Archive for março, 2011

Passe Livre

Se “Passe Livre”, comédia dos irmãos Bobby e Peter Farrelly, fosse produzido no Brasil, os roteiristas nem precisariam correr muito atrás de inspiração. Era só pegar a letra de “Vale Night”, canção da banda baiana Asa de Águia que garante a promessa de permitir aos foliões aproveitarem o Carnaval e pular a cerca ao mesmo tempo, sem prejuízo de verem seus relacionamentos amorosos irem por água abaixo. Garanto que os diretores norte-americanos nem sabiam dessa…

A diferença do que eles planejaram para o filme deles e a versão nacional do Asa de Águia é que, no longa, temos dois homens chamados Rick (Owen Wilson) e Fred (Jason Sudeikis) que são bem casados com Maggie (Jenna Fischer) e Grace (Christina Applegate), mas não se eximem de fazer aquele comentário sacana sobre aquela mulher, de apreciar a beleza de uma moça ou de flertar abertamente com a vendedora de café. Cansadas de terem que censurar seus maridos, as esposas dão uma prova de modernidade e dão à Rick e Fred um passe livre de uma semana, para eles fazerem o que eles quiserem, sem correr o risco de levarem um pé na bunda.

Vocês, homens, devem pensar que Rick e Fred possuem as mulheres dos sonhos de qualquer um, mas a intenção de Bobby e Peter Farrelly desde o início desses filmes era mostrar justamente o contrário. Homens como Rick e Fred, quando estão com a rédea solta, não sabem o que fazer diante das mulheres. Aliás, o que os dois diretores mostram é justamente o fato de as mulheres, hoje em dia, ditarem as regras. São elas, diga-se de passagem, as mais beneficiadas com esse passe livre, porque elas, além de livres e independentes, chamam a atenção de homens de todas as idades, mentalidades e grupos.

A boa notícia de “Passe Livre” é que temos um filme dos irmãos Bobby e Peter Farrelly  que se livra de toda aquela cafajestagem que é comum às obras dele. Saem as cenas de mau gosto (tudo bem que, aqui, temos uma que é de péssimo gosto), mas entram aquelas cenas de comédia pura, em que o objetivo maior é fazer você se contorcer na cadeira de tanto rir. Jason Sudeikis consegue isso, mas é triste ver Owen Wilson desestimulado e perdendo aquele total timing cômico que um dia ele possuiu.

Cotação: 3,0

Passe Livre (Hall Pass, 2011)
Direção: Bobby e Peter Farrelly
Roteiro: Pete Jones, Peter Farrelly, Bobby Farrelly e Kevin Barnett
Elenco: Owen Wilson, Jason Sudeikis, Jenna Fischer, Christina Applegate, Richard Jenkins, Stephen Merchant, Alyssa Milano

março 31, 2011 at 10:40 pm 16 comentários

Gnomeu e Julieta

Muita gente fala sobre a crise de ideias de Hollywood e sobre a falta de originalidade no roteiro e nas histórias abordadas. A animação “Gnomeu e Julieta”, da diretora Kelly Asbury, está tão ciente disso que, no seu prólogo de abertura, coloca um personagem fazendo um alerta à plateia: sim, a história a que assistiremos já foi contada milhões de vezes, das mais diversas maneiras, nas mais diversas formas de comunicação. Entretanto, “Gnomeu e Julieta” propõe-se a fazer uma versão diferenciada da clássica história de William Shakespeare.

Após os 84 minutos de duração do filme, chegamos à conclusão de que o prólogo realmente não nos enganou em nenhum momento. A animação pega a história de Romeu e Julieta, jovens que vivem um amor proibido devido à desavença existente entre suas famílias e a transporta para dois jardins de duas residências de um subúrbio inglês. As casas são rivais e os duendes que ali vivem e cuidam daqueles ambientes também levam a mesma rivalidade a sério.

As diferenças entre o que assistimos em “Gnomeu e Julieta” e o que conhecemos da peça de William Shakespeare é que o roteiro desta animação acrescenta alguns elementos novos à este mítico romance. Por exemplo: num filme dirigido às crianças, não dá para se ter um final infeliz, então, existe uma mudança para não deixar os pimpolhos tristes com o desfecho, mas não antes, é claro, de fazer um suspense em torno da possibilidade ou não deste final feliz existir.

O segundo elemento novo presente na trama deste filme é o uso das músicas do cantor inglês Elton John como pano de fundo para o nascimento do romance entre Gnomeu (dublado por James McAvoy na versão original) e Julieta (dublada por Emily Blunt na versão original), ao ponto destas canções se transformarem num importante personagem para o desenrolar deste longa, uma vez que elas também funcionam como elemento de crônica à rotina dos duendes que ali vivem.

Uma obra carismática e com ótimo senso de humor, “Gnomeu e Julieta” consegue ser a primeira animação a se destacar em 2011 justamente por ter elementos, em sua história, que apelam demais ao público infantil. A lamentar, no filme, somente dois pontos: o primeiro, a falta de necessidade do uso da tecnologia 3D aqui, uma vez que ela mal pode ser notada; a segunda, o não envio de cópias legendadas ao Brasil. A dublagem de Vanessa Giácomo e Daniel de Oliveira (casal de atores na ficção e na vida real) é muito fraca. Somente Ingrid Guimarães se destaca com um ótimo trabalho feito na personagem Nanette.

Cotação: 7,5

Gnomeu e Julieta (Gnomeo & Juliet, 2011)
Direção: Kelly Asbury
Roteiro: Kelly Asbury, Mark Burton, Kevin Cecil, Emily Cook, Kathy Greenberg, Andy Riley (com base na peça de William Shakespeare e no roteiro escrito por Steve Hamilton Shaw, John R.Smith e Rob Sprackling)

março 31, 2011 at 1:50 am 16 comentários

Uma Análise de “Big Love”*

*Atenção aos spoilers.

Foi ao ar, no último dia 27 de março, na HBO Brasil, após cinco temporadas, o series finale de “Big Love”, série criada pela dupla Mark V. Olsen e Will Scheffer. Considerando a premissa um tanto polêmica do programa (as histórias eram centradas em uma família de mórmons fundamentalistas que praticavam a poligamia) e o fato de que os Estados Unidos podem ser um país um tanto conservador nesse sentido, até que o seriado ficou bastante tempo no ar. A explicação para isso é muito fácil: o carisma das personagens que formavam as sister-wives – Barbara Henrickson (Jeanne Tripplehorn), Nicolette Grant (Chloe Sevigny) e Margene Heffman (Ginnifer Goodwin) – e a jornada pessoal de Bill Henrickson (Bill Paxton), o personagem principal.

Analisando as cinco temporadas de “Big Love”, dá para se perceber o quanto que a história evoluiu. Com o tempo, o programa deixou de enfocar a luta de Bill por manter o segredo de sua família e a batalha interna com o patriarca Roman Grant (Harry Dean Stanton), pai de sua segunda esposa, Nikki, por causa da comunidade de Juniper Creek (foi ali que Bill nasceu e cresceu, antes de ter sido expulso por ele). A dualidade, aliás, entre a vida de Bill e sua família na cidade (onde ele era um empresário respeitado e bem-sucedido) e a vida em segredo dos valores perpetrados por Juniper Creek (comunidade que segue fielmente os preceitos da religião Mórmon do século XIX, com o casamento plural) foi um dos elementos mais importantes dessa narrativa, uma vez que Bill é descendente direto daqueles que eles acreditam ser o Profeta da religião e uma das maiores motivações de Bill era recuperar o prestígio e a influência de sua família (hoje, renegada) dentro da própria comunidade de Juniper Creek.

Bill Henrickson, diga-se de passagem, é um personagem que merece um destaque especial dentro das cinco temporadas de “Big Love”, porque foi ele quem mais mudou nesse período todo. Um homem que sempre advogou em causa própria, Bill é aquele tipo de pessoa que segue fielmente o princípio, a ponto de embasar toda a sua vida em cima desses preceitos. A realidade é que Bill sempre teve um complexo de mártir que o norteou desde o primeiro momento desse programa. Passada a vontade de ser o salvador de Juniper Creek, ele decidiu ser o messias do estilo de vida de sua própria família, ao, após ser eleito Deputado Estadual, se assumir publicamente como polígamo e passar a lutar pela aceitação dessa sua escolha, tentando afastar a vergonha que uma vida como essa passa para a maioria das pessoas.

Por outro lado, Bill, por muitas vezes, pareceu ser egoísta, um homem completamente insensível às necessidades das suas esposas. Tudo que ele passou com Barbara, com Nikki (a esposa que, talvez, mais entendesse as vontades dele, uma vez que ela é a própria personificação do tradicionalismo de Juniper Creek que Bill tanto valorizava) e Margene foi completamente compreensível, pois, por mais que ele dissesse que a família vinha sempre em primeiro lugar, no final, o que importava era aquilo que Bill pensava. Ele impôs coisas muito severas às suas esposas e filhos, os quais acatavam as decisões de Bill incondicionalmente. E isso é mais uma coisa a se valorizar dentro de “Big Love”: a questão do esteio familiar (mesmo que, nesse caso aqui, ele seja completamente inusitado) e do apoio (mesmo vindo à base de muito sofrimento e reflexão).

“Big Love” terminou no momento certo, em seguida a uma quarta temporada que foi quase que o beijo de morte do seriado, uma vez que o programa começou a seguir um rumo muito complicado e do qual quase não tinha mais volta – foram bastante noticiados, até, críticas da atriz Chloe Sevigny, nesse sentido (e olha que esse foi o melhor ano que ela teve no seriado, como atriz, chegando a vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante). A partir dessa reviravolta, “Big Love” voltou à sua essência: a jornada de um homem pela compreensão daquilo que ele é e do que ele escolheu para si próprio. Talvez, por isso mesmo, a cena contendo o desfecho de Bill seja tão reveladora daquilo que é a sociedade atual, uma vez que temos muita intolerância dentro de nós mesmos e são vários os exemplos disso dentro do nosso dia a dia. Mais poderoso do que esse momento, só se for mesmo a cena final entre as três sister-wives, mulheres tão diferentes em personalidades, mas unidas por um mesmo propósito: o amor por um homem e pelos laços que todas elas firmaram com ele (e isso está muito bem representado pela linda música “God Only Knows”, do Beach Boys, que foi, por tanto tempo, a música de abertura do seriado). “Big Love”, com certeza, se redimiu. Pena que não há mais tempo para o reconhecimento em forma de prêmios…

Big Love (2006-2011)
Criação: Mark V. Olsen e Will Scheffer
Elenco: Bill Paxton, Jeanne Tripplehorn, Chloe Sevigny, Ginnifer Goodwin, Douglas Smith, Grace Zabriskie, Mary Kay Place, Matt Ross, Amanda Seyfried, Shawn Doyle, Melora Walters, Daveigh Chase, Bruce Dern, Harry Dean Stanton
Uma produção HBO

março 29, 2011 at 11:17 pm 9 comentários

Rango

À primeira vista, chama a atenção em “Rango”, filme de animação da Paramount, os nomes que encabeçam a ficha técnica da obra. Além do diretor Gore Verbinski (de franquias populares do cinema como “Piratas do Caribe”), temos o roteirista John Logan (que tem um currículo respeitadíssimo e foi indicado a dois Oscars por “Gladiador” e “O Aviador”). Em segundo lugar, temos um protagonista inusitado, um camaleão chamado Rango (dublado na versão original por Johnny Depp), alguém que não sabe ainda o papel que deve desempenhar em vida e que, talvez, por isso, tenha uma enorme imaginação.

O longa retrata a jornada deste personagem principal, que se vê perdido, um dia, em uma pequena e empoeirada cidade do Velho Oeste. Uma das coisas que salta à vista em Rango é que ele é um líder nato, então, nesta cidadezinha, ele acaba assumindo a liderança das tarefas e acaba movimentando o dia a dia da comunidade, especialmente porque faz de seu objetivo naquele local a luta para preservar a água que é tão escassa em uma cidade que é aplacada por um enorme calor (uma briga por um bem maior que, na verdade, vem satisfazer o próprio bem de Rango, que está com uma sede terrível desde que começou a viagem dele por aquele deserto).

Se temos um heroi que é cheio de particularidades, a cidade na qual Rango finca raízes também revela-se um ambiente repleto de pessoas como ele, que possuem boa vontade (ou não, uma vez que sempre fica essa sensação dúbia), mas não sabem ainda o que fazer de suas vidas ou que ainda não sabem qual o tipo de papel certo a ser desempenhado. É nesse cenário e na medida em que os acontecimentos do roteiro vão se desenrolando que se desenha a verdadeira motivação desse filme: retratar o momento em que se é forçado (ou não) o nascimento de um heroi, em que se revela quem tem mesmo as qualidades para exercer esta função.

Repleto de referências à cultura pop, ao universo dos filmes westerns, com uma direção ágil em que sempre tem algo diferente e interessante acontecendo, “Rango” acaba sendo um filme muito “acelerado” para as crianças, o que faz com que ele seja muito mais adequado aos adultos. É fato que estamos diante também de uma obra que não possui aqueles elementos clássicos dos filmes de animação. O interesse de “Rango” não é estabelecer uma lição de moral ou ensinar alguma coisa importante sobre a vida aos pequenos. O filme está aí para entreter. É justamente por ter esta intenção diferenciada que “Rango” merece uma conferida.

Cotação: 6,5

Rango (Rango, 2011)
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: John Logan (com base na história de Gore Verbinski e James Ward Byrkit)
Com as vozes de: Johnny Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Ned Beatty, Alfred Molina, Bill Nighy, Harry Dean Stanton, Timothy Olyphant, Ray Winstone, Vincent Kartheiser

março 28, 2011 at 11:22 pm 15 comentários

Cena da Semana*

*Atenção aos spoilers.

(Asas [1927] – dir: William A. Wellman)

Primeiro longa da história a vencer o Oscar de Melhor Filme, em 1927, “Asas”, do diretor William A. Wellman, conta a história de dois jovens de uma mesma cidade norte-americana que se alistam no Exército para servirem no Corpo Aéreo. Um exemplar do cinema mudo, “Asas” faz um retrato bastante fiel da vida dos jovens que se veem com a grande responsabilidade de lutarem por seu país. Tudo está em tela: desde a inocência de antes da Guerra ser declarada, passando pelo período de treinamento, chegando ao momento de batalha no front e culminando com a volta para casa para uma vida que, agora, é cheia de marcas da vivência no conflito.

Hoje em dia, se parece um tanto datada, “Asas” vale muito mais pelo seu valor histórico. Um filme de narrativa um tanto lenta e bastante longa, a obra encontra sua perenidade nas sequências de combate aéreo, que foram filmadas com uma competência que impressiona até mesmo a nós, que estamos mais acostumados com cenas filmadas com precisão quase cirúrgicas e repletas de efeitos especiais – que “Asas”, diga-se de passagem, também possui. Mas, esses efeitos, aqui, são tão discretos (uma vez que é importante mencionar que, naquela época, os efeitos eram tão “grosseiros” que saltavam à olhos vistos) que também acabam impressionando a gente.

Essa cena fica como o mais belo momento de uma obra que é um registro importante sobre a dureza da guerra para aqueles que a combatem, como também sobre os laços de amizade que são forjados entre aqueles que passam por experiências desse tipo.

março 27, 2011 at 9:08 pm 12 comentários

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Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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