Lendo – Amanhecer* Novembro 10, 2009
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*Atenção para os spoilers.
“Esse era mais ou menos o padrão de minha vida – eu nunca fora forte o suficiente para lidar com as coisas que estavam fora de meu controle, atacar os inimigos ou superá-los. Evitar a dor. Sempre humana e fraca, a única coisa de que eu era capaz era continuar. Suportar. Sobreviver”. (p. 289)

A frase destacada no início desse post é quase que um testamento a tudo aquilo que a jovem Isabella Swan viveu no decorrer dos quatro livros da saga “Twilight”, a qual foi escrita por Stephenie Meyer. Na quarta – e última – obra da série, “Amanhecer” a adolescente vai se deparar, finalmente, com o momento crucial de sua vida – pelo menos, aquele que ela mais ansiava viver desde que conheceu e se apaixonou por Edward Cullen: aquele instante em que ela vai deixar de ser mortal e vai abraçar a vida como vampira de forma a poder ser a companheira eterna de seu amado.
Porém, antes de Bella vivenciar isso, como leitores da saga, chegamos a uma importante constatação. A série “Twilight” era para falar estritamente sobre uma história de amor altamente impossível de acontecer, mas que encontra os seus caminhos para florescer. No entanto, ao nos dedicarmos à leitura completa dos livros da saga, chegamos à conclusão de que as obras da série “Twilight” seguem a jornada de Bella rumo ao amadurecimento da decisão sobre a qual falamos no início do nosso texto – e isso inclui também o desenvolvimento de toda a história referente à Jacob Black, que se torna um personagem tão importante neste universo a ponto de chegar, em certos momentos, a ofuscar totalmente Edward Cullen, contudo, e é importante dizer isso, sem nunca terminar com o encanto que o vampiro exerce sobre nós.
Como Bella e Jacob são personagens tão importantes para a saga “Twilight”, não chega a ser impressionante perceber que, em “Amanhecer”, a escritora Stephenie Meyer decidiu adotar um recurso linguístico bem interessante – e que já foi usado por grandes escritores como Ian McEwan, Virginia Woolf e Michael Cunningham: a alternância de vozes narrativas no texto. “Amanhecer” é quase que dois livros: um que carrega toda a perspectiva de Bella Swan e um segundo que nos mostra o ponto de vista de Jacob Black. Em comum entre esses dois pontos, o fato de que ambos os personagens oferecem suas opiniões acerca do que está por vir.
Mesmo com a presença deste detalhe interessante, “Amanhecer” peca muito, especialmente ao chegar no meio de sua história, por dedicar tempo demais a uma trama que chega a parecer totalmente estapafúrdia – e sei que vai parecer estranho quando eu disser que tal acontecimento era até esperado, uma vez que não imaginava Bella abdicando de sua vida humana antes de vivenciar plenamente todas as experiências de uma mulher. Além disso, é impossível enxergar beleza na maneira como Stephenie Meyer decidiu terminar o triângulo amoroso de Edward-Bella-Jacob – o imprinting do jovem lobisomem, ainda mais com quem foi, soa até doentio e estranho, mas essa é apenas a minha opinião.
“Amanhecer” só decola mesmo no seu segmento final, quando vemos muita ação acontecendo, personagens novos sendo introduzidos, e a exploração de uma sub-trama que coloca Bella Swan como a grande heroína que ela é, afinal a jovem, desde que a conhecemos pela primeira vez, em “Crepúsculo”, já deu provas suficientes de que está totalmente disposta a defender aqueles a quem ama profundamente. São nestes instantes em que Stephenie Meyer nos lembra o por quê de ela ser a autora de um dos maiores sucessos recentes da literatura mundial.
Um detalhe que é importante mencionar é que, mesmo com estas falhas narrativas que notamos, “Amanhecer” é um livro bem interessante do ponto de vista das imagens que ele suscita em nossa mente. O que nos leva a crer que o diretor da última adaptação cinematográfica da série vai ter um bom material a explorar. Até porque “Amanhecer” entrega para os leitores o final feliz que eles tanto queriam ver (alguém duvidava que isso iria acontecer?) e ainda deixa margens para possíveis novas histórias a serem exploradas futuramente pela autora Stephenie Meyer e, consequentemente, Summit Entertainment.
Amanhecer (2009)
Autora: Stephenie Meyer
Editora: Intrínseca
Os Falsários Novembro 9, 2009
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Baseado em fatos reais, o filme alemão “Os Falsários”, do diretor Stefan Ruzowitsky, conta a história por trás da Operação Bernhard, na qual foi feita a maior falsificação de todos os tempos, quando o exército alemão nazista, durante a II Guerra Mundial, obrigou um grupo de judeus prisioneiros de um campo de concentração a falsificar milhões de libras inglesas e, posteriormente, um punhado de dólares.
Isto só foi possível graças a presença de Salomon “Sally” Sorowitsch (Karl Marcovics) neste grupo. Falsificador de primeira qualidade, Sally foi preso e enviado a um campo de concentração, aonde, de vez em quando, dava uma amostra de seu talento incomum. Em uma de suas constantes mudanças de “moradia” durante a guerra, Sally é descoberto pelo seu algoz, Friedrich Herzog (Devid Striesow), o qual coopta-o para a Operação referida no primeiro parágrafo de nosso texto.
É desta maneira que a qualificação rara de Salomon “Sally” Sorowitsch acaba salvando-o da morte. Por ser útil a um determinado propósito dos alemães, Sally usa seu dom como moeda de negociação e consegue convencer ao seu “chefe” de que precisa de uma equipe trabalhando com ele direto nas falsificações. Portanto, ao ajudar os alemães a financiar a guerra e a recuperar a economia de seu país, Sally ainda consegue evitar a morte de outros amigos judeus que passam a fazer parte desse exército paralelo de falsificadores – e, ainda assim, a posição de Sally é delicadíssima, uma vez que ele vive no seu limite o tempo inteiro e depende do bom humor e da boa vontade dos alemães para o seu plano continuar dando certo.
Vencedor do Oscar 2008 de Melhor Filme Estrangeiro, “Os Falsários” é uma obra que chama a atenção justamente por oferecer uma perspectiva diferente sobre um tema que é abordado à exaustão pela sétima arte. O elemento interessante do filme é a oportunidade que ele nos oferece de ver judeus e alemães do mesmo “lado” em um dos aspectos vividos na II Guerra Mundial. Mesmo assim, contraditoriamente, tanto os judeus quanto os alemães sabem que não estão no mesmo barco. Os primeiros lutam pela sobrevivência e nunca estão livres o suficiente para agir com os segundos – os quais usam os judeus, nesse caso, para benefício próprio e do regime pelo qual eles lutavam.
Cotação: 7,5
Os Falsários (Die Fälscher, 2007)
Diretor: Stefan Ruzowitsky
Roteiro: Stefan Ruzowitsky (com base no livro de Adolf Burger)
Elenco: Karl Marcovics, August Diehl, Devid Striesow, Martin Brambach, August Zirner, Veit Stubner
Cena da Semana Novembro 8, 2009
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(O caso da aluna da UNIBAN)
No dia 22 de outubro, uma estudante do curso de Turismo de uma universidade particular de São Paulo foi hostilizada pelos colegas de universidade, pois apareceu, na instituição de ensino, com um provocante vestido vermelho. Chamada de todos os nomes possíveis e imagináveis, a estudante teve que sair escoltada do local, pois o tumulto estava grande demais. Uma cena de total preconceito e hipocrisia, uma vez que a jovem tem todo o direito de sair de casa vestida com a roupa que quiser – independente do fato de eu, você ou qualquer outra pessoa achar que a vestimenta escolhida por ela seja adequada ou não ao ambiente.
Eis que, após instaurar uma sindicância para investigar o acontecido, a universidade decidiu publicar uma nota neste domingo, nos jornais de maior circulação do país, informando que a aluna do caso em questão foi expulsa da universidade “em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”. Um resultado vergonhoso para uma situação mais ridícula ainda. A sentença, além de preconceituosa, é totalmente contraditória. O que acontece com os alunos que chamaram a estudante de nomes de baixo calão? Eles também desrespeitaram os princípios éticos, a diginidade acadêmica e a moralidade. Perderam o seu direito a partir do momento em que invadiram o direito da estudante do curso de Turismo. Eles também deveriam ser punidos, mas o que aconteceria se a universidade tivesse que expulsar todos os estudantes que participaram dessa baderna? Quem iria pagar as mensalidades que mantêm a instituição? É o típico caso de dois pesos, duas medidas. Só no Brasil mesmo!
Pós-Edição: Após a repercussão da notícia, a UNIBAN decidiu revogar a expulsão da aluna.
A Onda Novembro 8, 2009
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No início de “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, filme dirigido por Oliver Hirschbiegel, a Srta. Junge, que trabalhou como secretária particular do ditador alemão, discorre sobre o choque dela diante do fato da Alemanha ter caído nas garras da ditadura nazista. Ela não conseguia compreender porque isto aconteceu, afinal, os alemães são um povo inteligente e não seriam, em decorrência disso, facilmente dominados intelectualmente – ainda mais por ideias tão transgressoras como as defendidas por Hitler.
Nos primeiros trinta minutos de “A Onda”, filme dirigido por Dennis Gansel (também co-autor do roteiro ao lado de Peter Thorwarth), também encontramos um questionamento relacionado a esta responsabilidade histórica carregada pelos alemães. Ao se defrontar com uma discussão realizada pelos seus alunos, o professor Rainer Wenger (Jurgen Vogel) olha para eles e pergunta: a Alemanha atual poderia ser subjugada novamente por um regime ditatorial?
É a partir desta pergunta que a trama de “A Onda” se desenvolve. Acontece que Rainer, um professor que foge do esteréotipo padrão (ele é roqueiro e se veste de forma alternativa) e fala a mesma linguagem que seus alunos, está oferecendo uma oficina sobre o tema Autocracia (termo que significa governo por si próprio e pode ser aplicado a regimes ditatoriais, tiranos, déspotas, autoritários e totalitários) e, como uma experiência prática para que os alunos entendam como a teoria funciona, ele propõe a criação de um grupo o qual dá nome a este filme.
O que o longa efetivamente nos mostra é a criação fugindo do controle do criador. Ao vivenciarem a experiência da Onda, os jovens estudantes do professor Rainer vão além, criam suas próprias regras, expandem seus domínios e passam a se comportar de uma forma que seria irreconhecível para eles mesmos. O interessante aqui é que o diretor Dennis Gansel nos retrata uma atmosfera política perfeita, pois temos o lado dominante e encontramos também um lado de oposição a esse grupo, o qual é formado pelos estudantes que lutam sozinhos para trazer a sanidade de volta à mente de seus colegas de escola.
Baseado em uma história real que aconteceu na Califórnia, em 1967, “A Onda” é um filme surpreendente sobre o poder das ideias, sobre o poder da influência, sobre a força das ações e das palavras, sobre ter a lucidez de reconhecer quando as coisas estão indo pro lado errado, sobre ter a capacidade de admitir erros e de tentar consertar as coisas. Mas, especialmente é um belo estudo sobre como existem certas situações com as quais não se deve brincar e o professor Rainer Wenger aprende isso da pior forma possível – ainda mais porque ele deixou a vaidade de ver várias pessoas fazendo tudo o que ele mandava subir à sua cabeça. Quando ele quis retomar as rédeas dos fatos, era tarde demais. O estrago já estava feito!
Cotação: 10,0
A Onda (Die Welle, 2008)
Diretor: Dennis Gansel
Roteiro: Dennis Gansel e Peter Thorwarth (com base no livro de Todd Strasser)
Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Cristina do Rego, Elyas M’Barek, Maximilian Vollmar
Desejo e Perigo Novembro 5, 2009
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“Desejo e Perigo”. Já está bem definido no título do filme dirigido por Ang Lee quais são os temas principais desta obra, a qual foi baseada no conto de Eileen Chang e foi adaptada por James Schamus e Hui-Ling Wang. O longa se passa durante a Segunda Guerra Mundial, em Xangai, cidade chinesa, quando um grupo de estudantes universitários que fazem resistência à guerra e, especialmente, àqueles que colaboram com os inimigos japoneses, recrutam uma inocente jovem chamada Wong Chia Chi (Wei Tang) para fazer com que ela se passe por uma distinta senhora e se aproxime do Sr. Yee (Tony Leung Chiu Wai), um dos maiores colaboradores dos japoneses no conflito.
A história de “Desejo e Perigo” se passa em duas linhas de tempo distintas. Na primeira, que acontece em 1938, encontramos o grupo de estudantes universitários, os quais são muito interessados em artes dramáticas. Ao montarem um espetáculo de tom patriótico, eles decidem criar um ato ainda maior: uma trama em que cada um deles tem um papel bem definido e que possui o objetivo de alcançar aquilo que descrevemos no primeiro parágrafo de nosso texto.
Na segunda, que ocorre em 1942, encontramos uma segunda tentativa do grupo de conseguir a morte do Sr. Yee – o qual, agora, é uma figura muito mais importante nas relações entre os chineses e os japoneses. Aqui, o roteiro de Shamus e Wang fica ainda mais interessante, pois, com a proximidade que é estabelecida entre Yee e Wong Chia Chi (que adota a alcunha de Mak Tai Tai para o figurão) e, na medida em que as relações entre eles ficam mais passionais e dependente do magnetismo que um exerce sobre o outro, as chances da identidade verdadeira dela ser descoberta se tornam ainda maiores.
Ao assistirmos “Desejo e Perigo”, é inevitável não pensar em “A Espiã”, do diretor Paul Verhoeven, um outro thriller de espionagem passado na Segunda Guerra Mundial. As duas obras se apoiam em personagens femininas que ficam em uma situação extremamente delicada justamente por não conseguirem manter certa distância emocional daqueles que deveriam ajudar a entregar à resistência. Além disso, tem todo o aspecto da sensualidade e da paixão que estes relacionamentos suscitam. Assim como Verhoeven fez, em sua obra, Ang Lee filma tudo aqui (com o apoio da fotografia brilhante de Rodrigo Prieto) com muita classe. O conflito que estas mulheres vivem, a maneira como elas acabam expondo aqueles que deveriam ser suas vítimas, mostram que todos os planos (mesmo aquele minuciosamente feitos) estão totalmente sujeitos às circunstâncias nas quais eles irão tomar espaço – e, nesse sentido, vale também destacar a atuação da dupla Tony Leung e, especialmente, Wei Tang.
Cotação: 8,8
Desejo e Perigo (Se, jie, 2007)
Diretor: Ang Lee
Roteiro: James Schamus e Hui-Ling Wang (com base no conto de Eileen Chang)
Elenco: Tony Leung Chi Wai, Wei Tang, Joan Chen, Lee-Hom Wang, Chung Hua Tou


