Archive for maio, 2010
Cena da Semana*
*Não recomendável para aqueles que ainda não assistiram ao filme.
(Liza Minnelli cantando “Single Ladies” – Sex and the City 2 [2010] – diretor: Michael Patrick King)
Eu amei essa cena, amei mesmo. Mas, ela tem um enorme potencial de me causar pesadelos à noite. Só digo uma coisa: Liza Minnelli é MUITO corajosa! rsrsrsrsrrsrsrs
A Jovem Victoria

Os primeiros minutos de “A Jovem Victoria”, de Jean-Marc Vallée, são brilhantes no sentido de nos apresentar à personagem principal deste filme. Victoria (Emily Blunt) nasceu em 1819 e estava destinada a ser a governante máxima da Inglaterra após a morte de seu tio. Por ser uma pessoa especial, Victoria cresceu cheia de cuidados e regras. Qualquer pessoa, aliás, tremeria diante das responsabilidades que ela enfrentaria, no futuro, mas não Victoria. Ela ansiava pelo dia em que seu reinado se iniciaria, pois esta jornada significaria a liberdade para ela, que, finalmente, tomaria conta de sua própria vida.
Escrito por Julian Fellowes, “A Jovem Victoria” enfoca justamente os primeiros anos de reinado de Victoria. Ela ascendeu ao trono quando tinha 18 anos e aprendeu, na prática, com erros e acertos, o que consistia ser a rainha de um povo, sendo sujeita aos interesses dos outros, à avaliação de seus súditos e à possibilidade de ser a marionete nas mãos daqueles que deveriam auxiliá-la. Nesta parte aqui, chama a atenção o fato de que Victoria tem a humildade de escutar os outros, mas quer fazer de seu reinado o produto das decisões que ela mesma tomou.
Tirando a questão política, talvez, a parte mais importante de “A Jovem Victoria” seja a abordagem da história de amor que ela viveu com o Príncipe Albert (Rupert Friend). Antes mesmo de ela ascender ao poder, os dois já estavam se cortejando, mas o casamento só veio um bom tempo depois, especialmente quando Victoria percebe a solidão do poder. Então, fora a difícil tarefa de ser Rainha de um país, Victoria tem que também dar atenção ao marido e à sua vida conjugal. E, ao contrário da atitude dela diante dos seus conselheiros, Victoria percebe que o marido (que, assim como ela, foi preparado e destinado ao poder) pode ser um grande – e importante – aliado no exercício de seu reinado – e que isso, principalmente, não deve ser visto por um lado ruim, como se fosse uma fraqueza dela ser influenciada por ele.
É incrível, aliás, perceber que “A Jovem Victoria” fala sobre todos esses temas em 105 minutos de duração. A trama nunca chega a nos cansar, pelo contrário, o filme nos envolve bastante na jornada da personagem principal. O diretor Jean-Marc Vallée chama a atenção pelo cuidado com a parte técnica do filme, especialmente com as excelentes direção de arte e trabalho de figurinos. A se lamentar somente o fato de que “A Rainha Victoria” termina quando a impressão que dá é que ainda tinha tanta coisa para contar. Fiquei com gosto de quero mais.
Cotação: 9,0
A Jovem Victoria (The Young Victoria, 2009)
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Julian Fellowes
Elenco: Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Mark Strong, Jim Broadbent, Thomas Kretschmann
Um Homem Sério

Existem certos momentos da vida da gente em que nós sentimos como se estivéssemos vivendo um inferno astral porque só recebemos uma notícia ruim atrás da outra. Nestes casos, existem duas opções: ou a pessoa irá pirar ou irá enfrentar tudo com muita força e naturalidade. O professor de física Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) passará por uma fase dessas de forma serena – apesar de ele estar, literalmente, se desmoronando por dentro.
No decorrer de “Um Homem Sério”, filme dos irmãos Ethan e Joel Coen, Larry vai ver o mundo em que ele acredita ruir por completo. Sua esposa Judith (Sari Wagner Lennick) está deixando-o, pois se apaixonou por um dos seus colegas (Fred Melamed). O irmão Arthur (Richard Kind) vive lhe causando problemas. Os dois filhos (Aaron Wolff e Jessica McManus) não o respeitam. E, no trabalho, Larry vive a expectativa de ser efetivado ou não na universidade aonde ele dá aulas.
De origem judaica, Larry segue os conselhos de alguns amigos mais próximos e se volta à religião. Ele procura conforto nas palavras de três diferentes rabinos. No final, o que ele vai depreender disso tudo é que a vida não somente é uma caixinha de surpresas, como é um verdadeiro teste, em que momentos tristes e alegres se revezam de forma a nos fazer alcançar uma verdadeira perspectiva daquilo que somos e do que somos feitos.
Antes de assistir a “Um Homem Sério”, eu pensava que este filme era mais uma daquelas comédias non-sense que os irmãos Coen, de vez em quando, costumam fazer. Ledo engano. O filme é um drama sobre o cotidiano, sobre o nosso dia a dia, sobre encarar a vida por aquilo que ela é. Fundamental nessa proposta é a excelente performance de Michael Stuhlbarg. Ele conquista a nossa empatia logo de cara.
Cotação: 7,5
Um Homem Sério (A Serious Man, 2009)
Direção: Joel e Ethan Coen
Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Aaron Wolff, Jessica McManus, Sari Wagner Lennick
Aconteceu em Woodstock

Entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, foi realizado na cidade de Bethel (EUA), o festival de música Woodstock, que prometia entregar e proporcionar aos seus espectadores 3 dias de muita música e paz. Por muitos fatores, este festival acabou se tornando icônico e representante máximo de uma época em que a liberdade de amar, de pensar, de viver, de experimentar, de ser, de sentir era a coisa mais importante a se fazer.
O filme “Aconteceu em Woodstock”, do diretor Ang Lee, fala sobre como este fato histórico acabou influenciando a vida de Elliot Teichberg (Demetri Martin). Desginer, filho de pais (Imelda Staunton e Henry Goodman, ambos excelentes) donos de um motel localizado justamente na cidade de Bethel. Elliot deixa seus planos pessoais de lado e investe tudo aquilo que tem para livrar o negócio da família e, consequentemente, seus pais da falência. Elliot tem muita visão e planos, mas esbarra sempre nas limitações de pensamento das pessoas de sua cidade bem como de seus próprios pais.
Esta situação vai ficar ainda mais crítica quando Elliot ambiciona se unir a um grupo de amigos nova-iorquinos e expandir o pequeno festival de música que faz nos arredores do motel naquilo que se tornaria Woodstock. Portanto, grande parte do filme de Ang Lee se dedica a mostrar Elliot se relacionando com os hippies do festival que migram em quantidade absurda para a sua pequena cidade e ocupam os campos e os espaços ao redor de seu empreendimento familiar. Este pequeno caos pacífico também influencia na relação de Elliot com seus pais, bem como na dinâmica de sua cidadezinha.
Se Ang Lee e seu habitual parceiro James Schamus acertam na abordagem narrativa do núcleo familiar de Elliot, a dupla erra na construção dos demais personagens (tem gente que aparece e sai de cena sem maiores explicações), em mostrar subtramas que nunca decolam (por quê não mostrar mais as tensões existentes dentro da própria cidade em decorrência da realização do festival?), em colocar cenas desnecessárias (a que conta com a participação de Paul Dano, por exemplo) e, principalmente, por não enxergar a ocorrência de Woodstock como uma metáfora de mudança, porque a vida de todas aquelas pessoas nunca mais seria a mesma após o término daqueles três dias especiais.
Cotação: 7,0
Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, 2009)
Direção: Ang Lee
Roteiro: James Schamus (com base no livro de Elliot Tiber e Tom Monte)
Elenco: Demetri Martin, Imelda Staunton, Henry Goodman, Liev Schreiber, Jonathan Groff, Eugene Levy, Emile Hirsch, Paul Dano, Mamie Gummer
Lendo – Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
“… alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indagues demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém”. (p. 115)

Em muitos aspectos, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” é um dos livros mais complexos e, ao mesmo tempo, mais simples escritos por Clarice Lispector. Complexo porque seus personagens instigam a gente a querer mergulhar cada vez mais no íntimo deles. Simples porque sua intenção e missão é totalmente clara. A história que Lispector nos relata é a jornada de uma mulher chamada Lóri em busca de aprender algo que todos nós deveríamos valorizar: a capacidade de reconhecer a beleza dos momentos da vida, até daqueles que nos parecem ser mais frívolos e triviais – e vivê-los da mesma forma intensa quanto aqueles que nos são mais caros.
Toda a jornada vivida por Lóri tem um único objetivo: o homem que ela ama, o professor Ulisses só a aceitará como mulher quando achar que ela está pronta. O estar pronta, para ele, significa que Lóri tem que, além de tudo, amar a si mesma primeiro para poder se entregar a um outro alguém. Neste jogo, quem dá as cartas totalmente é Ulisses – ele que toma todas as decisões referentes à relação. O tempo inteiro, ele mostra para Lóri que a conhece muito bem e sabe quem ela é (inclusive, é ele que joga a verdade na cara dela: a de que ela se esconde atrás da dor, para não viver plenamente). Enquanto isso, Lóri, confusa e perdida, tem que se descobrir como mulher.
“Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” mexe com conceitos bem interessantes. Apesar do medo da entrega, Lóri se sente totalmente atraída por Ulisses – porém, não sabe lidar com sua própria sexualidade, sensualidade e beleza. Os dois são muito vaidosos e gostam da maneira como um enxerga o outro. O conhecimento dele gera desejo nela. O mistério dela gera desejo nele. E, neste ínterim, Lóri aprende a sentir, a ser independente, a descobrir, a brincar com seus limites – sempre, é importante frisar, mantendo aquele medo e frio na barriga dentro de si.
Neste sentido, a impressão que fica, ao final da leitura de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” é a de que fomos testemunhas de uma longa preliminar entre um casal. Tudo que lemos culmina no capítulo final da obra (que é bem sensual, sem cair na vulgaridade), o qual relata o encontro definitivo de Ulisses e Lóri como homem e mulher, quando ambos experimentam da intensidade daquilo que sentem e que ficaram guardando dentro de si por tanto tempo. E é justamente daí que vem o maior aprendizado de Lóri: “sei que meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo”. A jornada de Lóri, portanto, está só começando.
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco


