Archive for outubro, 2011
Família Vende Tudo

Se fosse uma crônica, “Família Vende Tudo”, filme escrito e dirigido por Alain Fresnot, seria um daqueles retratos perfeitos de um grupo familiar suburbano, que trabalha duro vendendo produtos contrabandeados do Paraguai na rua e que sofre as consequências de ter uma vida profissional informal. Porém, estamos diante de uma obra cinematográfica, a qual deve ser analisada como tal. Neste sentido, o longa é uma comédia de costumes, que fala a respeito de uma família que não hesita em utilizar aquela que é a sua única filha como ferramenta de rápida ascensão social.
A história de Lindinha (Marisol Ribeiro), é importante mencionar, acontece em qualquer extrato social. Bonita, porém desprovida de certa inteligência, a jovem é completamente apaixonada pelo cantor brega Ivan Carlos (Caco Ciocler). Cansados de tanto trabalharem e não verem sua vida mudar, os pais de Lindinha (Lima Duarte e Vera Holtz) decidem colocar a menina propositalmente no caminho de Ivan Carlos, de forma que a filha deles possa seduzir o cantor, engravidar dele e viver da pensão que seu eventual filho receberá do pai famoso. Ou seja, temos o desenho de uma situação que envolve o velho conhecido golpe da barriga.
Por meio desta situação, o roteiro de “Família Vende Tudo” faz uma discussão a respeito, não só deste tipo de pessoas que se aproveitam dos outros (não que Ivan Carlos seja alguém totalmente inocente, diga-se de passagem…), como também fala sobre os meios de comunicação de massa (por meio da exposição excessiva que Ivan Carlos sofre na mídia e da subtrama que retrata o desejo de sua mulher – interpretada por Luana Piovani – de tornar-se uma cantora fabricada por um produtor destinada ao sucesso). De uma certa maneira, o que o longa nos mostra é que estamos passando por uma perda progressiva de valores, uma vez que o que importa para as personagens que fazem parte deste universo retratado por Alain Fresnot é se dar bem – independente dos meios alcançados para transformar isto em realidade.
“Família Vende Tudo” possui um tom predominantemente cômico, portanto o terreno está pronto para que atores do calibre de Lima Duarte, Vera Holtz e Caco Ciocler (naquele que é o papel mais diferente de sua carreira) possam brilhar. A presença deles atenua a falta de experiência dos jovens Marisol Ribeiro e Robson Nunes. Entretanto, no decorrer da experiência de se assistir ao filme, mesmo tendo a consciência de que ele não tem o propósito de ser levado a sério, fica sempre aquela sensação de que Carlos Reichenbach falou sobre estas mesmas questões, de uma forma muito mais competente, no longa “Falsa Loura”.
Cotação: 4,0
Família Vende Tudo (2011)
Direção: Alain Fresnot
Roteiro: Alain Fresnot
Elenco: Caco Ciocler, Lima Duarte, Ailton Graça, Vera Holtz, Luana Piovani, Marisol Ribeiro, Marisa Orth, Robson Nunes
Cena da Semana
(Alexi Murdoch – “All My Days”)
“Well I have been searching all of my days
All of my days
Many a road, you know
I’ve been walking on
All of my days
And I’ve been trying to find
What’s been in my mind
As the days keep turning into night”
Uma pena que essa música da trilha de “Gigantes de Aço”, que toca na cena de abertura do filme, não seja original. Se fosse, teria indicação certa ao Oscar 2012 da categoria.
Lendo – “Breve História de Quase Tudo”
“Se este livro contém uma lição, é a de que nós somos tremendamente sortudos por estar aqui – e com “nós” quero dizer todos os seres vivos. Alcançar qualquer tipo de vida neste nosso universo parece uma realização de peso. Como seres humanos somos duplamente sortudos, é claro. Desfrutamos não só do privilégio da existência, mas também da capacidade singular de apreciá-la e até, de inúmeras maneiras, torná-la melhor. É um talento que mal começamos a perceber”. (pgs. 483 e 484)
Mais interessante do que a leitura de “Breve História de Quase Tudo”, livro escrito por Bill Bryson, é conhecer a história por trás dos motivos que levaram o autor a escrever a obra. Ao entrar em contato novamente com um livro de ciência ilustrado que ele mesmo utilizou em uma de suas aulas da quarta ou quinta série, Bryson se viu perguntando como aqueles autores, aqueles teóricos sabiam daquelas coisas sobre o universo e, principalmente, como eles chegavam a essas descobertas.
Motivado por esses questionamentos, Bryson decidiu que dedicaria parte da sua vida “à leitura de livros e revistas e à procura de especialistas bonzinhos e pacientes dispostos a responder a um monte de perguntas cretinas. A idéia era ver se seria possível entender e apreciar as maravilhas e realizações da ciência – surpreender-se com elas, até curti-las –, num nível nem técnico ou difícil demais, nem muito superficial”.
O resultado dos três anos de trabalho de Bill Bryson pode ser lido nas 484 páginas de “Breve História de Quase Tudo”, que se divide em dois grandes blocos: a explicação do surgimento do universo como tal o conhecemos e como isso levou à existência da vida humana no planeta Terra – os quais estão subdivididos, por sua vez, em seis partes. Neles, o autor mostra “como passamos da total inexistência de tudo até a existência de algo e, depois, como um pouco daquele algo transformou-se em nós, e também sobre parte do que aconteceu naquele intervalo e desde então”.
Bill Bryson sabe que tem muito assunto importante a cobrir e chega a ser impressionante o trabalho dele, que envolve as grandes descobertas científicas do nosso tempo – fugindo até das referências habituais a ciências como a física e a astronomia, indo buscar informações até mesmo na química, geologia, matemática, paleontologia, arqueologia, biologia, entre outras. Neste sentido, um dos elementos mais importantes no decorrer da leitura de “Breve História de Quase Tudo” é compreender como funciona o mundo científico, o qual tem muito egocentrismo, muita rotatividade, uma grande rivalidade e, contraditoriamente, respeito ao trabalho realizado de forma correta e competente.
Um outro elemento bem interessante do livro “Breve História de Quase Tudo” é perceber o quão pouco se é conhecido da origem humana. De uma certa maneira, a nossa existência no planeta Terra é muito recente e, provavelmente, foi resultado de inúmeras tentativas até ela acontecer, de verdade, uma vez que a vida é extremamente adaptável, começa de uma forma simples e avança sempre rumo ao melhor. Mesmo que, para isso ocorrer, implique em que os humanos assumam, em certos momentos, a posição de “vilões” ao extinguir outras espécies – porém algo que o livro também nos mostra é que a extinção, às vezes, precisa acontecer justamente para permitir que outras espécies perdurem, e isso também vale para nós, humanos, uma vez que também estamos suscetíveis à extinção.
“Breve História de Quase Tudo” é um daqueles livros que deveria servir de material de apoio a todos os estudantes que estão começando a entrar em contato com os principais temas que são abordados por Bill Bryson. A forma direta, fácil e concisa com que o autor (que é jornalista de formação) aborda temas que são de natureza complexa transformam o difícil de ser compreendido em simples de se entender. E este é um dos maiores méritos de um livro que cumpre por completo seu objetivo, pois oferece muitas respostas, ao mesmo tempo em que deixa claro que ainda existe muita coisa a se descobrir e a se entender, uma vez que a ciência é um campo bastante dinâmico, cujos trabalhos estão literalmente em progresso, pronto para explodirem, com o perdão do trocadilho.
Breve História de Quase Tudo (2005)
Autor: Bill Bryson
Editora: Companhia das Letras
Sem Saída

“Sem Saída”, filme dirigido por John Singleton, é aquele tipo de obra cujo roteiro se apoia em um dos clichês mais antigos do cinema: aquele em que o protagonista descobre, de uma hora para a outra, que a vida que ele achava que tinha era nada mais do que uma completa mentira. Nesse caso, o curioso é que o jovem Nathan (Taylor Lautner, o Jacob da saga “Crepúsculo”) sempre teve uma espécie de pulga atrás da orelha. Ele sempre se achou um verdadeiro estranho dentro da família “comercial de margarina” em que ele estava inserido.
O grande ponto de virada do roteiro escrito por Shawn Christensen ocorre quando Nathan vê aqueles que ele acreditava serem seus pais (Jason Isaacs e Maria Bello) sendo assassinados e, de repente, ele passa a ser perseguido não só pela CIA (representada aqui pelo agente interpretado por Alfred Molina), como também por um perigosíssimo agente russo, que vem a ser inimigo do seu verdadeiro pai (Dermot Mulroney, numa ponta em que ninguém vê o rosto dele direito). Isso dá início à verdadeira jornada de Nathan: aquela em que ele busca, não só a sua sobrevivência, como também a sua verdadeira identidade – tendo a companhia, diga-se de passagem, de seu interesse amoroso na história, a também jovem Karen (Lily Collins).
“Sem Saída” é o primeiro veículo cinematográfico em que Taylor Lautner ocupa a posição de protagonista, com a grande responsabilidade de carregar a trama do filme nas costas. Um detalhe importante a se notar é que o longa tem como um dos produtores, seu pai Dan Lautner, que dizem ser um cara totalmente controlador da carreira do filho. De qualquer maneira, um dos grandes acertos de “Sem Saída” é rodear o jovem Lautner de atores experientes como os já citados Isaacs, Bello, Molina e Sigourney Weaver, que oferecem credibilidade a um filme como esse.
Com a direção de um profissional também experiente da indústria como John Singleton, “Sem Saída” também ganha muita consistência nas suas cenas de ação, as quais não possuem muita pirotecnia, mas são muito competentes. O resultado é que a obra não só confirma o potencial de Taylor Lautner como um possível futuro heroi de filmes de ação, como também o potencial da própria história de se transformar em uma franquia, uma vez que as portas estão abertas para isso. Porém, essa segunda hipótese é mais difícil de ocorrer, tendo em vista que o filme recebeu uma das piores recepções da crítica em 2011.
Cotação: 6,0
Sem Saída (Abduction, 2011)
Direção: John Singleton
Roteiro: Shawn Christensen
Elenco: Maria Bello, Lily Collins, Taylor Lautner, Jason Isaacs, Alfred Molina, Victor Slezak, Sigourney Weaver, Dermot Mulroney, Denzel Whitaker
Missão Madrinha de Casamento

Desde que começaram a surgir as primeiras informações sobre a comédia “Missão Madrinha de Casamento”, filme dirigido por Paul Feig, logo começaram a vender a obra como a versão feminina de “Se Beber, Não Case!”, de Todd Phillips. Quem for assistir ao longa com isso na cabeça, sairá da sala de cinema com a sensação de que foi vítima de uma propaganda enganosa, uma vez que os dois filmes não têm nada a ver. As razões principais para isso não passam nem pela falta de cenas de comédia escatológica em “Missão Madrinha de Casamento”, mas porque a natureza da amizade feminina é completamente diferente da masculina.
Vejamos: a partir do instante em que recebe a notícia de que sua amiga de infância Lillian (Maya Rudolph) está noiva e a escolheu como madrinha, Annie (Kristen Wiig), não sabe bem o que fazer. Claro que ela está feliz pela amiga, mas ela não tem muita noção do que Lillian espera que ela faça, uma vez que, nos Estados Unidos, diferente do que ocorre no Brasil, a madrinha tem uma função bem participativa nos preparatórios da festa de casamento, organizando desde a compra/aluguel do vestido de noiva, passando pelo chá de panela/despedida de solteira, chegando até mesmo a detalhes cruciais para o sucesso do grande dia da noiva.
Todo esse processo será o estopim para uma grande crise pessoal que Annie irá enfrentar no decorrer de “Missão Madrinha de Casamento”. Na realidade, a vida dela já estava num ponto muito baixo, afinal a loja de bolos dela foi à falência, ela tem um emprego que ela odeia numa joalheria que ela conseguiu graças aos contatos de sua mãe (Jill Clayburgh, no seu último papel no cinema), ela está presa a um relacionamento com um homem (Jon Hamm) que só faz usá-la quando ele bem entende, ela aluga um quarto numa casa com dois irmãos completamente idiotas e, principalmente, ela se fecha para toda e qualquer oportunidade de mudar tudo isso – aqui, podemos entender o por quê do tema de Annie ser “Hold On”, música do grupo Wilson Phillips, já que a letra dessa música é mesmo a cara da personagem.
O fato de ela vivenciar essa crise naquele que é um dos momentos de maior felicidade para uma grande amiga dela faz com que Annie pareça um tanto egoísta. E, na verdade, é isso que ela o é. Mas, por incrível que pareça, essa é uma das maiores características da natureza da relação entre amigas. Esse mesmo conflito já foi explorado, de forma superficial, claro, no episódio “The One With Monica’s Thunder”, da sétima temporada de “Friends”, que mostra a forma infantil e ciumenta que Rachel reage à notícia de que Monica e Chandler estão noivos. A mesma coisa está representada aqui, neste filme, pelo ciúme que Annie tem de Helen (Rose Byrne), que é a segunda melhor amiga de Lillian e pessoa que possui uma vida que, na cabeça dela, é perfeita; e na forma como Annie acaba “sabotando” todas as etapas de planejamento e de eventos que levam ao casamento de sua melhor amiga.
Neste sentido, voltamos às diferenças entre “Missão Madrinha de Casamento” e “Se Beber, Não Case!”. No filme de Paul Feig (um profissional experiente da televisão norte-americana, com trabalhos em seriados como “The Office”, “Nurse Jackie”, “Parks and Recreation” e “Weeds”), não temos viagens inconseqüentes e atos de irresponsabilidade, pois as mulheres não possuem esse quê de “camaradagem” uma com a outra. As mulheres são confidentes uma da outra, mas, ao mesmo tempo em que estão ali pro que der e vier para suas amigas, não existe amizade verdadeira entre seres do sexo feminino sem uma pitada de inveja e de rivalidade. E retratar isso de forma perfeita é um dos pontos mais positivos do roteiro escrito por Annie Mumolo e Kristen Wiig.
Cotação: 6,5
Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011)
Direção: Paul Feig
Roteiro: Annie Mumolo e Kristen Wiig
Elenco: Kristen Wiig, Maya Rudolph, Rose Byrne, Terry Crews, Jessica St. Clair, Jill Clayburgh, Jon Hamm, Melissa McCarthy, Chris O’Dowd


