Archive for abril, 2011
O Garoto de Liverpool

Para fazer uma citação direta ao título original de “O Garoto de Liverpool”, filme dirigido por Sam Taylor-Wood, John Lennon (Aaron Johnson) não foi a primeira nem será a última pessoa célebre a ter ouvido que, provavelmente, não iria chegar a lugar nenhum. Na forma como o encontramos neste filme, aliás, sendo um estudante com aquela típica arrogância e insolência dos adolescentes e mais interessado em bagunça e pegar o maior número de meninas possível, provavelmente mesmo, ninguém imaginaria que ele acabaria se transformando num dos líderes da maior banda de rock de todos os tempos.
O roteiro escrito por Matt Greenhalgh nos apresenta a John Lennon na fase em que ele começou a descobrir a música e a ter os primeiros contatos com os instrumentos musicais. Nesse sentido, o caminho adotado por Sam Taylor-Wood lembra muito a abordagem de Taylor Hackford à biografia de Ray Charles, ou seja, o olhar oferecido em cima da figura de Lennon observa a maneira como ele se relacionou diretamente com as duas mulheres mais importantes de sua vida antes da chegada de Yoko Ono: a mãe de criação, sua tia Mimi (Kristin Scott-Thomas), e a mãe biológica, Julia (Anne-Marie Duff).
As duas mulheres representam vertentes diferentes – e necessárias – na vida de qualquer pessoa. Enquanto Mimi era a pessoa que colocava as rédeas substanciais para que John aprendesse determinadas lições, mas, ao mesmo tempo, era sensível o suficiente para dar o primeiro violão e a primeira guitarra do sobrinho; Julia era a efervescência, a influência cultural, o lado que liberava todas as loucuras e criações de John (apresentando, assim, no papel, ela mais parecia uma tia do que mãe, o que, de fato, na verdade, ela nunca o foi para o filho).
Uma cinebiografia de caráter bastante convencional e com cara mesmo daqueles filmes ingleses que prezam pela perfeita reconstituição de época, “O Garoto de Liverpool” acaba ficando como um importante registro da pavimentação do caminho que levou John Lennon à fama ao nos retratar o background do seu ambiente de criação, mostrando-nos quase como foi forjado o caráter dele. Os destaques aqui acabam sendo justamente as personagens e as atrizes que foram responsáveis diretas por isso: Anne Marie-Duff e Kristin Scott-Thomas, cada uma à sua maneira, representando o apoio, o suporte e a permissão para que o filho John, finalmente, se tornasse um balãozinho livre para voar.
Cotação: 7,0
O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, 2009)
Direção: Sam Taylor-Wood
Roteiro: Matt Greenhalgh (com base no livro de autoria de Julia Baird)
Elenco: Aaron Johnson, Kristin Scott-Thomas, David Threlfall, Anne-Marie Duff, David Morrissey
Scott Pilgrim Contra o Mundo

Por trás de toda a sua linguagem moderna e ágil, com influências das graphic novels e de jogos de videogame, o filme “Scott Pilgrim contra o Mundo”, de Edgar Wright, é uma grande comédia romântica. Explicamos: o personagem principal, Scott Pilgrim (Michael Cera), é um jovem tímido, que toca em uma banda de rock e que tem muita sensibilidade dentro de si. Há um ano, ele está na fossa por causa do fim de seu relacionamento com uma garota que acabou virando uma estrela do rock.
Tentando se colocar de novo “na pista”, Scott está ficando com uma jovem de 17 anos chamada Knives Chau (Ellen Wong), que é totalmente groupie de sua banda, mas acaba se vendo perdidamente apaixonado por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), que, por uma coincidência, lembra muito fisicamente a ex-namorada de Scott. A partir deste encontro, “Scott Pilgrim Contra o Mundo” se assume por completo como comédia romântica, uma vez que boa parte do roteiro escrito por Michael Bacall e Edgar Wright se dedica à pintura de Scott como um jovem esforçado em conquistar aquela que se revela a garota de seus sonhos e tendo que equilibrar isso com todas as demandas (e expectativas) de sua vida de músico, de colega de quarto de Wallace (Kieran Culkin) e de irmão de Stacey (Anna Kendrick).
Os elementos de influência das graphic novels, jogos de videogame e mangás vêm do ponto mais inusitado dessa história: para poder conquistar e ficar de vez com a garota, Scott Pilgrim tem que enfrentar – e vencer – em duras batalhas os sete ex-namorados do Mal de Ramona (os quais são representados por atores que vão de Chris Evans a Jason Schwartzman). É como se isso viesse para nos relembrar de que, para garotos como Scott Pilgrim, que fogem do estereótipo machão e que são a vulnerabilidade em estado puro, tudo é mais difícil de ser conquistado…
Diretor de obras como “Chumbo Grosso” e “Todo Mundo Quase Morto”, as quais possuem um caráter de sátira, Edgar Wright acaba surpreendendo bastante no comando de “Scott Pilgrim Contra o Mundo”. Ao contrário desses outros filmes, esta obra tem um propósito bem definido: agradar em cheio ao público jovem nerd e que muitas vezes não se enxerga dentro do universo de protagonismo em comédias românticas. O filme tem um ritmo muito ágil e moderno, algumas tiradas muito engraçadas e uma edição e efeitos visuais que são simplesmente sensacionais. Entretanto, nada dissipa a impressão de que a obra é muito imediatista e que não tem aquele caráter perene ou cult o qual ela tanto se esforça para abraçar.
Cotação: 6,0
Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, 2010)
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Michael Bacall e Edgar Wright (com base na graphic novel de Bryan Lee O’Malley
Elenco: Michael Cera, Allison Pill, Mark Webber, Johnny Simmons, Ellen Wong, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Aubrey Plaza, Mary Elizabeth Winstead, Brandon Routh
Será que é dessa vez, Meryl?

Apesar de muitos afirmarem que Katharine Hepburn é a melhor atriz de cinema de todos os tempos, para a blogueira que vos fala, este título deveria ser ostentado por Meryl Streep. No cinema atual, ou em qualquer tempo, acho que não deve ter existido uma atriz com a capacidade de transformação dela, a ponto de ela ostentar, em sua carreira, uma vasta gama de papeis. Se você acha que Meryl Streep não é capaz de fazer algo, ela vai lá e faz. Se você acha que não existe mais personagem que ela possa interpretar, ela vai lá e nos surpreende.
Se as primeiras fotos liberadas para a imprensa forem um indicativo do que virá pela frente, a persona que Meryl Streep encarnará em “The Iron Lady”, filme da diretora Phyllida Lloyd (que trabalhou com Streep no musical “Mamma Mia!“), será mais uma daquelas performances arrebatadoras da sua carreira – é só prestar atenção na caracterização física da atriz, que deve ser somente o princípio de um daqueles trabalhos completos e que englobam até mesmo o domínio perfeito do sotaque inglês. No longa, ela dará vida à toda poderosa ex-Primeira-Ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, num roteiro que lembra um pouco a abordagem de obras como “A Rainha”, uma vez que falará sobre o exercício de poder e o preço que ele cobra através do retrato de uma mulher complexa e cheia de nuances.
E, sim, sei que todo ano vem a mesma ladainha, mas, depois de 16 indicações ao Oscar e duas vitórias (uma em Atriz Coadjuvante, a outra em Atriz), os comentários vão todos começar novamente: será que é dessa vez que a Meryl conquista seu terceiro – e tão esperado – Oscar? Ela vem batendo na trave há 27 anos! Neste sentido, é importante mencionar que uma de suas fortes concorrentes, em 2011, será uma outra atriz bastante overdue: Glenn Close, por “Albert Nobbs”, de Rodrigo Garcia, filme no qual Close também tem uma transformação física grande. O outro adversário mais forte de Streep na busca pelo terceiro Oscar é ela mesma. As pessoas esperam tanto dela que acham que ela só vai vencer se apresentar uma faceta completamente diferente como atriz. Mas, como exigir isso de uma atriz que já demonstrou ser completa??? Acho que os votantes da AMPAS precisam começar a enxergar a Meryl Streep como ela merece ser vista: como alguém igual a Kate Winslet, que tem uma vontade de vencer enorme sempre que é indicada. Ela quer tanto mais uma estatueta dourada que a maior prova disso é ela continuar nos brindando com performances sensacionais, até mesmo quando ela está nos filmes mais leves. Só que, para isso, a briga vai ser grande! E a luta continua, Meryl!
Cena da Semana
(Chegadas e Partidas - GNT)
Milton Nascimento escreveu sobre os encontros e despedidas da vida em uma estação, numa música que ganhou uma versão definitiva na voz de Maria Rita. O programa que a apresentadora Astrid Fontenelle apresenta desde março, todas as quartas-feiras, às 21h30, no canal GNT, é a visão televisiva e real desta canção. Seguindo uma tendência que é corrente na TV atual, a de buscar histórias inspiradas no cotidiano, Astrid e equipe gravaram 13 episódios no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, em busca de personagens que aguardam ou se despedem de alguém e de contos que sejam comuns, mas que possuem aquele caráter de identificação conosco, uma vez que todos nós sabemos como é o sentimento das pessoas reais que estão ali na nossa tela. E é difícil não se emocionar com algumas das histórias que Astrid e equipe encontram, como essa aí que destacamos ou como a dos irmãos que não se viam há 18 anos, desde que um deles foi morar no Japão, e que foi ao ar no programa desta semana. Isso é que é reality show de verdade!
Fúria Sobre Rodas

Não temos um ano cinematográfico de verdade, se não encontramos um filme trash em que Nicolas Cage aparece atuando de uma forma completamente robótica – fato que tem se tornado um elemento constante em sua carreira nos últimos anos. Em 2011, ele está se esforçando ao máximo para isso. Se não deu certo em “Caça às Bruxas” (o filme não é tão ruim quanto a gente pensava e Cage nem compromete muito…), ele conseguiu o que queria com “Fúria Sobre Rodas”, do diretor Patrick Lussier.
Na obra, Cage interpreta um personagem que é uma variação de muitos tipos que ele também tem interpretado nos últimos anos. Milton sai da prisão para executar uma última missão: vingar a morte de sua filha e tentar salvar a sua neta de ser sacrificada pelo líder (Billy Burke) de um grupo de magia negra. Nessa jornada de três dias, ele acaba ganhando a companhia de duas figuras bastante inusitadas: uma jovem (Amber Heard) que sabe se defender como ninguém e o Contador (William Fichtner), que trabalha diretamente com o demônio em si.
Até esta obra, o diretor Patrick Lussier só havia trabalhado no gênero de suspense/terror. “Fúria Sobre Rodas” acaba sendo uma experiência diferente para ele no sentido de que não tem o objetivo de fazer você ficar assustado. O filme também não está aí para lhe divertir. A obra, na realidade, vai é chocar os olhares um pouco familiarizados com elementos da linguagem cinematográfica. Talvez, até mesmo sabendo do caráter trash de sua obra, o diretor tenha colocado um tom over na apresentação da trama, acentuando desde as atuações dos atores até à concepção completamente artificial e mal feita dos efeitos especiais.
Quanto a Nicolas Cage, não sei se ele tem consciência de que essa sua persona recente, nos filmes, já virou motivos para piadas. Não sei se ele se diverte fazendo esse tipo de filme. Nem sei se ele realmente aceita pagar esses micos porque está falido. Mas, há que se elogiar o senso de humor dele, a capacidade dele rir de si próprio e o profissionalismo dele em divulgar seus trabalhos como se eles fossem lhe render um novo Oscar de Melhor Ator. Em 2011, ele ainda vai dar as caras no cinema por mais duas vezes: uma num filme de Roger Donaldson (pode ser promissor) e a segunda numa obra de Joel Schumacher (MEDO!). Continue tentando, Nic.
Cotação: 2,0
Fúria Sobre Rodas (Drive Angry, 2011)
Direção: Patrick Lussier
Roteiro: Todd Farmer e Patrick Lussier
Elenco: Nicolas Cage, Amber Heard, William Fichtner, Billy Burke, David Morse, Todd Farmer, Jack McGee


