (com base no conto de Eileen Chang)
Elenco: Tony Leung Chi Wai, Wei Tang, Joan Chen, Lee-Hom Wang, Chung Hua Tou
Uma Prova de Amor Novembro 3, 2009
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Só vai compreender os membros da família Fitzgerald, especialmente a matriarca Sara (Cameron Diaz), aqueles que já estiveram na mesma situação que eles. É muito difícil ter que ver alguém que a gente ama se definhando com o tempo e ficando cada vez mais frágil por causa de uma enfermidade brutal. O sentimento é de impotência porque, por mais que você tente e por mais que você tome alguma atitude, a dor e a agonia do outro nunca se atenua. E existe um momento, um difícil momento, diga-se de passagem, em que a gente tem que encarar as coisas de frente e deixar com que aquela pessoa se vá, por mais difícil e doloroso que isso seja para ambas as partes.
O filme “Uma Prova de Amor”, do diretor Nick Cassavetes, fala justamente sobre este duro instante de aceitação de que o fim está próximo. Por treze anos, os membros da família Fitzgerald – o pai Brian (Jason Patric), a mãe Sara, o irmão Jesse (Evan Ellingston), a irmã Anna (Abigail Breslin) e a tia Kelly (Heather Wahlquist) – vivem a mesma rotina por causa de Kate (Sofia Vassilieva, da série “Medium”). Ela foi diagnosticada com um tipo raro de leucemia e, desde a mais tenra idade, só conhece a dura rotina de hospitais, tratamentos e procedimentos cirúrgicos.
A situação ainda é mais complicada para Anna, que foi geneticamente concebida para ser uma doadora perfeita para a irmã – após esta ter sido diagnosticada e os médicos terem constatado que os pais e Jesse não eram doadores compatíveis com Kate. Então, Anna não tem vontade própria. Ela está ali para prolongar a vida da irmã, para dar esperanças aos pais (especialmente a Sara, uma lutadora incansável pela saúde de Kate) e para se adequar às necessidades da irmã mais velha.
A trama de “Uma Prova de Amor” parte da ação judicial que é imposta por Anna aos pais pela sua emancipação médica. Ou seja, ela não quer mais sujeitar seu corpo a duros procedimentos médicos para salvar Kate. A princípio, isso pode parecer um tanto cruel. Mas, é aí que entra um recurso narrativo muito interessante e que foi utilizado por Nick Cassavetes e Jeremy Leven na adaptação do livro de Jodi Picoult: ao alternar diversas vozes narrativas, oferecendo várias perspectivas sobre como a enfermidade de Kate afeta a vida dos Fitzgerald como família, você compreende que Brian, Sara, Kate, Jesse, Anna e Kelly estão todos chegando àquele ponto em que eles começam a perceber que a vida vai continuar, mesmo não sendo da forma como eles sonhavam, mesmo eles tendo que enfrentar uma grande perda.
Um dos maiores receios em relação a uma trama desse tipo é que o diretor que a transporta para a grande tela exagere em certos pontos, criando um filme melodramático e manipulador. Felizmente, este não é o caso de Nick Cassavetes. Diretor de “O Diário de uma Paixão” e filho de John Cassavetes e Gena Rowlands, Nick sabe que o segredo está em colocar o foco nos personagens – neste caso, em particular, nos jovens Kate, Jesse e Anna, porque são eles que vão fazer com que os adultos enxerguem as verdades que eles se recusam a admitir. O resultado é que “Uma Prova de Amor” emociona sem ser piegas porque é verdadeiro.
Cotação: 9,0
Uma Prova de Amor (My Sister´s Keeper, 2009)
Diretor: Nick Cassavetes
Roteiro: Nick Cassavetes e Jeremy Leven (com base no livro de Jodi Picoult)
Elenco: Abigail Breslin, Sofia Vassilieva, Cameron Diaz, Jason Patric, Heather Wahlquist, Evan Ellingson, Alec Baldwin, Emily Deschanel, Joan Cusack, Thomas Dekker
De Repente, Califórnia Novembro 2, 2009
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O primeiro ato de “De Repente, Califórnia”, filme escrito e dirigido por Jonah Markowitz, é muito claro em seu propósito. Ele quer nos mostrar que Zach (Trevor Wright) é um jovem completamente normal. Morador de San Pedro, cidade californiana, ele divide seu tempo entre o trabalho como cozinheiro numa lanchonete, o surfe nas praias ensolaradas do local, baladas com os amigos e o namoro ioiô com Tori (Katie Walder).
Entretanto, como veremos logo no segundo ato do filme, Zach tem uma grande diferença em relação a outros jovens de sua idade. Ele é membro de uma família bem complicada. O pai é alguém com quem, claramente, não se pode contar. Então, desde a morte da mãe, Zach tomou para si a responsabilidade de ser aquele que é o pilar da família e que a coloca nos eixos, especialmente porque a irmã Jeanne (Tina Holmes, que muitos irão se recordar de ter participado de “Six Feet Under”) é meio irresponsável e relega ao irmão os cuidados principais do filho Cody (Jackson Wurth).
Crescer em meio a um ambiente assim não deve ser fácil e está claro para a plateia que Zach é um jovem que possui seus próprios sonhos e ambições (especialmente cursar artes plásticas na Cal Arts, universidade da região). Entretanto, por causa das razões citadas anteriormente, ele é que tem que adiar seus sonhos e ver os amigos se encaminhando na vida. Zach precisa de um abrigo (para fazer referência ao título original deste filme), de alguém que lhe dê suporte e que seja parceiro (a) dele na vida em si. O jovem irá encontrar essa pessoa na figura de Shaun (Brad Rowe), que vem a ser irmão do melhor amigo de Zach.
A trama de “De Repente, Califórnia” enfoca justamente a maneira como Zach lida com seus sentimentos por Shaun, se descobrindo como homem, ganhando segurança e força e conciliando os seus anseios com as necessidades de sua própria família. O filme chama a atenção por não tentar apressar o desenvolvimento de sua história, respeitando o tempo do próprio Zach e das pessoas ao redor dele – que também precisam digerir que o jovem está mudando, e de forma definitiva.
Cotação: 8,0
De Repente, Califórnia (Shelter, 2007)
Diretor: Jonah Markowitz
Roteiro: Jonah Markowitz
Elenco: Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder
Distrito 9 Outubro 30, 2009
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A realidade na qual se passa o filme “Distrito 9”, de Neill Blomkamp, é muito interessante. Estamos em Johanesburgo, capital comercial da África do Sul, aonde, há 20 anos, uma nave espacial está parada nos céus. Os alienígenas que ali vieram moram isolados na área que dá nome ao filme e que parece um mundo próprio com suas regras, relações comerciais e de poder todas bem definidas. Quando a trama começa, estamos num ponto crítico da relação entre humanos e aliens. A violência, a intolerância, o apartheid estão no seu ápice e algo precisa ser feito.
É aí que entra a Multi-National United, que é a organização responsável por fazer o reassentamento dos alienígenas que vivem no Distrito 9. Liderados por Wikus Van DeMerwe (Sharlto Copley, numa sensacional atuação), os agentes da MNU invadem o Distrito 9 como se estivessem entrando em uma zona de guerra. Além das casualidades da batalha, aliens são pegos como cobaias dos estudos armamentistas feitos pelo órgão – expondo aquela que, talvez, seja a verdadeira intenção deles. Aqui, podemos encontrar a primeira constatação do filme: o homem tem por necessidade a vontade de compreender os fenômenos e as diferentes espécies de forma a poder agir e se apropriar deste conhecimento de forma adequada e que lhe dê uma certa vantagem.
A outra grande constatação de “Distrito 9” acontece quando o próprio Wikus é vitimizado pela batalha travada na área. Ele vira um híbrido, misto de homem e alien e vai experimentar na pele o que seus antigos alvos sentiam. Interessante perceber aqui que a mudança de ponto de vista não ocorre para fazer com que Wikus vire alguém melhor. Pelo contrário. A transformação, a relação que Wikus estabelece com o alien Christopher atendem ao instinto dele de sobrevivência e de poder voltar são e salvo para a esposa que ele tanto ama. Mais uma vez, temos o egoísmo do homem falando mais alto.
Ficção científica que mistura ação com drama, romance e documentário, “Distrito 9” é um filme que chama a atenção por colocar vários temas interessantes em discussão – o que chega a ser até um problema, porque é difícil pro filme manter certa profundidade ou passar, digamos, uma mensagem. Entretanto, o que dá para a gente tirar do longa é que ele oferece pontos interessantes sobre a falta de entendimento e de comunicação entre as pessoas e especialmente ao destrinchar por completo a personalidade dos diversos seres que passam pela obra, independente de suas formas e feições. O que ficamos sabendo é que não existem distinções entre nossos instintos e motivações. Por isso, assistir “Distrito 9” é uma experiência um tanto fascinante – justamente para vermos todas essas interações expostas na grande tela.
Cotação: 7,5
Distrito 9 (District 9, 2009)
Diretor: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike


