Archive for setembro, 2011
Amor a Toda Prova

As comédias românticas são, por definição, aquilo que chamamos de “chick flick”. Ou seja, esse é aquele tipo de filme que lida com questões relacionadas ao amor e ao romance e que apelam diretamente ao público feminino. Talvez, por isso mesmo, a maioria das obras desse gênero possui o ponto de vista idealizado e romântico sobre o amor que é típico do olhar feminino sobre esse tema. Entretanto, “Amor a Toda Prova”, comédia romântica dirigida por Glenn Ficarra e John Requa, está aí para desafiar todos esses paradigmas.
Em primeiro lugar, o longa é narrado pelo ponto de vista masculino. Por meio dos três personagens masculinos mais importantes de “Amor a Toda Prova” – Cal Weaver (Steve Carell), Jacob (Ryan Gosling) e Robbie (Jonah Bobo) – temos o retrato de três tipos diferentes desse sentimento, que são diretamente correspondentes ao estágio de vida em que eles estão. Cal, que está na faixa dos quarenta anos, após ser surpreendido pelo pedido de divórcio de sua esposa Emily (Julianne Moore), tem que reorganizar-se por completo, se redescobrir e rever suas prioridades. Jacob, que está na faixa dos vinte anos, está naquele momento em que se preocupa com quantidade ao invés da qualidade (em outras palavras, ele prefere envolvimentos superficiais a ter que se dedicar a um relacionamento). Enquanto Robbie, que tem 13 anos, está naquela fase de descoberta do amor (o dele é não correspondido, diga-se de passagem), de achar que cada pessoa possui uma alma gêmea e que este sentimento é eterno.
O curioso, no entanto, em “Amor a Toda Prova”, é que o filme tira sua maior força do encontro entre estas três visões distintas, pois, por mais diferentes que Cal, Jacob e Ryan sejam, por mais infelizes que eles estejam nesses determinados momentos de suas vidas, eles possuem uma qualidade muito interessante: eles, quando decididos, quando conscientes daquilo que realmente querem, vão brigar por isso até o fim. Ao contrário do retrato que é feito das mulheres deste filme, as quais estão confusas, adotam comportamentos impulsivos e cometem erros bobos.
É justamente por desafiar os clichês, ao mesmo tempo em que os confirma (afinal, o que seria das comédias românticas sem eles?); por mostrar Ryan Gosling como o homem sexy que ele é; por confirmar a figura de Steve Carell como ator perfeito para interpretar homens com questões amorosas sensíveis (vide também “O Virgem de 40 Anos” e “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”); e por mostrar que os homens possuem, sim, um coração por trás de toda aquela fachada dura que “Amor a Toda Prova” vale a pena. Este filme é a comédia romântica de 2011.
Cotação: 9,0
Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love, 2011)
Direção: Glenn Ficarra e John Requa
Roteiro: Dan Fogelman
Elenco: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, Joey King, Marisa Tomei, John Carroll Lynch, Kevin Bacon
Vincere

A palavra vincere significa vencer, em italiano. Porém, na realidade, o filme dirigido e co-escrito por Marco Bellocchio não fala sobre uma história vencedora, e sim faz um relato de uma vida pautada por muito sofrimento e derrota. A personagem principal da obra se chama Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), uma mulher que foi varrida completamente do acontecimento mais importante que ocorreu em sua vida, o que fez com que ela passasse a ser alguém inexistente e que teve que passar por inúmeras duras provações.
O tal acontecimento foi o encontro dela, em Milão, com o jovem Benito Mussolini (Filippo Timi), quando ele ainda era um militante socialista. Naquela época, Ida ficou completamente fascinada pela figura dele, pelas suas ideias, pelos seus discursos e atitudes, pela sua personalidade. Da admiração nasceu um grande amor, que seguiu-a pelo resto de sua vida. Ida foi parceira de Mussolini em suas diversas iniciativas como militante, além de ser a sua primeira esposa e mãe do seu primogênito, que também se chamaria Benito, como o pai.
A “sorte” de Ida começa a mudar quando Benito Mussolini começou a lutar na I Guerra Mundial e passou a renegar aquela que foi a sua esposa. A situação piora quando ele ascende ao poder na Itália, como líder do Partido Nacional Fascista, em 1922, e passa a ser chamado de Duce. Ao longo de 21 anos de poder de seu ex-marido, Ida, além de ter sido completamente renegada, passou a ser vista como uma louca, uma indigente, vivendo isolada de seu filho – que também tinha uma existência completamente à margem da sociedade, escondido da mesma forma que a sua mãe.
Ou seja, da mulher que ajudou a construir a figura de Mussolini, Ida foi relegada a um ponto em que a sua grande briga passou a ser não aquela que ela sempre travou pelo seu homem, mas sim uma batalha para ser reconhecida pelo que ela era, para provar que o que ela viveu com Mussolini foi uma realidade e para colocar o seu filho no lugar em que ele deveria estar, com as mesmas condições de vida de seus outros quatro irmãos (frutos do segundo casamento de Mussolini).
É uma pena que uma história tão poderosa quanto essa tenha sido diluída em um filme cujas transições temporais são muito bruscas. Em alguns momentos, os pulos no tempo são tão confusos que a plateia também começa a se perder e a imaginar em que ponto da história estamos. O roteiro parece ter sido mesmo o calcanhar de Aquiles de “Vincere”, pois a conclusão do longa também chega a ser muito rápida e sem maiores explicações. Porém, nem mesmo esses problemas são capazes de ofuscar a grandiosidade da atuação de Giovanna Mezzogiorno, perfeita como Ida Dalser.
Cotação: 7,0
Vincere (Vincere, 2009)
Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio e Daniela Ceselli
Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Pier Giorgio Bellocchio, Corrado Invernizzi
Cena da Semana
(Best Actress in a Comedy Series – Primetime Emmy Awards 2011 – 18.09.2011)
Este foi o melhor momento do Emmy Awards 2011. Na realidade, isso só é possível no Emmy Awards 2011, que tem uma estrutura mais flexível, que permite esse tipo de improvisação (aposto que foi ideia da Amy Poehler, vide o que ela armou na categoria de Best Supporting Actress in a Comedy Series, em 2009). Isso NUNCA aconteceria no Oscar. Se bem que isso seria uma coisa que eu ADORARIA ver no Oscar….
(Best Actress in a Miniseries or a Movie – Primetime Emmy Awards 2011 – 24.09.2011)
Por outro lado, esse foi o pior momento (correção: o momento mais constrangedor) da noite do Emmy 2011. Será que a Kate Winslet realmente achava que iria perder? Precisava desses pulinhos? Cadê que quando ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz, em 2009, depois de cinco indicações, ela fez isso? Ah, me esqueci: o Oscar é mais formal, por isso que ela nunca daria pulinhos ao vencer lá, nem as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz iriam subir ao palco do Kodak Theatre e forjar um concurso de miss…
Apollo 18: A Missão Proibida

O programa Apollo foi criado no governo do Presidente Dwight Eisenhower e mantido pela NASA com o objetivo de “levar o homem à lua e retorná-lo em segurança para a terra”. Foram necessárias onze tentativas até que, em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin conseguiram alcançar este objetivo, o qual foi imortalizado pela frase de Armstrong: “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade”. Ao todo, neste programa, foram enviadas 17 missões para a lua.
O filme “Apollo 18 – A Missão Proibida”, do diretor Gonzalo López-Gallego, fala sobre a 18ª (fictícia?) missão enviada para a lua com o objetivo de explorar o local e recolher amostras do solo lunar que seriam encaminhadas para estudos pelos cientistas norte-americanos. Nesta missão altamente secreta, três astronautas (Warren Christie, Lloyd Owen e Ryan Robbins) ansiosos para cumprirem seu papel.
A estética deste filme, bem como a sua estrutura narrativa, seguem a fórmula de obras como “A Bruxa de Blair”, “Cloverfield – Monstro” e “Atividade Paranormal”. Ou seja, estamos diante de um formato documental que acompanha a missão, o cotidiano dos três astronautas, a relação entre eles, as descobertas que eles fazem, os momentos de tensão e de brincadeiras, até que acontece um ponto de virada na trama que nos faz crer que existe algo de muito estranho em solo lunar – e não estamos falando da possibilidade da existência de vida humana por lá.
É justamente este ponto de virada que faz com que a narrativa de “Apollo 18 – A Missão Proibida” saia do marasmo (juro que muitas vezes a impressão que se dá é a de que nada está acontecendo no filme e que a trama está bastante estagnada, sem progredir) e ganhe um pouco de movimento, por meio do medo e da apreensão que se instala entre o Comandante da missão e o piloto do módulo lunar que o acompanha in loco na Lua.
“Apollo 18 – A Missão Proibida” é aquele tipo de filme que você já assiste sabendo como ele irá terminar (especialmente por causa dos alertas que são colocados para a plateia nos créditos iniciais). Talvez por isso e pela falta de acontecimentos interessantes no primeiro ato do longa, você não irá se envolver com a história, muito menos se importar com o destino dos três astronautas envolvidos nesta missão. A obra ainda se apoia em vários clichês dos filmes desse gênero (atores desconhecidos interpretando os personagens centrais, o caráter “amador” das filmagens e o fato de ser baseado numa história supostamente real).
No final, o aspecto mais interessante de “Apollo 18 – A Missão Proibida” acaba sendo a forma como aspectos como o pioneirismo, o patriotismo e o heroísmo dos Estados Unidos são retratados pelo diretor. Ao mesmo tempo em que temos os três astronautas que são potenciais herois, nós temos aqueles que ficaram na base de Houston da NASA e que são os verdadeiros donos do destino desses personagens. As decisões que eles têm que tomar os tornam vilões, mas o curioso é que não existe espaço para o julgamento moral dessas decisões. O que foi feito era o que tinha que ser feito.
Cotação: 2,5
Apollo 18 – A Missão Proibida (Apollo 18, 2011)
Diretor: Gonzalo López-Gallego
Elenco: Warren Christie, Lloyd Owen, Ryan Robbins
As Coisas Impossíveis do Amor

O elemento mais importante do filme “As Coisas Impossíveis do Amor”, do diretor e roteirista Don Roos, é a sua personagem principal: a jovem Emilia Greenleaf (Natalie Portman). A sinopse da personagem está muito bem contada no decorrer do longa: ela tem rancor por ser filha de um pai que, antes de abandonar a sua mãe de vez, a tinha traído com várias mulheres; porém, ao mesmo tempo, ela se recusa a se ver como uma destruidora de lares – o que de fato ela é, uma vez que ela começou a se envolver com Jack (Scott Cohen, conhecido pelo papel no seriado “Gilmore Girls”) quando este ainda era casado com Carolyn (Lisa Kudrow).
Ao ficar grávida, Emilia viu Jack deixar sua família – além da esposa, o filho William (Charlie Tahan) – para começar uma outra com ela. Boa parte de “As Coisas Impossíveis do Amor” se dedica às inúmeras tentativas de Emilia de estabelecer um relacionamento saudável com William, tendo que lidar, ao mesmo tempo, com as relutâncias do menino em torno do relacionamento novo de seu pai, com as implicâncias de Carolyn em relação a ela e, principalmente, com o seu próprio sentimento de luto depois de ter perdido a filha Isabel (o primeiro fruto de seu casamento com Jack), ainda recém nascida, e como isso tem afetado, não só ela, como a relação dela com Jack e com o resto do mundo.
Uma história densa, não? O interessante nela é que ela é contada por meio de flashbacks que se alternam com o tempo presente. Ou seja, por meio deste artifício narrativo, Don Roos, muitas vezes, “engana” a sua plateia, pois o foco principal do filme vai mudando o tempo inteiro, como se ele quisesse desvendar todas essas camadas de Emilia aos poucos, de forma a nos deixar totalmente surpreendidos. O problema é que essa constante mudança de foco da história faz com que o filme acabe perdendo o olhar daquilo que realmente quer falar: como uma pessoa tão jovem quanto Emilia reage a situações para as quais ela, claramente, ainda não está totalmente preparada para viver. Ela amadurece e se encontra na medida em que supera cada obstáculo que a vida coloca diante dela.
“As Coisas Impossíveis do Amor” foi um filme finalizado em 2009, mas que só encontrou espaço para lançamento neste ano (nos Estados Unidos, em um circuito limitado de cinemas; e, no Brasil, diretamente em DVD). O aspecto mais curioso da obra acaba sendo verificar a atuação de Natalie Portman, muito segura na pele de Emilia, apesar da total falta de química com Scott Cohen. Fique de olho também na ótima atuação de Lisa Kudrow. Ela rouba a cena todas as vezes em que aparece.
Cotação: 6,0
As Coisas Impossíveis do Amor (The Other Woman, 2009)
Diretor: Don Roos
Roteiro: Don Roos (baseado no livro de Ayelet Waldman)
Elenco: Natalie Portman, Scott Cohen, Lisa Kudrow, Charlie Tahan, Lauren Ambrose, Michael Cristofer, Debra Monk, Mona Lerche


