Archive for fevereiro, 2010

Cena da Semana

(A cantada de Mike em Sue – O Amor Pede Passagem [2008] – diretor: Stephen Belber)

Pense numa cantada constrangedora. E eu acho que a Sue caiu no papo do Mike por sentir pena dele.

fevereiro 28, 2010 at 8:47 pm 13 comentários

Lendo – “Clarice,”

“Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar”. (Clarice Lispector)

Eu não consigo me esquecer da primeira vez em que vi uma imagem em vídeo da escritora Clarice Lispector.   Tal encontro meu com Clarice aconteceu quando eu estava na faculdade e, enquanto zapeava nos canais da televisão, parei na imagem de uma mulher de olhar desafiador (mas que pouco encarava seu entrevistador), que ficava em silêncios atordoantes e que não fazia a mínima questão de demonstrar simpatia ou o sentimento de estar à vontade naquela situação.

Confesso: Clarice me assustou, me deixou angustiada e suas lacônicas frases, acompanhadas de uma sinceridade cortante, foram quase como um soco no estômago. Foi inevitável, após isso, querer ler alguma coisa dela e assim comecei pelo seu derradeiro livro “A Hora da Estrela”, que foi lançado em outubro de 1977, justamente dois meses antes da morte de Lispector, a qual aconteceu em 9 de dezembro de 1977 (um dia antes do seu aniversário de 57 anos), no Rio de Janeiro. 

(A título de curiosidade, como fiquei sabendo no decorrer da leitura de “Clarice,”, biografia escrita pelo norte-americano Benjamin Moser, a entrevista concedida à TV Cultura, em fevereiro de 1977, a qual pode ser encontrada na íntegra no YouTube, é o único registro da mítica escritora em vídeo.) 

A entrevista concedida à TV Cultura é só um dos exemplos que comprovam a fama de mulher enigmática e de Esfinge que Clarice Lispector possuía entre aqueles que a conheciam e aqueles cujo contato se restringia à leitura dos livros que ela escrevia. Uma frase clássica dela, neste sentido: “uma das coisas que me deixam infeliz é essa história de monstro sagrado: os outros me temem à toa, e a gente termina temendo a si própria. A verdade é que algumas pessoas criaram um mito em torno de mim, o            que me atrapalha muito: afasta as pessoas e eu fico sozinha. Mas você sabe que sou de trato muito simples, mesmo que a alma seja complexa. O sucesso quase me fez mal: encarei o sucesso como uma invasão. Mesmo o sucesso quando pequeno, como o que tenho às vezes, me perturba o ouvido interno”. (p. 526) 

Os muitos capítulos de “Clarice,” são o resultado direto do impacto que as palavras que ela escreveu, ao longo de sua vida literária, teve sobre aqueles que conheceram a sua obra. Tá na cara que Benjamin Moser – para continuar com a analogia da Esfinge – foi um dos muitos devorados pela escrita de Clarice e se sentiu compelido a tentar desvendar o mistério mesmo que foi a vida dela – a qual, diga-se de passagem, foi a grande matéria-prima da arte de Lispector. Ela escrevia para tentar encontrar a si mesma ou, como ela mesma dizia, “para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria”. (p. 103). 

A leitura de “Clarice,” me reservou inúmeras surpresas – todas elas relacionadas à figura da própria escritora. Talvez, por sempre ter tido essa imagem forte da entrevista da TV Cultura na minha mente, vislumbrava Clarice como uma alma angustiada e cheia de problemas (ela era, efetivamente, assim e chegou uma época de sua vida em que tornou praticamente uma caricatura de si mesma, uma mulher com singularidades excêntricas e que era uma pessoa totalmente imprevisível). Entretanto, a escritora também foi uma mulher que – apesar de todo o seu retrospecto sofrido – se realizou de uma forma plena pessoal (casamento – mesmo que desfeito – e filhos amados e queridos) e profissionalmente (livros publicados e traduzidos em inúmeros países, objeto de estudos em diversas línguas). Mesmo assim, nada era simples para ela: “Eu procuro fazer o que se deve fazer, e ser como se deve ser, e me adaptar ao ambiente em que vivo – tudo isso eu consigo, mas com o prejuízo do meu equilíbrio íntimo, eu o sinto.” (p. 241) 

Em seu livro, Benjamin Moser explora todas as diversas facetas de Clarice – as mais públicas, as mais míticas e aquelas que ficaram na privacidade. Mas, o autor vai muito mais além e consegue a proeza de nos deixar mais próximos de alguém que era, sem sombra de dúvidas, totalmente inatingível – porque a verdade é que Clarice se abriu por completo para muitos poucos. A biografia “Clarice,” é extensa (apesar de que senti falta de ver fotos dos muitos momentos de vida da escritora e de ver os locais descritos por Moser) e é uma consequência de um belo trabalho de pesquisa feito pelo norte-americano (sugiro ler os capítulos acompanhados de suas notas de rodapé, as quais se encontram ao final do livro). E imagino que ele tenha ficado, de certa maneira, orgulhoso, porque, contra todos os obstáculos, até mesmo aqueles que foram vislumbrados pela sua homenageada (Clarice sempre disse que seria muito difícil para alguém escrever uma biografia sobre ela), ele conseguiu! Se éramos decifrados e devorados pela Esfinge Clarice Lispector, agora teremos a chance de fazer o contrário.

Clarice, (2009)
Autor: Benjamin Moser
Editora: CosacNaify

fevereiro 27, 2010 at 3:12 am 19 comentários

Snow Angels

No seu prólogo, “Snow Angels”, filme escrito e dirigido por David Gordon Green, faz uso de um verdadeiro clichê cinematográfico e televisivo. A cena nos mostra o seguinte cenário: uma banda marcial de um colégio norte-americano ensaia seu tradicional número para a apresentação que é feita durante os jogos do time de futebol americano da cidade quando o barulho de tiros disparados chama a atenção de todos. Em seguida, somos deparados com o letreiro que nos mostra a seguinte frase: “semanas antes”. Ou seja, temos a desculpa que faltava para acompanharmos o desenrolar dos acontecimentos que levaram a esta cena em questão.

Entretanto, durante boa parte de “Snow Angels”, vai ficar difícil tentar desvendar do que este filme trata. Na maior parte das cenas, seguimos a rotina diária daqueles que trabalham em um restaurante chinês – em especial, os seus problemas pessoais, o relacionamento dentro do ambiente de trabalho e, como muitas vezes, as maiores questões das vidas de todos eles acabam se confundindo com o lado profissional. O filme só começa a esquentar mesmo a partir do primeiro ponto de transição desta história: uma pequena tragédia que irá afetar todos eles. 

Mesmo assim, quando isto acontece, o diretor e roteirista David Gordon Green já perdeu a atenção completa de sua plateia. Assistir “Snow Angels” é ficar pronto para se distrair em vários momentos, para não se importar com estes personagens e para encarar um roteiro que é altamente previsível a partir do momento em que os grandes conflitos vão se desenrolando. Fica fácil saber aonde a tragédia irá atingir seu ponto mais alto. O impressionante – e difícil de aceitar mesmo, no caso de alguns personagens deste longa – é perceber o quão facilmente a vida continua após ela acontecer. 

Cotação: 4,0

Snow Angels (Snow Angels, 2006)
Direção: David Gordon Green
Roteiro: David Gordon Green
Elenco: Kate Beckinsale, Sam Rockwell, Michael Angarano, Olivia Thirlby

fevereiro 26, 2010 at 3:40 am 12 comentários

Infâmia

É impossível olhar para Mary e não se lembrar de Briony Tallis (Saoirse Ronan, numa atuação indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Em comum entre as duas, além da pouca idade, o fato de que ambas falaram uma mentira que ganhou enormes proporções e que acabou, de certa forma, causando um efeito negativo e irreversível na vida de algumas pessoas. A diferença é que, ao contrário de Briony, que foi movida pela sua inexperiência de vida e por ciúmes, Mary tem um instinto maquiavélico dentro de si mesma. Ela é uma mentirosa compulsiva e utiliza de táticas como chantagem e manipulação emocional para fazer com que algumas pessoas façam exatamente aquilo que ela deseja – fato que chega a ser chocante, afinal estamos falando somente de uma criança. 

“Infâmia”, filme dirigido por William Wyler, tem um roteiro (escrito com base na peça de Lillian Hellman) que vai fundamentar muito bem o por quê da mentira criada por Mary ter sido aceita e propagada na pequena cidade aonde Karen Wright (Audrey Hepburn) e Martha Dobie (Shirley MacLaine) mantêm uma escola para garotas. As duas professoras se conheceram na faculdade e são amigas muito próximas e carinhosas uma com a outra. Para “agravar” a suspeita de que as duas, na cabeça de Mary, teriam um caso homossexual, tem a acusação da tia de Martha (Miriam Hopkins) de que esta estaria com ciúmes do iminente casamento de Karen com o médico Joe Cardin (James Garner). 

Além de falar sobre como um simples boato pode acabar trucidando com a vida de alguém – nesse caso, a de duas mulheres jovens, que estavam trabalhando duro para colocarem um sonho e projeto de vida em prática -, “Infâmia” fala a respeito de temas como honra e como a mentira criada acaba fincando raízes na própria vida daquelas pessoas que são vítimas dela, criando desconfiança nos relacionamentos e fazendo com que Martha, especialmente, passe a questionar tudo aquilo que está reprimido dentro dela mesma – o que chega a ser uma discussão interessante, mas que perde força porque é toda jogada para um último ato em que tudo acontece rápido demais. 

Obra indicada a 5 Oscars, em 1962, “Infâmia” é um filme que tem uma característica totalmente teatral – coisa óbvia, afinal estamos falando da adaptação de uma peça de teatro. Toda a direção de William Wyler tem como objetivo realçar o trabalho dos atores (preste atenção nas magistrais atuações de Shirley MacLaine, Fay Bainter e na da jovem Karen Balkin – basta dizer que ela será a criança que você mais vai odiar por um bom tempo) e do roteiro. Uma pena, como já dissemos, é o fato de que, no seu ato final, “Infâmia” opte por colocar uma série de acontecimentos interessantes e que seriam pontos de transição importantes nesta história todos acontecendo ao mesmo tempo – o que faz com que a obra perca parte de seu impacto, mas, mesmo assim, não deixa de ser um filme pungente e triste. 

Cotação: 9,5

Infâmia (The Children’s Hour, 1961)
Direção: William Wyler
Roteiro: John Michael Hayes e Lillian Hellman (com base na peça de autoria de Hellman)
Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Miriam Hopkins, Fay Bainter, Karen Balkin, Veronica Cartwright

fevereiro 24, 2010 at 9:33 pm 20 comentários

Abraços Partidos

Na primeira cena de “Abraços Partidos”, filme espanhol escrito e dirigido por Pedro Almodóvar somos apresentados a Harry Caine (Lluís Homar), um roteirista cego que nos informa que, numa época não muito distante de sua vida, antes de ele se assumir sob este pseudônimo e com esta profissão, ele teve uma vida bastante real como diretor de cinema sob o seu verdadeiro nome: Mateo Blanco. Ainda nesta primeira cena, temos uma vivacidade enorme, coisa típica dos filmes de Almodóvar, afinal Harry é um homem sedutor, passional e que sabe como conduzir uma mulher àquilo que ele deseja. 

Entretanto, esta vivacidade termina a partir da segunda cena de “Abraços Partidos”. O filme tem uma característica muito introvertida (apesar de ter algumas frases bem-humoradas típicas do universo de Almodóvar), uma vez que a descoberta da morte de alguém – neste caso, do empresário Ernesto Martel (José Luis Gómez) desencadeia uma história que coloca Harry Caine revivendo feridas não-cicatrizadas de 14 anos atrás, quando ele estava no processo de produção daquele que seria seu derradeiro filme e conheceu Magdalena (Penélope Cruz), aquela que seria o grande amor de sua vida. 

Harry Caine é obrigado a voltar ao passado por diversas razões. Não só porque foi ali que a vida como Mateo Blanco acabou para ele, mas também porque ele precisa reencontrar toda esta parte de sua existência de forma a poder encerrá-la de vez e retomar sua vida da maneira certa. O interessante é perceber que o roteiro escrito por Pedro Almodóvar usa a volta ao passado de Harry como uma forma de vários outros personagens, como a fiel escudeira de Harry, Judit García (Blanca Portillo), e o estranho Ray X (Rubén Ochandiano) acertarem também suas contas com o protagonista de “Abraços Partidos”. 

O resultado é que “Abraços Partidos” é uma verdadeira miscelânea de sentimentos. Talvez, por isso, o filme carece de uma certa regularidade (em certos pontos, a história parece se alongar demais), porque temos diversos pontos de vistas, diversas motivações, diversos detalhes a prestar atenção. No final, o que importa é colocar o olhar por completo no eixo deste longa, porque “Abraços Partidos”, apesar de ter elementos de drama, comédia e suspense, é uma jornada que fala sobre amor e sobre poder ter a chance de um limpo recomeço sem ameaças ou qualquer tipo de dor. 

Cotação: 7,0

Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, 2009)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Rubén Ochandiano, Tamar Novas, Lola Dueñas

fevereiro 24, 2010 at 2:36 am 30 comentários

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A autora

Kamila tem 29 anos, é cinéfila, leitora voraz, escuta muita música e é vidrada em seriados de TV, além de shows de premiações.

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