Archive for janeiro, 2010
Cena da Semana
(A sequência de dança de “500 Dias com Ela” [2009] – diretor: Marc Webb)
Ah, o amor! Olha o que ele nos faz!
“I can laugh it in the face
Twist and shout my way out
And wrap yourself around me
‘Cause I ain’t the way you found me
And I’ll never be the same oh yeah
Well ’cause You (ooh ooh ooh ooh) hmmm hmm you make my dreams come true (you
you you you) oh yeah
Well well well you (ooh ooh ooh ooh) ooh you make my dreams come true (you
you you you) oh yeah”
500 Dias com Ela

Não precisa nem da eficiente narração de Richard McGonagle para saber que o casal central de “500 Dias com Ela”, filme de Marc Webb, não terá um final feliz. Também não precisa ser a pessoa mais experiente na arte do amor para saber que Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel), apesar de bastante compatíveis um com o outro, são aquele tipo de casal que não adianta querer forçar a conexão, especialmente se eles se encontram em momentos de vida completamente diferentes, em que cada um tem uma expectativa a respeito de um relacionamento e daquilo que espera de seu parceiro.
O roteiro escrito por Scott Neustadter e Michael H. Weber é bem claro no sentido de nos mostrar as diferenças entre Tom e Summer. Enquanto ele acredita piamente naquela noção do amor verdadeiro, que cada pessoa tem a sua cara metade e que, provavelmente, ao encontrá-la, ele viverá feliz para sempre; Summer, uma filha de um lar desfeito, não acredita na instituição do casamento, ou no amor em si, e pula de relacionamento casual em relacionamento casual, sem se deixar se envolver muito pela pessoa.
“500 Dias com Ela” também é muito claro em seu título, uma vez que acompanhamos, no filme, um processo que tem a perspectiva da parte mais otimista deste par. Tom nos relembra daquele sentimento de euforia que é comum à descoberta da paixão e, principalmente, à possibilidade de vivê-la. Porém, ao mesmo tempo, Tom é o retrato vivo de que o amor é uma via de duas mãos. De nada adianta ter tanto amor para dar se não existe algo para se receber em troca. Isso só traz infelicidade.
Por isso, a decisão de enfocar o roteiro no olhar de Tom se revela a mais acertada por parte dos roteiristas. “500 Dias com Ela” é uma comédia romântica totalmente diferente daquelas que conhecemos. Especialmente pelo fato de colocar em confronto uma visão realista sobre o amor (Summer) e uma visão idealizada do sentimento (Tom). No final, ficamos todos nós com uma bela lição: não existe destino, nem universo conspirando para que algo aconteça. O que existe de mais determinante nos nossos dias é a coincidência. O fato de termos uma rotina e dos eventos que vivemos serem totalmente ordinários e comuns. A coincidência, a casualidade é o que faz o amor acontecer – se não com uma pessoa, com outra, com mais outra…
Cotação: 9,0
500 Dias com Summer ((500) Days of Summer, 2009)
Diretor: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Clark Gregg, Minka Kelly
Sherlock Holmes

Um personagem clássico da literatura inglesa, Sherlock Holmes foi criado pelo escritor Arthur Conan Doyle e apareceu pela primeira vez em um romance publicado originalmente em novembro de 1887. Desde então, ele já figurou em cerca de 4 livros e 5 séries de contos; fora as cerca de 223 aparições em obras cinematográficas e televisivas. Em 2009, o diretor Guy Ritchie decidiu apresentar uma versão mais moderna do personagem e é a esta visão que assistimos no filme “Sherlock Holmes”.
O roteiro, que foi escrito por Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg, tem uma estrutura típica de um bom filme de ação e aventura. Temos o protagonista, o lendário investigador Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.); os personagens secundários, que enriquecem a trama, como o fiel escudeiro John Watson (Jude Law, retornando após uma ausência de dois anos), o Inspetor Lestrade (Eddie Marsan), a jovem Mary (Kelly Reilly) e a rival Irene Adler (Rachel McAdams); e, principalmente, o antagonista, Lorde Blackwood (Mark Strong).
No começo do filme, Holmes e Watson prenderam Blackwood no que seria uma espécie de ritual de magia negra. Condenado à forca, o caso de Blackwood já parecia estar encerrado, mas Holmes não conseguia seguir adiante com novas investigações. Quando o Inspetor Lestrade descobre que Blackwood, na realidade, não faleceu, Holmes e Watson voltam à ativa em uma busca que os trará problemas, emoção, correria e muita, mas muita adrenalina – em segundo plano, fica aqui uma interessante abordagem: a do forte laço de amizade que une Sherlock e John, uma vez que os dois são muito fieis um ao outro, se cuidam mutuamente e seriam capaz de morrer se isso significasse salvar a vida de um deles.
O diretor Guy Ritchie viveu um período negro na sua carreira cinematográfica, especialmente durante a época em que se manteve casado com a popstar Madonna. “Sherlock Holmes” foi o primeiro filme que ele fez após se separar dela (mais precisamente quando eles estavam na fase de divórcio). Portanto, existia uma pressão muito grande nos ombros do inglês, não só por ele estar lidando com um clássico personagem da literatura de seu país, como também pelo fato de que esta obra poderia ser fundamental para suas pretensões futuras na indústria.
O longa que ele entregou foi uma obra excelente do ponto de vista técnico, especialmente no que diz respeito à direção de arte, figurino e à montagem inspirada de certas cenas. Mas, talvez, a maior contribuição de Ritchie ao personagem tenha sido oferecer ao seu protagonista um tom ácido e sarcástico, que cai como uma luva para o intérprete escolhido por ele (Robert Downey Jr.), o qual vive também um momento único em sua carreira. Enfim, “Sherlock Holmes” é um filme que é uma sucessão de acertos, que não se leva a sério nos momentos certos e que é uma vibrante obra de ação e aventura.
Cotação: 8,0
Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, 2009)
Diretor: Guy Ritchie
Roteiro: Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg (com base na história de Lionel Wigram e Michael Robert Johnson e nos personagens criados por Arthur Conan Doyle)
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Mark Strong, Rachel McAdams, Eddie Marsan, Kelly Reilly
Julie & Julia

Para tentar compreender o por quê da jornada vivida por Julie Powell (Amy Adams, adorável como sempre), no decorrer do filme “Julie & Julia”, o qual foi escrito e dirigido por Nora Ephron, é necessário conhecer um pouco da trajetória da chef de cozinha norte-americana, apresentadora de TV e autora de diversos livros sobre culinária Julia Child (Meryl Streep, a favorita ao Oscar 2010 de Melhor Atriz).
Child foi a responsável por introduzir ao público norte-americano, com uma linguagem didática e simples, a culinária francesa. Ela descomplicou o assunto e fez parecer com que atos aparentemente difíceis como desossar um pato fossem ridículos de tão fáceis. Apesar de terem vivido em épocas completamente diferentes, o que o roteiro de “Julie & Julia” nos mostra é que estas duas personagens possuíam muita coisa em comum.
Em primeiro lugar, as duas são mulheres de extremo talento e potencial. Em segundo lugar, as duas sabiam exatamente o que queriam e fizeram as escolhas certas para colocarem seus sonhos em prática – Julia, uma admiradora da boa comida, foi estudar na celebrada Le Cordon Bleu; enquanto Julie, que desejava seguir carreira como escritora, mas nunca conseguia colocar seus projetos em frente, decidiu se dedicar por completo a uma nova tentativa de transformar isso em realidade, mesmo que isso significasse colocar seu emprego real e seu casamento em risco. Por falar neste tema, é nele que reside a terceira semelhança entre essas duas mulheres: ambas eram casadas com homens (Stanley Tucci e Chris Messina) que as amavam e apoiavam incondicionalmente.
O roteiro de “Julie & Julia” tem uma estrutura muito interessante. Na medida em que segue Julie em seu projeto de criar um blog para contar a experiência em que ela, no período de um ano, tentará fazer as 524 receitas do clássico livro de Julia Child, “Mastering the Art of French Cooking”; nos retrata como foi o caminho de Child até ela descobrir que gostaria de estudar culinária e, consequentemente, escrever um livro com duas amigas francesas introduzindo a cozinha do país na sua terra natal.
Em grande parte da sua duração “Julie & Julia” é um típico filme de Nora Ephron, ou seja, estamos diante de uma obra leve, descompromissada, com personagens femininas fortes. No entanto, o filme tem alguns pontos de discussão interessantes, o maior deles, no entanto, com certeza, é o fato de ele nos retratar que tudo é possível desde que tenhamos força, apoio e estrutura para seguir em frente. E este aspecto é um ponto muito legal, porque ver parcerias como as das duas mulheres com seus maridos é algo raro no universo dos filmes da Ephron.
Cotação: 9,5
Julie & Julia (Julie & Julia, 2009)
Diretora: Nora Ephron
Roteiro: Nora Ephron (com base nos livros de Julie Powell; Julia Child e Alex Proud’homme)
Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Mary Lynn Rajskub, Jane Lynch, Casey Wilson, Linda Emond
Alô, Alô, Terezinha

Quando eu era criança, me lembro que as tardes de sábado, na minha casa, ficavam bem mais animadas quando entrava no ar a seguinte música: “Abelardo Barbosa, está com tudo e não está prosa, menino levado da Breca, o Chacrinha faz gracinha na buzina e discoteca. Ô Terezinha, Ô Terezinha, é um barato o Cassino do Chacrinha”. Por incrível que pareça, o documentário “Alô, Alô, Terezinha”, do diretor Nelson Hoineff, não se propõe a desvendar a trajetória pessoal e profissional do apresentador de TV que foi um verdadeiro fenômeno de comunicação.
Através dos depoimentos de artistas que eram convidados frequentes de seu programa, de pessoas que trabalhavam com ele, de membros da família, de ex-calouros, das Chacretes, vemos muito mais qual foi o impacto de Abelardo Barbosa na vida deles e o que o contato pessoal e profissional com ele os proporcionou. Eles falam também sobre o que Chacrinha representou para a televisão, com suas frases de impacto, cara de pau, visão e criatividade.
Esta, justamente, talvez, seja a maior falha do documentário porque Chacrinha é uma figura interessante e que permitiria uma melhor abordagem. Ao longo de “Alô, Alô, Terezinha”, várias perguntas sobre ele são lançadas sem receber nenhuma resposta adequada. Abelardo Barbosa continuará sendo um mistério para nós, ao final da sessão da obra, uma vez que Chacrinha, o apresentador, nós conhecemos bem.
Entretanto, nem tudo é um problema nesse documentário. O tom é digno de Chacrinha, cheio de escracho, e algumas cenas são impagáveis (a de Biafra, por exemplo, cantando, “Sonho de Ícaro” é um hit no YouTube). Agora, não dá para negar que existe muita melancolia nesse filme, especialmente em relação à maioria das ex-Chacretes. Chega a ser triste ver algumas delas vestindo roupas do passado, tentando reviver uma glória que há muito tempo foi perdida. A verdade é que, hoje, infelizmente, não haveria espaço na TV para um Chacrinha.
Cotação: 7,0
Alô, Alô, Terezinha (2009)
Diretor: Nelson Hoineff
Roteiro: Newton Cannito e Nelson Hoineff


