Archive for novembro, 2011

Eu Queria Ter a Sua Vida

Existe um certo ditado popular que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde!”. Tal frase representa aquele sentimento que temos, às vezes, de que a vida dos outros sempre é mais interessante, melhor ou menos difícil que a nossa. Esse ditado ainda é perfeito para representar o por quê de David Lockwood (Jason Bateman), um advogado bem-sucedido, com uma vida bastante estável, casado com Jamie (Leslie Mann) e pai de três lindas crianças sentir “inveja” da vida que seu amigo de infância Mitch Planko (Ryan Reynolds), um aspirante a ator, que mora num apartamento que parece um quarto de um estudante de colegial e que não tem responsabilidade ou maturidade alguma na vida leva.

O título nacional “Eu Queria Ter a Sua Vida”, do filme dirigido por David Dobkin, chega a ser ainda mais representativo dessa questão que falamos no parágrafo anterior. No decorrer da trama escrita por Jon Lucas e Scott Moore, vemos o desenho de uma situação bem parecida com a que foi retratada em filmes como “Tal Pal, Tal Filho” e “Sexta-Feira Muito Louca”. Ou seja, por algum acontecimento sobrenatural, as personalidades de David e de Mitch se misturam, de uma forma que um passa a viver a vida do outro e vice-versa.

Filmes como “Eu Queria Ter a Sua Vida” possuem uma lição de moral muito bem definida. Ao se colocarem um no lugar do outro e ao verem suas vidas de uma perspectiva bem diferente (neste sentido, o filme de David Dobkin possui momentos cômicos e dramáticos derivados dos “transtornos” que as mudanças de personalidades de David e Mitch provocam), os dois amigos podem empreender as transformações que são necessárias para que eles possam se tornar  pessoas melhores e seres com um caminho de vida cada vez mais permanente e que reforçam justamente o fato de que eles precisavam passar por essa situação em particular para poderem aprender estas coisas sobre eles mesmos e as pessoas que fazem parte do seu círculo familiar, profissional e pessoal.

Uma trama como a desse filme ainda proporciona aos seus atores a possibilidade de exercitarem algo muito importante: a possibilidade de enxergar o outro personagem, de também se colocar no lugar daquele outro ator e de imaginar o que ele faria se fosse você. Por isso mesmo, é muito bom ver o trabalho desenvolvido pela dupla Jason Bateman e Ryan Reynolds, os quais conseguem passar bem pela prova de interpretar os personagens um do outro. O destaque também vai para Leslie Mann, que se firma cada vez mais como uma coadjuvante de luxo dos filmes nos quais está envolvida, interpretando aqui um tipo bem parecido com o que ela fez em “Ligeiramente Grávidos”.

Cotação: 7,0

Eu Queria Ter a Sua Vida (The Change-Up, 2011)
Direção: David Dobkin
Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore
Elenco: Ryan Reynolds, Jason Bateman, Leslie Mann, Olivia Wilde, Alan Arkin, Gregory Itzkin, Craig Bierko

novembro 30, 2011 at 10:28 pm 10 comentários

A Casa dos Sonhos

Na sua essência, “A Casa dos Sonhos”, filme dirigido por Jim Sheridan, é um típico filme de suspense, uma vez que o eixo narrativo da trama escrita por David Loucka se apoia num conflito que é muito conhecido daqueles que são familiarizados com este gênero: Will Atenton (Daniel Craig) se muda com sua família – a esposa Libby (Rachel Weisz) e as duas filhas – para uma pacata cidade do interior, em busca não só de qualidade de vida, como também de passar um tempo considerável em família, longe daquela correria da cidade grande.

Por um tempo, a vida familiar dos Atenton será perfeita, como se eles tivessem saído de um comercial de margarina. Entretanto, a descoberta de que a casa dos sonhos que eles habitam foi palco do assassinato sórdido de uma família inteira abala as estruturas de todos eles, na medida em que suas duas filhas começam a perceber movimentos estranhos na própria casa e em que a rotina diária de todos eles passa a ser influenciada por diversos acontecimentos bizarros que ocorrem todos em decorrência desta descoberta, é importante frisar.

Neste sentido, a grande jornada de “A Casa dos Sonhos” é retratar a tentativa de Will de descobrir o que realmente aconteceu na residência que ele mora, de forma a ele poder continuar com sua vida pacata e feliz em família. É importante observar que o processo de desintegração emocional do personagem interpretado por Daniel Craig é muito parecido com aquele vivenciado pelo detetive Teddy Daniels, personagem que Leonardo di Caprio fez em “Ilha do Medo”, filme dirigido por Martin Scorsese. As semelhanças entre os dois personagens não param por aí, uma vez que o destino de Will Atenton, assim como o de Teddy Daniels, estava esfregado na cara da gente em todas as cenas de “A Casa dos Sonhos”. Basta que a gente preste atenção aos sinais.

Talvez, por isso mesmo, um dos melhores elementos deste filme acaba sendo a performance de Daniel Craig. Ele segura a onda de uma obra que tem um sério problema de roteiro. Não é preciso ser um grande fã de filmes de suspense para saber que uma boa obra desse gênero não esmiúça tudo para o espectador. É necessário que muita coisa fique subentendida para que a plateia possa preencher essas lacunas, para que a gente fique com aquela incômoda sensação de que aquela calma aparente do fim vai ser interrompida a qualquer instante. Infelizmente, “A Casa dos Sonhos” não nos permite passar por esse tipo de sentimento, uma vez que a opção do filme de Jim Sheridan foi deixar esta história com uma conclusão perfeita, de forma que a plateia saia da sessão sem dúvida alguma de qual será o destino de todos esses personagens.

Cotação: 5,5

A Casa dos Sonhos (Dream House, 2011)
D
ireção: Jim Sheridan
Roteiro: David Loucka
Elenco: Daniel Craig, Naomi Watts, Rachel Weisz, Elias Koteas, Jane Alexander, Gregory Smith

novembro 28, 2011 at 11:31 pm 16 comentários

Contágio

Uma epidemia é caracterizada pela incidência, num curto espaço de tempo, de um grande número de casos de uma determinada doença, em uma região geográfica bem específica. Quando a epidemia passa a atingir números ainda maiores e uma área geográfica bem mais ampla, ela passa a ser denominada como uma pandemia. Por trás das grandes pandemias que assolaram a espécie humana ao longo da história, sempre uma característica em comum: o fato de que os vírus que as ocasionaram serem poderosos e pegarem de surpresa o sistema de saúde, que ainda não tinha uma cura para aquela determinada enfermidade.

Este é o cenário que veremos no decorrer dos 105 minutos de “Contágio”, filme dirigido por Steven Soderbergh. A obra segue os cerca de 150 dias de uma pandemia causada por um vírus desconhecido que acarreta sintomas parecidos com uma gripe que evoluem rapidamente para convulsões e uma encefalite fatal. Os casos começam em Hong Kong e, logo, podem ser vistos em povoados chineses, em Londres e nas cidades de Chicago e Minnesota, ambas localizadas em território norte-americano. A doença tem efeitos que são desconhecidos à comunidade médica mundial e a luta que eles travam aqui é contra o tempo, para evitar mais mortes e mais infectados, enquanto buscam incessantemente por alguma cura contra o vírus.

O roteiro escrito por Scott Z. Burns é muito didático nesse sentido, explicando quase que o passo a passo que levam ao alastramento de uma pandemia como essa. É importante prestar atenção também ao fato de que Burns constrói cuidadosamente as peças de seu roteiro, dando voz a todos os lados que fazem parte dessa história – notadamente os infectados e suas famílias, as autoridades médicas a nível mundial, as autoridades civis, a sociedade em geral e os conspiratórios blogueiros. São estes elementos que compõem um retrato completo sobre todo o ciclo de vida de uma situação como a vivida por esses personagens.

Como o roteiro é a peça mais importante deste filme, uma vez que esta é uma história que poderia muito bem estar sendo veiculada no noticiário da atualidade, interessante ver a direção discreta, quase documental de Steven Soderbergh. Esta peça escrita por Scott Z. Burns é montada por Stephen Mirrione de uma forma minuciosa, como se fosse um grande documentário, num trabalho feito em sintonia com a trilha sonora composta por Cliff Martinez, a qual acentua os momentos certos desta história. Destaque também para o elenco estelar reunido por Soderbergh para “Contágio”, mesmo que alguns deles aqui estejam bem mal aproveitados – porém, este é o ônus a se pagar por fazer um filme com um grupo tão sensacional de atores.

Se o cinema tem como papel nos ajudar a compreender o mundo em que estamos inseridos, “Contágio” acaba funcionando como um sinal de alerta para sabermos como lidar como uma situação como essa e para entendermos também o sistema que existe por trás das indústrias da saúde e farmacêutica. A verdade é que, se tem algo que este filme nos mostra, é o quanto estamos impotentes diante de acontecimentos como esse. Por mais que os seres humanos se preparem para enfrentar uma pandemia como essa, por mais que o vírus seja vencido neste determinado momento, a grande constatação é que outro pode vir ali na frente de uma forma muito mais poderosa e acabar nos dizimando de vez. Basta que alguém não lave a mão após entrar em contato com alguém… É simples assim.

Cotação: 8,5

Contágio (Contagion, 2011)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Laurence Fishburne, John Hawkes, Jude Law, Marion Cotillard, Kate Winslet, Jennifer Ehle, Elliott Gould, Enrico Colantoni, Bryan Cranston, Sanaa Lathan

novembro 23, 2011 at 11:58 pm 24 comentários

Cena da Semana

(Formation Scene – A Árvore da Vida [2011] – diretor: Terrence Malick)

Pelo uso de imagens de elementos cósmicos e do bom uso da trilha sonora, essa cena bem que poderia ter estado em “Melancolia“, filme de Lars Von Trier, mas não. Ela está encartada no longa “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick. Essa é somente uma primeira semelhança entre as duas obras, que possuem quase que a mesma temática, uma vez que falam sobre personagens em um constante diálogo interno, tentando lidar com as suas crises existenciais e emocionais. São dois belos filmes, repletos de momentos e de frases poderosas, como esse aí que destacamos.

novembro 20, 2011 at 10:02 pm 16 comentários

O Palhaço

Existe algo que é chamado de “síndrome do palhaço triste”, que faz referência àquele profissional que sorri quando, na verdade, quer chorar. Esta é a definição perfeita para Benjamim (Selton Mello), o protagonista de “O Palhaço”, filme que marca a segunda incursão de Mello, um dos melhores atores brasileiros da atualidade, na cadeira de diretor. A realidade é que, na maior parte do longa, Benjamim parece estar totalmente inerte à realidade na qual está inserido: a do palhaço Pangaré, que divide a cena com seu pai Valdemar/Puro Sangue (Paulo José), e de responsável pela companhia que viaja cidades do interior do Brasil com o Circo Esperança, que é de propriedade de seu pai.

Benjamim, aliás, é uma personagem extremamente bem construída pelo roteiro escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicato. É como se ele não existisse, uma vez que não possui carteira de identidade, CPF ou comprovante de residência. É como se ele fosse aquela pessoa cujo copo está tão transbordado, mas que, ao mesmo tempo, não tem a mínima capacidade de reagir a isso. Benjamim seria um eterno refém de sua existência se não fosse o seu pai olhar para ele para dizer que, se a pessoa não está feliz com o que faz, deve procurar seu próprio caminho. Era esta “coragem” que ele necessitava para decidir caminhar com as suas próprias pernas e se descobrir, tentar ver qual é a dele.

É esta jornada pessoal de Benjamim que move toda a trama de “O Palhaço”. É por meio da tentativa, dos acertos e dos erros de seu protagonista que vemos todo este cenário sendo desenvolvido. Neste sentido, curioso ver a conjuntura que Selton Mello decidiu ancorar a sua história: dentro de uma divertida companhia de circo, com personagens que são quase uma caricatura de si mesmos. Mais peculiar ainda é ver que, por trás de tanta alegria, existe tanta melancolia, tantos silêncios e lacunas que só acabavam sendo preenchidas, vejam só, pelo olhar de uma criança filha de um casal da companhia. Era ela a única a perceber tudo que se passava ao seu redor.

Diferente de “Feliz Natal”, Selton Mello, dessa vez, preferiu acumular as funções de diretor e de protagonista. Que bom que isso não foi em detrimento de algumas dessas tarefas, uma vez que, como diretor e ator de “O Palhaço”, Mello corresponde à altura das expectativas. Seu filme é uma obra repleta de beleza, com detalhes minuciosos que devem ser olhados com atenção (a personagem infantil é somente um deles que citamos aqui) e com aquele tipo de história de apelo universal que deveria ser regra, e não exceção no cinema brasileiro.

Cotação: 8,5

O Palhaço (2011)
Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato
Elenco: Selton Mello, Teuda Bara, Moacyr Franco, Paulo José

novembro 19, 2011 at 1:50 am 19 comentários

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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