Archive for janeiro, 2009
O Curioso Caso de Benjamin Button

Quando crianças, nós aprendemos nas aulas de Ciências que o ser humano passa por um ciclo vital, o qual é dividido em quatro etapas: o nascimento, o crescimento, o envelhecimento e a morte. O título do filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, do diretor David Fincher, já é auto-explicativo e nos mostra que o personagem principal da película é alguém diferente. A característica que distingue Benjamin Button dos demais seres é que ele segue o ciclo vital de forma contrária, ou seja, nasce como um velho no corpo de um bebê e morre como um idoso que possui a aparência de um nenê.
Esta história nos é relatada por Caroline (a sumida Julia Ormond), que está no leito de morte da mãe, Daisy Fuller (Cate Blanchett), na Nova Orleans que está prestes a ser atacada pelo Furacão Katrina. Ela está lendo o diário de Benjamin, o qual foi entregue para Daisy. Os dois se conheceram porque a mãe de Caroline era neta de uma das idosas que viviam na casa de repouso em que Benjamin Button foi acolhido e criado como se fosse o próprio filho de Queenie (Taraji P. Henson), a cuidadora dos velhinhos que ali moravam. Acontece que Benjamin e Daisy, além de grandes amigos, vivenciaram um bonito romance.
Na quarta temporada de “Six Feet Under”, o personagem George Sibley (que era interpretado por James Cromwell) falou uma frase que se adequa perfeitamente ao que assistimos em “O Curioso Caso de Benjamin Button”: “A vida é uma série de acidentes. É um após o outro”. Nada na existência do personagem principal foi planejado. Ele foi vivendo a vida dele na medida em que aceitava ou recusava oportunidades. O interessante é perceber que esta maneira de encarar a vida parece ser algo compartilhado pelos personagens secundários, os quais são tão interessantes quanto Benjamin.
“O Curioso Caso de Benjamin Button” é um daqueles filmes que não possui cenas grandiosas, mas que guarda momentos muito íntimos e belos. O longa é, provavelmente, o trabalho mais maduro de um excelente diretor. David Fincher, aqui, se mostra sensível e interessado em tentar nos mostrar o que é a grande essência da vida. O roteiro de Eric Roth e Robin Swicord fala muito sobre o fato de que não podemos voltar atrás e esperar que tudo volte a ser como era antes. Devemos aproveitar ao máximo cada dia e valorizar toda experiência que vivemos – mesmo que elas sejam extremamente dolorosas. Esta mensagem nos é apresentada através da congruência dos excelentes profissionais contratados para auxiliar David Fincher. Desde a direção de arte, passando pelos figurinos e pela fotografia, até chegarmos à trilha sonora e aos efeitos visuais; tudo foi feito com extremo cuidado – e isto se refletiu no dia 22 de Janeiro, quando as indicações ao Oscar 2009 formas ser anunciadas e este filme acabou sendo o longa com o maior número de menções aos prêmios da Academia (ao total foram 13).
Cotação: 9,0
O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008 )
Diretor: David Fincher
Roteiro: Eric Roth e Robin Swicord (com base no conto de F. Scott Fitzgerald)
Elenco: Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Taraji P. Henson, Elle Fanning, Brad Pitt, Tilda Swinton
Leonera

Quando vemos, pela primeira vez, Julia Zárate (Martina Gusman), a personagem principal do filme argentino “Leonera”, do diretor Pablo Trapero, ela está meio alheia à realidade na qual está inserida. Quando ela acorda para a situação, se vê presa pelo assassinato de seu ex-namorado (a apatia da personagem é reforçada pelo detalhe de que ela não se lembra de nenhuma minúcia sobre a noite do crime) e jogada em uma penitenciária feminina, mais precisamente numa ala destinada a mulheres que possuem filhos ou estão grávidas – o caso de Julia é o último.
Por um bom tempo, a personagem continuará distante do mundo em que vive. E é neste clima que se desenvolve o primeiro ato de “Leonera”, quando vemos Julia estabelecendo relacionamentos com as outras presas e procurando nestas – especialmente na figura de Marta (Laura García), com quem ela passará a ter um romance – aquilo que lhe foi negado enquanto ela estava em liberdade: amor, carinho, cumplicidade e proteção.
Tudo isto será elevado a mais alta potência após Julia dar a luz ao filho Tomás. A transformação da personagem, a partir daqui, passa a ser algo notável. De conformada, ela se torna alguém mais forte e decidida a lutar pelos seus direitos. Para fazer uma analogia com uma figura que nos é bastante conhecida, Julia se transforma numa verdadeira leoa em tudo aquilo que está relacionado ao seu filho Tomás – o problema é que ser mãe e presidiária, ao mesmo tempo, pode ser algo que não pode ser conciliável ou bem entendido, especialmente pelas pessoas que foram deixadas do lado de fora da prisão.
Filme selecionado para ser o representante da Argentina na disputa por uma das vagas na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2009, “Leonera” é uma obra que toca em temas bastante interessantes, como a vida das mulheres encarceradas e, principalmente, sobre aquelas que possuem coragem o suficiente para gerar vida em um local que, muitas vezes, pode significar o fim de alguém. Não é preciso ser mãe para compreender os atos cometidos por Julia em defesa – e por amor – ao seu filho Tomás. E, talvez, seja este o ponto mais positivo do trabalho do diretor Pablo Trapero.
Cotação: 7,0
Leonera (Leonera, 2008 )
Diretor: Pablo Trapero
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero
Elenco: Martina Gusman, Elli Medeiros, Rodrigo Santoro, Laura García
Se Eu Fosse Você 2

O ditado popular nos diz que um raio nunca poderá cair em um mesmo lugar. O roteiro de “Se Eu Fosse Você 2”, continuação da bem-sucedida comédia de 2006, nos mostra justamente uma situação que foge a esta regra – afinal, mais uma vez, veremos o casal Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) trocando de corpos, um passando a viver a vida do outro.
Em filmes cujos personagens passaram por algo parecido, como o ótimo “Sexta-Feira Muito Louca”, podemos perceber que a troca de corpos ocorre porque os personagens precisam aprender algo. No primeiro filme, Cláudio e Helena sofriam com a rotina de sua relação e necessitavam se compreender mais e ser tolerantes um com o outro. Pelas primeiras cenas de “Se Eu Fosse Você 2”, fica claro que eles não compreenderam bem a lição que tiveram e vão ter que passar pelo “transtorno” de se colocar na pele do outro novamente – desta vez, para aparar as arestas de um casamento desfeito em meio à descoberta da gravidez da filha adolescente (Isabelle Drummond) e dos planos dela de contrair matrimônio com o namorado Olavinho (Bernardo Mendes).
No seu final de semana de estréia, “Se Eu Fosse Você 2” bateu recordes de bilheteria, se transformando no filme brasileiro que mais atraiu público nos últimos quatorze anos. As razões por trás de tanto sucesso são bem fáceis de serem compreendidas. O roteiro de René Belmont, Adriana Falcão e Euclydes Marinho aborda situações corriqueiras, de fácil identificação conosco. As cenas acabam sendo, por isso mesmo, genuinamente engraçadas e comoventes. Além disso, o longa conta com duas virtuoses da atuação brasileira: Tony Ramos e Glória Pires, os quais dominam por completo seus personagens e estão visivelmente se divertindo em tela. O show é todo deles.
Cotação: 8,0
Se Eu Fosse Você 2 (2009)
Diretor: Daniel Filho
Roteiro: René Belmont, Adriana Falcão, Euclydes Marinho (com base na história de Daniel Filho)
Elenco: Glória Pires, Tony Ramos, Francisco Anísio, Maria Luiza Mendonça, Ary Fontoura, Cássio Gabus Mendes, Vivianne Pasmanter, Adriane Galisteu, Isabelle Drummond, Bernardo Mendes
Sete Vidas

O filme “Sete Vidas”, do diretor Gabriele Muccino, segue muito a linha de seu trabalho anterior, “À Procura da Felicidade”, uma vez que quer contar uma história inspiradora e que faça com que a platéia reflita a respeito de seus atos e de suas vidas. Portanto, já na primeira cena da obra, somos brindados com uma frase de bastante efeito: “Em sete dias, Deus criou o mundo. Eu precisei de sete segundos para destruir o meu”. O eu da frase em questão é o narrador do longa, o auditor fiscal Ben Thomas (Will Smith).
Está claro que Ben é alguém que carrega todo o peso do mundo em suas costas e que causou uma enorme dose de sofrimento a um determinado grupo de pessoas. É justamente o sentimento de culpa que move o personagem no decorrer dos 118 minutos de projeção de “Sete Vidas”. O filme irá nos mostrar as diversas tentativas de Ben Thomas em ajudar sete pessoas – as quais foram escolhidas pelo seguinte critério: elas devem ser possuidoras de um excelente caráter, ou seja, elas devem merecer o auxílio que Ben lhes quer ofertar.
Apesar de contar uma história que vai ter consequências amplas, “Sete Vidas” enfoca muito o relacionamento que Ben Thomas irá estabelecer com um dos seres que pretende ajudar. Emily Posa (Rosario Dawson, a melhor coisa do filme) é uma jovem artista que possui uma insuficiência cardíaca congênita – ou seja, ela precisa de um transplante de coração para poder sobreviver. De alguma forma, ela será a única a conseguir transpor a barreira que Ben coloca entre ele e as pessoas que ele pretende ajudar – uma vez que ele sempre se apresentará como alguém que quer fazer o bem sem receber reconhecimento ou algo em troca.
Na primeira parceria entre o diretor Gabriele Muccino e o astro Will Smith, no já citado “À Procura da Felicidade”, o ator conseguiu a sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Ator. Com certeza, obter novamente um possível reconhecimento da Academia era o objetivo de Smith ao se reunir de novo com o italiano. O problema é que o tiro saiu pela culatra. O roteiro de “Sete Vidas” repete o mesmo erro visto em “A Corrente do Bem” (um longa cuja temática é muito parecida com a deste): ele mais atrapalha que inspira – especialmente em seu ato final, em que tudo fica bonitinho demais para ser verdade.
Cotação: 5,0
Sete Vidas (Seven Pounds, 2008 )
Diretor: Gabriele Muccino
Roteiro: Grant Nieporte
Elenco: Will Smith, Rosario Dawson, Woody Harrelson, Michael Ealy, Barry Pepper
Marley e Eu

O jornalista e escritor John Grogan, autor do best-seller “Marley e Eu”, que originou a homônima adaptação cinematográfica dirigida por David Frankel, disse tudo quando afirmou que “uma pessoa pode aprender muito com um cachorro, mesmo um doidão como o nosso. Marley me ensinou a viver cada dia com muita exuberância e alegria, aproveitando o momento e seguindo seu coração. Ele me ensinou a apreciar as coisas simples. E, na medida em que ele envelheceu e ficou cheio de dores, ele me ensinou sobre o otimismo diante da adversidade. Principalmente, ele me ensinou sobre a amizade e sobre a falta de egoísmo e, mais do que tudo, sobre lealdade incondicional”.
É assim mesmo que os cães de estimação fazem nos sentir. Eles são mesmo os melhores amigos dos homens – afinal, após um daqueles dias difíceis, eles nos derretem ao nos receberem em casa com carinho; querendo, em troca, somente um pouco da nossa atenção e uma mínima manifestação de amor. Eles são uma companhia constante e parecem ter o instinto certo para saber quando se aproximarem e quando se afastarem.
Além de ter ensinado tudo isto para John Grogan (que, no filme, é interpretado por Owen Wilson), o cão labrador Marley foi uma testemunha viva da construção do projeto de vida do jornalista com a também repórter Jenny (Jennifer Aniston, numa ótima atuação). Afinal, o cachorro viu os dois progredirem em seus empregos, planejarem os três filhos (dois meninos e uma menina), mudarem de cidade, colocarem de lado projetos antigos, entre outras coisas.
Adaptado por uma dupla mais que talentosa, Scott Frank (de “Minority Report – A Nova Lei” e “Irresistível Paixão”) e Don Roos (de “O Oposto do Sexo” e “Mais que o Acaso”), “Marley e Eu” é um filme que cativa o espectador – afinal, é muito fácil para qualquer um de nós se identificar com as situações vividas pelo casal Grogan. Além disso, o longa tem um diretor que sabe apresentar a história sem nunca tentar manipular as nossas emoções.
Cotação: 8,0
Marley e Eu (Marley & Me, 2008 )
Diretor: David Frankel
Roteiro: Scott Frank e Don Roos (com base no livro de John Grogan)
Elenco: Jennifer Aniston, Owen Wilson, Eric Dane, Alan Arkin


