Archive for agosto, 2011
Homens em Fúria

“Homens em Fúria”. Adicionem mais essa pérola aos equívocos cometidos pelos tradutores de títulos brasileiros. Olha que “Stone”, título original do filme dirigido por John Curran, também não é dos mais adequados, como percebido a partir do momento em que entramos em contato com a história escrita por Angus McLachlan. O título original faz referência a Gerald “Stone” Creeson (Edward Norton), um piromaníaco condenado após ser cúmplice do assassinato de seus próprios avós e que está pleiteando a liberdade condicional após cumprir 8 anos de prisão.
O destino de Stone está nas mãos do agente de condicional Jack Mabry (Robert de Niro), um homem que, como o prólogo de “Homens em Fúria” bem nos comprova, é alguém que, assim como as pessoas com quem ele convive diariamente na penitenciária, também tem muitos esqueletos a esconder dentro de seu próprio armário. Um detalhe importante a se perceber no filme é que, ao contrário do que o título nos indica, não é Stone a peça mais fundamental da trama; na realidade, a história que nos é contada é vista pelo olhar e pelos efeitos que os acontecimentos retratados no longa causam no próprio Jack Mabry e em sua vida cheia de paredes rachadas.
Um dos aspectos mais impressionantes em “Homens em Fúria” é tentar entender como um profissional experiente como Jack Mabry, o qual está prestes a se aposentar (e sim, esse é um detalhe clichê, porém importante para o que assistiremos), cai no jogo barato de manipulação feito por Stone e sua esposa Lucetta (Milla Jovovich) em busca do parecer favorável de Jack para o pedido de condicional dele. O jogo do casal é tão previsível que não dá para compreender como Jack não percebeu o que vinha pela frente.
Esse é um dos aspectos que transformam “Homens em Fúria” num daqueles filmes que não vai prender a tua atenção por completo, porque você já começa a perder a fé no longa já no seu segundo ato. Outro elemento triste de se perceber, durante a experiência de assistir à obra, é ver o quanto que dois atores do calibre de Robert de Niro e Edward Norton se tornaram caricatura de si mesmos. Enquanto o primeiro fica franzindo a testa para revelar toda a pompa e dureza de Jack, o segundo interpreta uma variante de tantos outros personagens que já fez, como os de “As Duas Faces de um Crime” e “A Cartada Final”, por exemplo. Uma pena…
Cotação: 4,0
Homens em Fúria (Stone, 2010)
Direção: John Curran
Roteiro: Angus McLachlan
Elenco: Edward Norton, Robert de Niro, Milla Jovovich, Frances Conroy
Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo

“Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, além de dar nome ao filme dirigido por Hugo Carvana, também dá título à peça de stand-up comedy que Lalau Velasco (Gregorio Duvivier) apresenta no decorrer do filme. A frase, na realidade, é quase um mantra, um tema de vida do seu pai, o também ator Ramon Velasco (Tarcísio Meira), que passou a vida como vigarista, dando grandes golpes, o que obriga pai e filho a viverem uma vida de andarilhos pelo Brasil afora, sempre fugindo de alguém que se sentiu ofendido pelos golpes perpetrados por Ramon.
Podemos dizer que Lalau tem um grande medo na vida: se transformar no próprio pai. Até o início do segundo ato de “Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, o jovem se mantém imune à influência paterna. Mas, ao aceitar a proposta da colunista Flora (Flávia Alessandra) e começar a se passar pelo guru indiano Bob Savanandra, Lalau se vê envolvido em uma série de encrencas que só tendem a crescer e que fazem com que ele recorra à ajuda daquele que é o grande especialista em golpes desse tipo: seu pai.
“Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, em sua essência, é uma daquelas comédias com toques antigos, que vai lembrar, em algumas cenas, filmes dirigidos por Cacá Diegues (especialmente quando ele tem aquele aspecto road movie do seu início) e por Blake Edwards (a cena do jantar na casa da personagem da Ângela Vieira poderia ter saído da mente dele). No entanto, a grande surpresa do longa decorre da presença cômica de Tarcísio Meira, fazendo um papel que a tevê nunca lhe deu a chance de interpretar.
Entretanto, a promessa de um filme que faz menções a várias características que são recorrentes na “cultura” brasileira (como a malandragem, o “jeitinho” brasileiro de resolver as coisas e a corrupção que está tão arraigada em nossa sociedade) se perde numa subtrama totalmente dispensável de um crime. Isso faz com que o longa não só saia do seu foco principal, como também obriga o talentoso Gregorio Duvivier a ficar improvisando quase que o tempo inteiro em cima do roteiro, como se tudo o que ele falasse fosse parte daquele show de stand-up comedy que sua personagem encena.
Cotação: 5,0
Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo (2011)
Direção: Hugo Carvana
Roteiro: Paulo Halm
Elenco: Tarcísio Meira, Gregorio Duvivier, Flávia Alessandra, Ângela Vieira, Herson Capri, Antônio Pedro, Mariana Rios, Guilherme Piva
Cena da Semana
(Marcelo Camelo – “Liberdade” – Teatro Riachuelo – 26.08.2011)
Em passagem por Natal para mais um show da turnê do CD “Toque Dela”, Marcelo Camelo pode não ter visto um Teatro Riachuelo completamente lotado, mas as pessoas que ali estavam realmente apreciavam seu trabalho. Ao longo de uma hora e meia de show, num Teatro de acústica perfeita, que privilegiou o tipo de som que ele faz (vamos dar destaque também à iluminação, que estava linda), o que se viu foi um coro grande cantando não só as músicas de sua carreira solo, como também as músicas do Los Hermanos, banda com a qual ele começou a sua carreira musical há 13 anos.
Comparando com os shows que assistimos em Abril, em São Paulo, para a estreia da turnê do CD “Toque Dela”, algumas mudanças no repertório: Marcelo não cantou “Vida Doce”, adicionou “Despedida” e “Santa Chuva” ao setlist e, diante dos pedidos insistentes de um dos membros da plateia, ainda nos brindou com uma versão improvisada e linda de “Casa Pré-Fabricada“, uma das mais belas composições dele, que foi gravada no álbum “Bloco do Eu Sozinho”, do Los Hermanos, em 2001.
Após fazer alguns comentários sobre o show no Twitter, na manhã de sábado (dia 27 de agosto), uma amiga respondeu que a gente passa o dia seguinte a um show do Marcelo meio que flutuando. Eu concordo plenamente com ela. Após assistir a um show dele, a gente se sente leve, feliz e com uma vontade de que esse momento pudesse se repetir muito mais vezes. Ainda mais quando você vem de um show em que ele está muito solto, interagindo com o público e feliz. Que esse momento não espere mais dois anos para acontecer novamente (a última vez que ele tinha estado aqui foi em Abril de 2009). Volte logo, Marcelo! Natal sempre te recebe de braços abertos!
Lope

A cinebiografia “Lope”, produção hispano-brasileira dirigida por Andrucha Waddington, tem como objeto principal de estudo o dramaturgo, poeta e autor de peças teatrais espanhol Félix Lope de Vega y Carpio. Ele é considerado um dos autores mais prolíficos da literatura universal, com uma produção artística composta de 426 comédias e 42 autos, além de obras de poesias, cartas, romances, poemas épicos e burlescos, livros religiosos e históricos, dentre outros gêneros.
O roteiro escrito por Jordi Gasull e Ignacio del Moral segue a trajetória de Lope (Alberto Ammann) no final do século XVI, na Espanha, quando ele havia acabado de retornar para casa depois de um longo período atuando na Invencível Armada durante a Guerra Anglo-Espanhola, e estava tentando se firmar na literatura, notadamente como autor de diversos poemas que, com o tempo, passaram a ser recitados em toda a Espanha. Entretanto, como bem frisa “Lope”, neste período, a personagem principal deste filme obteve grande notoriedade também como autor de peças teatrais no gênero de comédia, primeiro começando como adaptador de outras peças e, depois, conseguindo espaço para a encenação de seus próprios textos.
Seguindo a linha de um filme como “Shakespeare Apaixonado”, de John Madden, “Lope” tem uma abordagem narrativa de sua personagem principal parecida com a que os roteiristas Marc Norman e Tom Stoppard tiveram do maior nome da literatura e do teatro inglês. Félix Lope de Vega y Carpio é retratado como um artista galanteador, romântico e que precisava de uma grande musa para poder se sentir inspirado a ponto de escrever as suas obras. Neste sentido, em “Lope”, temos o autor ligado a duas mulheres distintas: a primeira, Elena Osorio (Pilar López de Ayala), filha do dono do teatro que contrata Lope como adaptador e que abre as portas para o talento artístico dele; e a segunda, Isabel (Leonor Watling), moça de família rica, que trabalha voluntariamente no hospital da cidade cuidando dos doentes e que representa um tipo de amor mais de doação – quase uma Lady Viola de Lesseps, para fazermos, novamente, um paralelo com a história de “Shakespeare Apaixonado”.
Do ponto de vista técnico, “Lope” é uma obra muito bem feita, com destaque para a fotografia de Ricardo Della Rosa; a direção de arte de Lilly Kilvert, César Macarrón, Federico Ghio e Isabel Viñuales e os figurinos de Tatiana Hernández. O diretor Andrucha Waddington entrega um filme muito consistente, com um viés totalmente romântico e uma cara de mini épico, que nos conquista justamente por causa do seu lirismo, resultado da mistura sempre bem-sucedida de amor e poesia. “Lope” é uma agradável surpresa e uma obra que merece ser descoberta.
Cotação: 7,0
Lope (Lope, 2010)
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Jordi Gasull e Ignacio del Moral
Elenco: Leonor Watling, Sonia Braga, Luis Tosar, Pilar López de Ayala, Alberto Ammann, Antonio de la Torre, Selton Mello, Miguel Ángel Muñoz
Os Smurfs

Baseado na história em quadrinhos e na série de desenho animado criada pelo cartunista belga Peyo, que obteve um sucesso grande especialmente na década de 80 (inclusive com um popular jogo de videogame do finado Atari), o filme “Os Smurfs”, do diretor Raja Gosnell, deve ter o objetivo principal de apresentar o universo das pequeninas criaturas azuis que adoram viver contos simples de aventuras corajosas a uma nova geração de crianças que ainda não está familiarizada com estas personagens.
Neste sentido, “Os Smurfs” segue uma fórmula que já está consagrada por outros filmes dirigidos ao público infanto juvenil e alia a técnica de live action com personagens criados via animação em CGI. Portanto, nos seus 86 minutos de duração, podem ser notadas, em “Os Smurfs”, referências textuais e visuais a vários filmes, como “Alvin e os Esquilos”, “Hop – Rebeldes sem Páscoa”, “Encantada” e “Os Pinguins do Papai”.
A trama escrita por J. David Stem, David N. Weiss, Jay Scherick e David Ronn é bastante clichê e está apoiada na superação de obstáculos e inimigos, bem como no aprendizado que transforma as personagens humanas dessa história em seres melhores. Em mais uma fuga do seu algoz Gargamel (Hank Azaria), os Smurfs acabam parando em Nova York, cidade na qual passam a ser peça importante do dia a dia do casal Patrick (Neil Patrick Harris) e Grace Winslow (Jayma Mays). Preste atenção, especialmente, na parte masculina deste par, que não se sente à vontade ainda com a primeira gravidez de sua esposa, com a responsabilidade de se tornar pai e com as pressões que sofre por causa de sua recente promoção no seu ambiente de trabalho – ou seja, é ele quem será mais afetado pela presença dos Smurfs em sua vida e que irá ter aquela lição de moral que são típicas de filmes como esse aqui.
A salada mista de influências contidas em “Os Smurfs” faz com que o filme se revele como uma experiência nada traumática, do ponto de vista cinematográfico. Agora, verdade seja dita: este é um longa que não empolga e que será esquecido a partir do instante em que você sair da sala de cinema. No entanto, para não ser totalmente injusta com o melhor aspecto de “Os Smurfs”, você, com certeza, irá se lembrar da performance totalmente caricatural e exagerada de Hank Azaria como Gargamel. Ele que torna esse filme assistível.
Cotação: 3,5
Os Smurfs (The Smurfs, 2011)
Direção: Raja Gosnell
Roteiro: J. David Stem, David N. Weiss, Jay Scherick e David Ronn (com base na história de J. David Stem e David N. Weiss e nos personagens criados por Peyo)
Elenco: Hank Azaria, Neil Patrick Harris, Jayma Mays, Sofia Vergara, Tim Gunn


