Archive for junho, 2010
Comentando o Trailer de “Tropa de Elite 2″
É certo dizer que, desde “Cidade de Deus”, somente “Tropa de Elite” ocasionou um impacto considerável, principalmente na indústria cinematográfica brasileira. Com sua história de fundo, o filme se transformou, rapidamente, em um fenômeno de crítica e, especialmente, de público. O importante é perceber que, mesmo tendo caído no imaginário – e no gosto - popular, “Tropa de Elite” causou também uma enorme discussão ética e crítica dentro de nosso país, uma vez que falava sobre grandes feridas da sociedade brasileira – hipocrisia, corrupção, violência e todo o círculo vicioso que envolve estes temas.
Não se sabe ainda se a sequência “Tropa de Elite 2″, também dirigida por José Padilha (autor do roteiro da continuação), atingirá o mesmo nível de repercussão, entretanto, uma primeira olhada no trailer divulgado hoje já nos mostra que o longa não vai abaixar a cabeça e continuará seguindo a linha de crítica social.
Agora, o Capitão Nascimento (Wagner Moura) trabalha na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e o BOPE se transformou num importante elemento de combate à guerra social que é vista diariamente nas entranhas da capital carioca. O interessante do trailer é que ele nos revela que Nascimento ganhou uma espécie de nova “consciência”. Seu alvo prioritário, agora, não são mais os bandidos, e sim o sistema policial/o sistema carcerário/o sistema judiciário, enfim, todas aquelas engrenagens que formam a cadeia de tomada de decisões. Pode ser até meio precipitado dizer isso, mas, talvez, Nascimento tenha visto tudo aquilo em que ele acreditava ruir, após ele passar a ver as coisas sob outra perspectiva…
Muito bom também de ver nesta continuação que boa parte do elenco de “Tropa de Elite” estará de volta (além do já citado Moura, temos Maria Ribeiro, André Ramiro, Milhem Cortaz). Fora as novas adições de atores que já provaram sua competência em outros filmes, como Seu Jorge, Irandhir Santos e Tainá Muller. “Tropa de Elite 2″ estreia no dia 13 de agosto.
Esquadrão Classe A

Baseado em uma série que foi ao ar, nos anos 80, durante cinco temporadas, na rede de televisão norte-americana NBC (no Brasil, a série foi ao ar, por exemplo, no SBT e na Rede Globo), “Esquadrão Classe A”, do diretor Joe Carnahan, fala sobre um grupo de militares do Exército norte-americano, que são adicionados à lista de mais procurados por terem sido considerados criminosos de guerra (aqui temos um clichê, na medida em que o grupo afirma, categoricamente, que não é responsável pelos crimes dos quais são acusados). Em decorrência disso, eles se transformam numa equipe de mercenários e, se forem encontrados, podem solucionar os problemas mais sérios de qualquer pessoa/organização.
No roteiro escrito por Joe Carnahan, Brian Bloom e Skip Woods, o Coronel John “Hannibal” Smith (Liam Neeson), o Tenente Templeton “Faceman” Peck (Bradley Cooper), Bosco Albert “B.A.” Baracus (Quinton “Rampage” Jackson) e H.M. Murdock (Sharlto Copley) estão destacados na retirada do Exército dos EUA do Iraque quando são convocados para uma missão bastante delicada: recuperar placas matrizes utilizadas para a fabricação de dólares norte-americanos. Tal material, se caísse nas mãos dos destinatários (países como Irã e o próprio Iraque) seriam utilizados para a compra de armamento ou, quem sabe, de material para a fabricação dos mesmos.
Como um filme desse não pode sobreviver sem a presença de um – de preferência – bom antagonista, somos apresentados às duas figuras que oferecem um contraponto à dos membros do Esquadrão Classe A: o Agente Lynch (Patrick Wilson), que trabalha para a CIA e é quem irá arregimentar o grupo para a missão; e a Capitão Charisa Sosa (Jessica Biel), que é funcionária do Departamento de Estado da Presidência dos Estados Unidos e também tem um interesse especial na recuperação das placas matrizes, assim como nos membros do grupo liderado pelo Coronel Hannibal Smith.
A favor de “Esquadrão Classe A” o fato de que o filme conta com um diretor como Joe Carnahan, que sempre imprime um ritmo muito ágil às suas obras, com uma linguagem cinematográfica bem moderna e que vai de encontro ao que público alvo de obras assim deseja. Em consequência disso, “Esquadrão Classe A” tem tudo para se destacar nesta temporada de Verão norte-americano com um dos blockbusters que mais irão entreter as plateias globais. A obra segue muito a receita de “Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo” no sentido de nos oferecer de tudo um pouco, sem esquecer, é claro, de priorizar as cenas de ação de tirar o fôlego. Um outro ponto forte deste longa foi a escalação do elenco. Todos se adequaram bem aos seus papeis – apesar do retrato caricato do “vilão” feito por Patrick Wilson. “Esquadrão Classe A” é uma daquelas obras que – acertadamente – não se leva a sério.
Cotação: 7,3
Esquadrão Classe A (The A-Team, 2010)
Direção: Joe Carnahan
Roteiro: Joe Carnahan, Brian Bloom, Skip Woods (com base no seriado criado por Stephen J. Canell e Frank Lupo)
Elenco: Liam Neeson, Bradley Cooper, Quinton “Rampage” Jackson, Sharlto Copley, Jessica Biel, Patrick Wilson
Cena da Semana*
(Meryl Streep at 60: A Retrospective Celebration by Nathaniel Rogers)
Porque um dia nós olharemos para nossos filhos e netos e diremos: “tive o prazer de ver Meryl Streep atuando!”.
*No dia 22 de junho, Meryl Streep celebrou seu 61º aniversário. Vida longa àquela que é a maior atriz de cinema de todos os tempos.
Lendo – A Bela e a Fera
“Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução”. (p. 26)

“A Bela e a Fera” é um livro que reúne oito contos escritos por Clarice Lispector nos anos de 1940, 1941 e 1977 (o da morte dela). Apesar de terem sido concebidos em momentos de vida distintos da escritora, todos os contos presentes nesta obra possuem um denominador comum: eles têm como personagens principais pessoas que tentam reencontrar-se, muitas vezes após viverem ou estarem em momentos adversos. Um outro ponto similar entre os contos é que eles mostram situações em que pode até existir a vontade, mas se falta a coragem (exceto nos casos de “Obsessão” e “Um Dia a Menos”) para tentar modificar o estado em que as coisas se encontram.
O primeiro conto, “Felicidade Interrompida”, fala sobre uma mulher que teve seu futuro ceifado por circunstâncias que lhe fogem ao controle, mas, com as quais, ela terá que aprender a conviver, por mais difícil que seja. O segundo, “Gertrudes Pede um Conselho”, nos coloca diante que alguém que percebe que existir é o bastante. O terceiro, “Obsessão”, mostra uma mulher que não tem medo do “e se?”, toma uma decisão e tem a humildade de voltar para a sua antiga vida, após tentar conhecer o novo. O quarto, “O Delírio”, retrata os pensamentos desconexos de um enfermo em seu leito. O quinto, “A Fuga”, é bem peculiar, pois nos remete um tanto à Laura Brown (a melhor personagem do lindo livro “As Horas”, de Michael Cunningham), uma vez que a protagonista do conto é alguém que não acredita pertencer à realidade em que está inserida e se apoia na possibilidade de escapar de tudo isso como um alento. O sexto, “Mais Dois Bêbedos”, é uma conversa de bar meio embaçada, que só deve fazer sentido mesmo porque estamos diante de dois seres alcoolizados. O sétimo, “Um Dia a Menos”, é sobre o dia definitivo e sobre como as circunstâncias que levam à morte podem ser um tanto triviais. O oitavo – e último -, “A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais”, que dá nome ao livro, mostra uma linda mulher que descobre o lado primitivo que existe dentro dela mesma.
“A Bela e a Fera” nos coloca diante de doses homeopáticas do único estilo de escrever de Clarice Lispector. Interessante perceber que mesmo diante de contos cujas estruturas são bem simples (se é que se pode dizer que qualquer coisa vinda de Clarice é simples), podemos notar as principais características da prosa da escritora: o fraseado pungente, cortante e intenso, que mexe com a gente e que faz com que nós nos coloquemos dentro da história. Também é muito interessante ver que, nos oito contos, encontramos aquela grande motivação de Clarice: conhecer o ser humano, as suas emoções e as suas idiossincrasias. Além disso, temos também aquele grande achado da Literatura de Clarice Lispector: o fato de que, muitas vezes, diante das mais banais situações de vida, diante de algo que nem parece ser especial, chegamos ao momento de realização em que encontramos aquilo que somos. E isso irá bastar.
A Bela e a Fera (1999 – Publicação original em 1979)
Editora: Rocco
Autora: Clarice Lispector
Cartas para Julieta

Dentre algumas das maiores histórias de amor de todos os tempos, com certeza, uma das mais favoritas do público é aquela que envolve dois jovens da cidade italiana de Verona, numa trama de amor, paixão e tragédia. É justamente “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, o grande motivo de inspiração por trás do roteiro de “Cartas para Julieta”, do diretor Gary Winick. Por sua vez, o filme também faz referência a uma popular atração turística da cidade de Verona – um corredor em que amantes que se desencontraram em algum momento da vida de seus parceiros deixam cartas e bilhetes com súplicas por um reencontro.
Amanda Seyfried é Sophie, jovem que parte para a romântica cidade italiana com o noivo Victor (Gael García Bernal). O relacionamento deles, ao que tudo indica, está naquela fase meio acomodada, em que eles não fazem mais questão de encantarem um ao outro, fora que eles parecem meio distantes em momentos de vida: ela quer se encontrar profissionalmente, enquanto ele está dando muito mais atenção aos planos de abertura de seu restaurante. Portanto, quando Sophie acha a carta escrita por Claire (Vanessa Redgrave), em 1951, nas paredes da Casa de Julieta, ela encontra toda uma nova motivação e sua vida ganha, em muitos sentidos, muito mais brilho.
Entretanto, antes de chegarmos nesta parte, é importante explicar que Sophie, nas suas andanças turísticas em Verona, acabou encontrando um grupo de mulheres que respondiam essas cartas deixadas pelos turistas na Casa de Julieta contando um pouco de suas histórias de desencontros amorosos. Motivada pelo que essas mulheres fazem, Sophie decide responder à carta deixada por Claire. Para surpresa dela, as suas palavras comovem a senhora, que retorna para a Itália em busca de seu amado, Lorenzo (Franco Nero, marido de Redgrave na vida real), depois de todos esses anos, ao lado de seu neto Charlie (Christopher Egan).
Toda a essência por trás de “Cartas Para Julieta” está na cena em que Claire lê a carta que Sophie lhe escreveu. Não estamos aqui para estragar este momento para aqueles que ainda não assistiram ao filme, mas a mensagem que o longa quer passar é que é necessário muita coragem para perceber que nunca é tarde demais para se viver o amor, especialmente quando ele é verdadeiro, porque o que é verdadeiro dura para sempre. Você pode até pensar que esta é uma visão um tanto romântica e boba sobre o amor, mas é para isto que servem obras como “Cartas Para Julieta”: elas querem nos fazer crer que ter amor e ser feliz é mais que possível.
Cotação: 7,0
Cartas Para Julieta (Letters to Juliet, 2010)
Direção: Gary Winick
Roteiro: Jose Rivera e Tim Sullivan
Elenco: Amanda Seyfried, Gael Garcia Bernal, Christopher Egan, Vanessa Redgrave, Franco Nero


